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Capítulo Dezassete: Mentiras Piedosas

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"Tinha a boca esponjosa da última vez que o vi. Cheirava a urina com mais de quinze dias e a azedo de vómito. Um pano embebido em sangue mergulhou num pequeno barril de água, para regressar menos vermelho à superfície. O líquido dentro do recipiente, por sua vez, parecia viscoso e carmesim. Era Eduarda quem me limpava as feridas, com aqueles olhos negros como o Mar Zegreu, negros como a morte. Claro está que eu encontrava-me amarrado, coagido a ficar ali por quatro horas, onde homens melhores tinham morrido em condições semelhantes – o porão do galeão imperial que Merren Eduarda roubara à frota corsária de Cacetel. Fez-me fitar as contas coloridas dos anéis que orlavam os seus dedos, perguntou-me quantos dedos eu via e respondi seis, para o testar. Repetiu a pergunta, depois de colocar as mãos atrás das costas e as fazer regressar e então eu sorri, disse-lhe que não via dedos mas as patas de um burro e ele soltou uma gargalhada. Esperei pelo pontapé que me partiria o queixo, mas ele não veio. Eduarda ergueu-se e saiu, mas antes disso prometeu-me que voltaríamos a encontrar-nos, quando eu estivesse à sua altura, e que nos defrontaríamos até à morte. Essas palavras morderam-me o orgulho. Eu era um dos Doze Vermelhos. O traidor. O melhor guerreiro de toda a Rezoli. E saí dali no interior de um bote, vivo mas humilhado, em direção a nenhures"

Empecilho sabia que aquilo estava errado. Ccantia era agora uma cidade fantasma, pejada de cadáveres. O exército variegado de Mario Bortoli avançava para Chrygia, deixando a cidade sem os seus maiores tesouros, a braços com fogos deflagrados de difícil controlo e uma terrível sensação de vazio, provocada pela carnificina levada a cabo. Não restavam mais de duzentas pessoas vivas na cidade, quando antes, a população rondava os três mil. A maioria dos sobreviventes eram velhos, coxos, bêbados ou crianças de colo. Prostitutas tinham sido violentadas até à morte, e o mesmo sucedera-se com todo o tipo de mulheres jovens. O massacre de Ccantia figuraria nas gestas por muito tempo, desse por onde desse.

― Sete pintas! Ganhei outra vez ― disse Marovarola com ar vitorioso, ao olhar para o dado de madeira com sete pintas viradas para cima, sobre a tábua de uma mesa. Ainda estavam na estalagem que servira de sede logística a Mario Bortoli, e Marovarola esticou uma perna para cima da tábua, revelando uma bota de cano alto, cheia de atilhos e ilhoses. À sua frente, Seji ergueu-se, indignado e de mãos à cintura.

― Impossível. É a quinta vez consecutiva. Só pode ser batota.

― Marovarola tem um leque quase infindável de truques, Seji. Claro que é batota ― soou a voz de Anéis da Morte, que descia a escadaria. ― Não te deixes enganar.

Eduarda não revelava sombra de humor na sua expressão encovada e angular, embora as suas palavras tivessem o seu quê de brandura. Empecilho viu que ele estendera o seu olhar para a porta entreaberta, onde os primeiros raios de sol beijavam a pedra avermelhada de sangue seco da calçada com uma calma vespertina.

Merren "Anéis da Morte" Eduarda virou-se para Marovarola.

― Lembras-te do que te disse ontem à noite? ― Marovarola perdeu o sorriso e fitou a tábua da mesa com um olhar aborrecido.

― Lembro-me, mas tive esperança que você se tivesse esquecido. Envenenar senadores, foder putas virgens, despejar garrafas de rum numa dispensa vazia, ludibriar charlatões, Marovarola consegue. Mas... governar uma cidade? Não, isso é mau demais.

O antigo líder da Trupe da Morte pareceu tenso. A ferida no peito fora costurada, mas mantinha a sua veste negra, rasgada na zona do golpe.

― Ccantia precisa da tua astúcia Marovarola. Precisa reerguer-se com aquilo que tem. Há muito trabalho a fazer, corpos a enterrar, fogos a apagar, recursos monetários a fazer aparecer, obras de reconstrução a proceder, esperança a nascer... E eu vou abandonar a cidade quando ela mais precisa de um líder. Perdi esta batalha, Marovarola. Mas ainda tenho batalhas a travar, que não me podem reter aqui. As minhas filhas, Chrygia... Por Luce, sei o que tenho a fazer.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!