Diversos #26 - O mindset do escritor

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Imagine o esforço necessário para escrever um romance ou um roteiro ou livro de poemas. Muito trabalho, certo? Mas "muito" não dá ideia real de todo o trabalho.

Por isso, eu vou quantificar esse esforço para vocês. Para o exemplo, vamos usar um romance de 80 mil palavras – isso dá mais ou menos 350 páginas.

Escrevendo a média diária do NaNoWriMo (1666 palavras) vamos precisar de 48 dias.

Nem é tanto assim, não é verdade? Menos de dois meses.

Mas vamos usar os finais de semana também? Para sermos conservadores, vamos considerar que não. Nossa conta vai para 68 dias. O que ainda não é assustador.

Só que não dá para esquecer que vamos precisar reescrever a história algumas vezes. Pelo menos três vezes completamente. Isso nos levará para 204 dias – quase sete meses.

Contudo nem todo o tempo é escrevendo. Existe o período que enviamos para o leitor beta e esperamos que ele leia, o tempo que deixamos a história descansando, o tempo que analisamos a história como um todo para procurar falhas no enredo, o tempo que perdemos em bloqueios...

Esses tempos podem se estender muito, mas vamos usar para essa conta apenas 30 dias, dando 234 dias. Quando possível, deveríamos contratar um leitor crítico e um revisor profissional. Vamos somar mais 60 dias para isso (no meu caso, foram 40 dias pela leitura crítica e 60 para a revisão). Total: 294 dias.

Só que tem uma pegadinha nessa conta, precisamos de umas 3-5 horas de dedicação intensa por dia para cumprir essa meta e você provavelmente trabalha ou estuda, ou faz os dois ao mesmo tempo. Dá para entender porque um livro com frequência demora mais de um ano para ser escrito, não é verdade?

Diante de um desafio tão grande, qual é o segredo para seguir em frente até terminar o livro?

Não é um segredo. É exatamente a mesma coisa necessária para quase qualquer coisa na vida, inclusive conseguir levantar do sofá e se preparar para correr uma maratona. Persistência, constância e confiança.

Um passo de cada vez, até que as coisas deem certo. Um passo de cada vez, até que o esforço do próximo passo não seja tão grande. Uma palavra de cada vez, uma página de cada vez, um capítulo de cada vez, até que você termine. Fazer e continuar fazendo, é disso que se trata a persistência e a constância.

O pulo do gato, contudo, é a acreditar que mesmo que erremos a direção algumas vezes, em algum momento, teremos um bom livro nas mãos. Simples assim. Somos criaturas mais simples que imaginamos ser, inclusive. Só nos esforçamos por um longo período se acreditarmos que a recompensa valerá a pena.

Se os dois primeiros elos dessa corrente são forjados através do esforço, o terceiro não é. É uma crença quase religiosa que no final tudo vai dar certo. Que nós somos capazes e que nossos erros nos ensinarão ainda mais que os acertos. E que quando chegar o momento certo, mesmo que demore, vamos ter a alegria de saber que escrevemos um bom livro.

Toda essa questão da crença pode parecer boba para alguns, mas não é. Somos ansiosos e inseguros e preguiçosos. Queremos um livro genial pronto sem querer enfrentar a dor e o trabalho de sermos geniais.

Não é à toa que o escritor Douglas Adams disse "odeio escrever, adoro ter escrito.".

O processo de escrita é um enfrentamento dos nossos medos, incertezas, agonias. Sem a confiança que, em algum lugar no futuro seremos bons o suficiente, partimos no meio. Comparamos o que temos e o que falta e nos assustamos e desistimos. Essa é a razão por ser tão normal que escritores iniciantes comecem uma história e desistam dela no meio. Será que não ficaria melhor em primeira pessoa? Ou no passado? Será que os diálogos estão naturais? Será que os personagens são profundos o suficiente?

Os questionamentos não param e as respostas não vem. Muitas vezes, são questões sem grande importância. A maioria dos problemas com as histórias será acertado naturalmente ao longo da escrita, ao longo das rescritas e revisões. Quase sempre, o trabalho só precisa ser terminado.

Imaginem um escultor olhando para um bloco de mármore. Se ele não acreditar que pode fazer alguma coisa boa, para que ele vai lascar a pedra? Ele precisa de mãos firmes tanto quanto precisamos. Ele precisa acreditar que fará algo digno, assim como nós precisamos. E nós ainda temos o "delete" a nosso favor.

E para aqueles que têm a insegurança um pouco mais musculosa do que o normal, eu asseguro que estive no lugar de vocês por dez anos. Eu queria escrever e desistia por não acreditar que seria bom algum dia. Eu rasguei o que escrevia por vergonha de não ser bom o bastante. Eu desisti porque o esforço nunca seria recompensado. Eu falhei tanto e tantas vezes que parei de me preocupar com os erros. E fui tentando sem grandes pretensões até ler um best-seller americano cheio de falhas e entender como eu faria melhor. Só nesse momento eu tive a confiança que seria um bom escritor algum dia. Só a partir daí que comecei a escrever O Segundo Caçador, que só nove versões depois venceu o Prêmio UFES de Literatura.

Resumindo, temos nos esforçar e continuar nos esforçando, e acreditar que chegaremos lá algum dia. Não existe atalho. A evolução é gradual. Noventa e nove por cento do trabalho é suor. Se você quiser ser um escritor, esse é o caminho.

OBS.1: Para muitos, metas diárias, semanais e mensais ajudam. Só lembre que cada meta batida deve ter a sua recompensa equivalente.

OBS.2: Vale lembrar que cada livro é único e que por isso tem o seu próprio tempo de maturação.


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GUIA do Escritor de FicçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora