Prólogo

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Mila


Algo vai muito mal. Notei isso quando a primeira coisa que notei foi a dor na minha cabeça, parecia que uma escola de samba inteira estava a pleno vapor. Outra coisa foi a dor latejante no meio das minhas pernas, aquela que você só sente quando faz um bom sexo.

Soltei um fraco gemido e tentei me virar. Eu estava em cima de um corpo quente. Os tum-tuns a mais no enredo não era de uma segunda bateria e sim de um coração humano.

Abri os olhos e me deparei com um peito musculoso e uma pele bronzeada com poucos cabelos escuros. Com o mínimo de movimento olhei para cima. Vi um queixo quadrado, lábios vermelhos e inchados, nariz torto, provavelmente quebrado em algum momento da vida, cílios longas e cabelos pretos. Era o homem mais bonito que já tinha visto pessoalmente, porque os atores de cinema não contavam. E eu nunca tinha visto ele em minha vida.

Fechei meus olhos tentando lembrar da noite de ontem, mas a última coisa que lembrava era de ter chegado na festa a fantasia de Cristina, ter brigado com um babaca que a todo custo queria me beijar e um alto moreno vestido de bombeiro me salvando. Depois, nada.

Com extremo cuidado, desvencilhei de uma perna, um braço e rolei de cima do meu belo adormecido. Naquele momento, lembrei do primeiro episódio de Grey's Anatomy, onde Mer acorda com o bonitão estirado no seu chão e completamente nua.

Disfarçadamente, olhei embaixo dos lençóis e constatei o óbvio, estava nua. Mas não era uma promissora cirurgião geral, loira, magérrima, mãe de três lindas crianças e dona de um hospital. Era uma professora, baixinha, gordinha, que dividia o apartamento com uma maníaca por limpeza.

Pensei comigo que era melhor evitar o embaraço de "eu acordei com uma completa estranha na cama". Então, fui puxando devagarzinho o lençol e saindo de fininho da cama. Estava quase conseguindo quando enrolei o pé no pano e me estabaquei com a cara no chão, fazendo o maior estardalhaço. Sério, acho que até os mortos acordaram.

Sentei no chão e me curvei todinha, o tombo resultou em um enorme galo na cabeça e um corte que estava vertendo sangue.

— Ai! — exclamei de dor.

— Você está bem? — O estranho em minha cama apareceu com a cara na beirada dela.

Olhei por cima da minha mão.

— Não é justo, ele tem olhos verdes.

— A culpa é toda do meu pai. — Ele sorriu e apareceu umas covinhas lindas. E eu caí na real que tinha pensando em voz alta, porque sou dessas.

— Eu...

— Você está sangrando. — Ele desapareceu da minha visão.

Eu ouvi barulho da cama e depois de roupas. Por entre os dedos, o vi entrando em uma porta. Aproveitei e puxei o lençol traidor para cima de mim bem a tempo dele voltar com um estojo na mão.

— Deixa eu vir isso. — Ajoelhou-se ao meu lado e pegou a minha mão.

Com extrema eficiência e cuidado, pegou os materiais de primeiros socorros e começou a limpar e cuidar do ferimento. Quando fiz uma careta por causa do ardor do antisséptico, ele assoprou com carinho. Finalizou o trabalho com dois band-Aid.

— Pronto. — Sorriu.

— Obrigada... — Gente eu não sabia o nome do cara com quem passei a noite.

— Samuel. — Ele estendeu a mão.

— Mila. Quer dizer, Camila. — Atrapalhei-me. Eu sou completamente desastrada.

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