Entrelaçados

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Para aquele que um dia levou uma mochilada na cara, mas recebeu algo muito melhor em troca

 ***PLÁGIO É CRIME***

Entrelaçados (conto LGBT)

L. L. Alves

Era noite. Desci os degraus, um pé após o outro, sem hesitação, sem pressa, tentando não pensar em nada. Apertei o casaco mais perto do corpo e ignorei um calafrio. Meus pés chegaram na recepção e eu suspirei. Acenei, dei meio sorriso para a Amanda e a Carol e sai pela porta que rangia.

Chovia. Caia uma chuva fininha que penetrava no meu cabelo curto e respingava em meus óculos. O casaco parecia se acalmar com o toque da água e eu enfiei minhas mãos no bolso da calça jeans, procurando um local para me abrigar. O ponto de ônibus era alguns metros à frente e eu decidi andar, a chuva caindo de leve e fazendo barulho nos telhados e carros estacionados.

Cheguei. Tinha ouvido, um pouco depois de sair do prédio aonde trabalho, vozes que chegavam até mim e eu tentava ignorar, fingir que não estavam lá. Agora essas mesmas vozes caminhavam, a porta rangendo, os passos ecoando com velocidade até o ponto, e a excitação correndo como eletricidade pela rua.

Suspirei. Não adiantava passar as mãos nos cabelos, secar os óculos ou mesmo coçar a barba, com nervosismo. As vozes estavam chegando e as mãos dentro da calça tremiam ligeiramente. Pensei na chuva, no vento que açoitava meu rosto e nas pessoas que estavam ali, esperando o ônibus para ir para casa, finalmente, depois de um longo dia de trabalho.

Era sexta-feira. Eu trabalhara minhas oito horas, recebendo alunos, recebendo pagamentos e olhando de um lado para o outro, para quem ia e vinha. A escola de línguas era movimentava, vibrava de manhã até a noite, e minhas colegas de trabalho não achavam estranho que meus olhos se focassem em barbas por fazer ou cabelos sedosos, vozes grossas e mãos grandes.

Não era estranho. Eu olhava, e sorria, e era eu mesmo, brincando e falando alguma bobagem para preencher o silêncio. Elas davam risadinhas e nós cochichávamos sobre ele, e ele, e aquele outro. Eu engolia em seco e tentava me acalmar, em apenas olhar, mas não dava. Queria andar, correr, tocar, beijar e conhecer.

Eles chegaram. Fingi que não os vi e me concentrei no vento, no cheiro da chuva, no som da tempestade que estava vindo. Fechei os olhos e o calor apareceu, o motor do ônibus, o monóxido de carbono me envolvendo, suas portas rangendo, as pessoas conversando.

Não entrei. Não consegui mover os pés e entrar no ônibus e seguir para casa. Meu coração batia como as asas de um beija-flor e mantive os olhos fechados. Ouvi passos e engoli em seco. Eu não sabia se daria certo, não sabia o que pensar. Ouvi a respiração, o mover de mãos, e o estalar de língua, e ao longe fechavam o prédio, o dia estava chegando ao fim.

Ele falou. Sua voz chegou em mim, despertando-me do meu torpor, da ansiedade, das borboletas no estômago. Sua voz era grossa, doce, mas firme, certa e hesitante ao mesmo tempo. Tentei não me apegar àquelas notas, aquele tom, aquele jeito certo de falar, mas foi em vão.

Abri os olhos. Ele me encarava e esperava resposta, a sobrancelha erguida, a boca ligeiramente aberta, e o nervosismo estampado no bater dos dedos ao lado do corpo, dos músculos da perna, que se encharcavam de chuva.

Eu respondi.

Nós sorrimos.

Caminhamos até a praia. Um ao lado do outro, seu corpo alto, forte, musculoso e com a barba por fazer. Eu, meus cabelos encaracolados, barba recém-feita, e braços magros, sorriso largo. Eu esperei e ele começou a falar, começou a contar. Conversamos por horas, talvez minutos, talvez dias.

Era meia noite. Estávamos sentados na área da praia. Ele, de terno e gravata ainda, o cabelo cortado rente ao couro, as mãos no joelho e o sorriso tímido. Eu, de jeans, e casaco, as mãos geladas, o coração pulsando de quente. As palavras começavam a sumir, começavam a desaparecer, e não eram mais requisitadas, estavam perdendo a força.

Porque nós sabíamos. O primeiro olhar, o primeiro sorriso, o primeiro aceno. Sabíamos desde aquele momento, o abrir de portas, o piscar de olhos, e o encontro de duas almas semelhantes. Nós sabíamos que era aquele momento, que estava certo, que seguiríamos, nós dois, juntos.

Erámos diferentes. Erámos muito diferentes por fora, mas por dentro, éramos iguais, desejávamos iguais, sorríamos iguais, aguentávamos as mesmas dores iguais, amávamos do mesmo jeito. Eu não sabia o que fazer, como controlar aquele sentimento, saber se ele era certo ou errado naqueles dezoito anos de desejos e pensamentos reprimidos. Não me disseram se estava certo sonhar assim, desejar algo que não podia ser desejado, do mesmo sexo, da mesma forma, criado como eu.

Era errado? Ele me olhou e soltou as mãos do joelho. Agarrou minha mão da areia e esquentou-a com apenas um toque, acariciando com delicadeza e carinho, com compreensão e anseio. Eu apertei sua mão em retribuição e engoli em seco. Nossos olhos estavam ligados, conectados, fixos, como ímãs, como yin e yang, uma parte de um todo. Então ele se aproximou, apagando o espaço excruciante entre nós.

Ele me beijou.

Eu beijei-o.

Nós nos beijamos.

Nossas bocas se colocaram, com força e certeza, com veracidade e desejo. Sua mão segurou meu pequeno rosto e puxou-o mais para perto, me levando para um local novo, desconhecido e maravilhoso. Meus dedos, antes gelados, estavam queimando e tocaram o rosto dele, sujando-o de areia, fazendo-o me soltar e agarrar meu cabelo e me beijar mais e mais.

Sua barba arranhou meu rosto. Não me importei. Toquei o músculo do ombro e apertei, e morri por dentro dezenas de vezes, com ele ao meu lado, morrendo junto. Mordi de leve seus lábios e ele me beijou, e selinhos cobriram meu rosto.

Nós nos soltamos. Estávamos sem fôlego, sem acreditar naquilo, sérios, confusos, e nervosos, mas por apenas alguns segundos. Nós sorrimos um para o outro, e rimos, e gargalhamos, e nos tocamos, com carinho, amor e algo novo, uma certeza.

Não era errado.

Segurei a mão dele. Enganchei meus dedos no dele e nós olhamos para o mar. Estávamos sujos de areia, a roupa abarrotada, mas como nunca antes realizados. Ele me deu um olhar e passou os dedos no meu rosto e cutuquei seu queixo e fiz um comentário que o fez rir. Puxei sua gravata e segurei-a com a outra mão enquanto ele me puxava.

Nós deitamos na areia. Ouvimos as ondas, e o barulho das aves, o tráfego da cidade sendo apagado pela natureza e por nós. Deitei a cabeça em seu peito e ouvi o seu coração bater, com precisão, com certeza, assim como o meu. A chuva ainda caía de leve, nos molhando e purificando, e mostrando que nos apoiava, que podia nos tocar e olhar e guiar.

Estremeci. Ele me apertou mais com seu corpo e acariciou meu cabelo e eu toquei em sua barriga e beijei-o, até cansar meus lábios, até nós quase adormecermos ali, no sereno, na certeza daquele amor.

Nesse dia perdi o ônibus.

Nesse dia ganhei um amor. Nossas mãos dadas, os beijinhos tímidos, os abraços calorosos e o amor verdadeiro foram recebidos com piscadas confusas, revirar de olhos, viradas de cabeça, e pigarreio. Nós apenas continuamos, nos amando e sorrindo. Duas partes de um todo, duas barbas e vozes grossas se conhecendo mais a cada dia.

Ele era meu.

Eu era dele.

Ainda entrelaçamos nossos dedos e suspiramos, e lembramo-nos do passado, da exclusão, do medo e da angústia de estarmos errados. Mas sempre estivemos certos. Ainda nos beijamos com amor, com força e desejo e encaramos nossos olhos no espelho e eu sei que ele está certo, e ele sabe que eu estou certo.

Ainda procuro seu abraço e palavras de conforto; ele ainda procura meus sermões e brincadeiras. Nós completamos um ao outro e ainda hoje caminhamos pela praia e sentamos na areia e ouvimos o barulho das ondas, das aves, e, de vez em quando, da chuva. Mas não nos importamos.

Tudo está certo. Nós nos abraçamos para nos proteger do frio e do vento e sorrimos, porque tudo está certo.

Tudo sempre estivera certo.

Entrelaçados (conto)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora