NINGUÉM.

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Se minha mãe descobrisse que o motivo de eu ter feito o motorista esperar mais de duas horas na porta do prédio onde faço ballet toda terça e quinta é um garoto loiro com camisa ao contrário e uma mochila imensa nas costas, ela me mataria. Eu mesma estava quase me matando. Tanto por tédio quanto por medo.

- E então? Estamos andando a mais de 10 minutos sem falar uma palavra. - Eu me irritei. Já estava escurecendo e eu precisava voltar pra casa.
- Então... eu esqueci de te dizer que não sou daqui.

Eu travei. Ou ele batia na própria cara ou eu faria isso por ele.

- Como é que é?
- Eu não conheço o Rio de Janeiro. Inclusive, essa é minha primeira vez na cidade.
- E você me chamou pra tomar um suco onde, exatamente?
- Na casa onde eu vou ficar.
- Onde você vai ficar?
- Eu não fui pra lá ainda.
- Meu deus! Quem é você?

Eu retirei minha bolsa do ombro dele, parando no meio da calçada e tentando não tirar a vida dele ali mesmo.

- Meu nome é Ian Castelli, eu tenho 22 anos e eu não sou ninguém.
- Isso não significa nada, garoto! - Comecei a dar a volta, ele já tinha me irritado o suficiente.

- Lisa! Lisa! Olha... - Ele segurou no meu braço de novo.
- Fala, pomba!
- Pomba?
- Eu não falo palavrão, Ian! Agiliza!
- Olha, ok, espera, Lisa, olha...
- Você está se embolando.
- Eu só queria passar um tempo com você.
- E eu posso saber de onde você me conhece?
- Eu não...
- Ok, já entendi.

Eu tinha cansado. Meu Deus, ele era louco ou o que?

- Eu não te conheço, Lisa. Mas seus olhos, porra, seus olhos... eles me fazem querer te conhecer.

Eu nunca reparei nos meus olhos, mas Ian fez com que eu quisesse pegar um espelho naquele momento e os encarar.

- Meus olhos? - Eu gaguejei.
- Sim, seus olhos. - Ele tocou meu rosto.
- Ok, nova regra. - Eu tirei a mão dele. - Você não toca em mim até que eu te peça. E eu não vou te pedir, então vá tirando o cavalinho da chuva.
- Suco?
- Eu não vou pra sua casa!
- Tecnicamente, não é a minha casa.
- Não!
- Então nos leve pra próxima padaria.
- É só a três quadras daqui e eu estou morta!

Me senti uma babaca assim que terminei a frase, porque Ian estava carregando uma mochila imensa.
- Então deixa eu chamar o uber?
- Se você encostar em mim...
- Eu não vou, Lisa, eu prometo.

Ele olhou nos meus olhos e eu perdi o ar. Só consegui assentir.

LISA [COMPLETO - EM REVISÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!