LIVRE.

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Quando Lisa disse que tinha planos para nós dois, eu imaginei todas os programas possíveis...
Menos que eu estaria em uma loja no shopping Leblon escolhendo um terno.

- O que acha desse? - Ela retirou dos cabides um terno azul escuro.
- Por que mesmo estamos escolhendo essa porcaria?
- Porcaria? É a loja mais cara da Zona Sul, Ian!
- Você está falando com a pessoa certa? Lisa, eu ando de chinelos.
- Bom, eu também, mas uma vez ou outra devemos nos entregar ao lado elegante da vida. - Lisa dá de ombros.
- E por que, exatamente?
- Bom, Sr. Castelli, isso você só vai descobrir mais tarde.
- Lisa...
- Qual é, Castelli! - Ela abriu um sorriso e seu rosto demonstrou total leveza, enquanto além de constrangido eu me sentia um peixe fora d'agua naquela loja, preocupado com o quanto minha carteira choraria com o preço daquela roupa. - Escolha um.
- Eu não sei escolher essas coisas, Lisa. Eu nem gosto! - Na verdade, eu sabia, e o Ian de dois anos atras ficava tão bem em um terno chique quando esse Ian ficava de cabelos presos e uma regata qualquer.
- Então me deixe escolher para você, que tal?

Resolvi ceder e me sentar em um dos sofás brancos da grande loja de vidro, observando Lisa correr pra lá e pra cá com vários ternos na mão, colocando defeitos e mais defeitos, irritando a coitada da vendedora. Eu não sabia o que estávamos fazendo ali e éramos os únicos de chinelo naquela loja, o que chegaria a ser estranho, se Lisa não soubesse o nome de todas as vendedoras e não parecesse estar se sentindo em casa.

- Prontinho. - Ela estendeu um terno preto e uma gravata pérola. - Experimente enquanto escolho seus sapatos. Que número você usa?
Eu me levantei, pegando o cabide da mão dela e rolando meus olhos:

- Quarenta.
- Ótimo. - Ela sorriu, parecendo estar completamente satisfeita com toda aquela situação.

Entrei no provador e comecei a vestir aquela roupa desconfortável. Quando pronto, me encarei no espelho e me lembrei porque tinha ficado anos sem usar ternos: eles me lembravam da formatura de Amora. Ignorei o pensamento antes que sentimentos de culpa e dor tomassem conta de mim. Coloquei os cabelos loiros pra trás da orelha e abri a cortina.
Poucas coisas eram tão bonitas quando a expressão de Lisa quando me viu.
Ela, que estava com a vendedora, implorando por um sapato preto fosco e não brilhoso, virou-se para mim e abriu um leve sorriso, tão rápido que não sei dizer se foi apenas minha imaginação. Ela me encarou com aqueles grandes olhos e quando a franja caiu sobre eles, Lisa a afastou, prendendo o cabelo todo num rabo de cavalo mal feito. Ela era linda.

- Você não ficou tão mal.
- Você acha? - Perguntei, colocando as mãos nos bolsos da calça.

Ela se aproximou, levantou a cabeça para poder enxergar meu rosto, por eu ser um pouco mais alto e me encarou, falando baixinho:

- Eu tenho certeza.

Sem pensar duas vezes, eu coloquei meus braços ao redor de sua cintura, a envolvendo. Ela colocou as duas mãos sobre meu peito, falando devagar:

- Acho que preciso de um vestido. Você me ajuda a escolher?
- Você não parece precisar de ajuda para essas coisas.
- E não preciso, mas sua opinião conta.
- O que quiser.

Ela sorriu, mostrando todos os dentes brancos e um olhar brilhante. Eu a soltei, fazendo com que ela retomasse a sua posição inicial:

- Bom, vamos levar esse e um par de seus melhore sapatos italianos pretos, por favor. - Disse para a vendedora.

- Qual a ocasião? - Perguntei
- Você descobrirá. - Ela sorriu como criança travessa.

Quando paramos em frente ao caixa, eu não consegui acreditar no preço daquelas coisas. Eu poderia comprar uma casa com aquele dinheiro.

- Coloque na conta, por favor.
- Claro, Srta. Wengrov.
- Lisa! Você não pode fazer isso, eu vou pagar, pare de bobeira. - Insisti.
- Shhh! - Ela colocou o indicador em frente da boca. - Você é meu convidado.

Emburrado, peguei as sacolas e ouvi ela agradecer, chamando a vendedora pelo nome, e começar a andar ao meu lado.

- Cliente conhecida você...
- Sou frequente nessa loja, compro ternos para meu pai o tempo todo.
- Empresário?

Ela deu uma risada, parando e me olhando:

- Você realmente não sabe?

Fiquei sem entender, franzindo a testa,

- Você não nos conhece? - Ela perguntou e após pensar por alguns minutos, eu arregalei os olhos.
- Wengrov...
- Os aviões. - Ela completou, sorrindo humildemente, coisa que não combinava com a situação, mas ela fazia parecer comum.

Acontece que Lisa Wengrov era a única herdeira dos aeroportos Wengrov, e eu não sei como não percebi antes. Sua mãe era famosa, saía em várias revistas de empreendedoras e o pai, além de piloto, possuía uma empresa, responsável por fabricar e exportar peças de aviões para todo o mundo. Por pouco, meu queixo não caiu. Minha família sempre teve dinheiro, mas o império dos Wengrov poderia comprar tudo o que temos e mais um pouco. Lisa precisava de alguém que fosse tão rico quanto ela, tão elegante quanto ela, e eu não sei como pude pensar que ela poderia ser minha.
Após entrarmos em umas 5 lojas procurando pelo "vestido mais perfeito desse mundo inteiro", como ela definiu, finalmente Lisa estava em um provador, experimentando o vestido mais caro da loja.
Quando ela saiu dele, eu perdi o ar. Eu acho que comecei a querer ela mais do que querer, precisar dela mais do que precisar, abraçá-la mais do que abraçar, conhecê-la mais do que apenas conhecer. Eu me senti abençoado por ver Lisa em um longo vestido branco, em contraste com seus olhos, colado no corpo e com pérolas soltas pelo seu peitoral. O decote era em V, me fazendo querer puxar aquele vestido pra baixo e beijar cada parte dela. Eu jamais tinha visto algo tão bonito quanto Lisa naquele momento. Eu olhava para ela e meu coração amava a vista, ela era a união todas as coisas mais belas e puras do mundo.

- O que achou? - Ela perguntou, confusa. - Eu não estou me sentindo muito bem nele...
- Você está incrível - A interrompi, me levantando para encara-la.
- Tem certeza?
- Lisa... - Eu soltei as sacolas no chão e segurei no corpo dela, a virando para o grande espelho do provador, que agora estava aberto - Olhe para você.

Ao lado dela, de regata, bermuda e chinelo, eu me sentia um cachorro de rua. Lisa era fina, elegante, e eu era um mendigo.

- Não sei, eu...
- Não troque novamente, Lisa.
- Você só está falando isso porque está cansado de andar pelo shopping! - Ela esbravejou.
- Não, não é isso, você está linda... é o vestido mais perfeito desse mundo inteiro.

Ela sorriu, assentindo com a cabeça:

- Puxe o zíper pra mim, não consigo.

Minha boca abriu e fechou, sem fazer sim algum. Comecei a puxar o zíper da parte traseira do vestido, demorando um pouco mais do que deveria só para poder ver as costas dela nua. Não havia nenhum fecho de sutiã, então presumi que ela estivesse sem.

- Por que a demora? - Ela sussurrou.

Puxei o vestido pelos seus ombros e senti o corpo dela se arrepiar quando, sem querer, meu dedo tocou sua pele.

- Pronto.
- Agora saia, preciso me trocar.

Relutante, fiz o que ela pediu, me sentando no sofá novamente e totalmente desnorteado. Eu queria Lisa  e não havia dúvidas nisso.
Alguns minutos depois, o que considerei uma demora absurda apenas para colocar uma roupa, Lisa saiu do provador e entregou o vestido para a vendedora, mandando embalar junto com um sapato preto.

- Pronto, agora você pode ir pra casa. - Ela disse, me fazendo arquear as sobrancelhas.
- Como?
- Me encontre nesse endereço, as oito em ponto. Se você atrasar, entro sem você e terá que me procurar. - Ela me entregou um papel com uma caligrafia delicada, que imaginei ser a sua. - Faça uma promessa.

- Eu prometo - Estendi o mindinho, entrelaçando no dela.

Saí da loja sem olhar pra trás, porque sabia que perderia o controle e a beijaria ali mesmo. Lisa estava me confundindo cada vez mais, mas ela me tirava as forças até para reclamar.

LISA [COMPLETO - EM REVISÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!