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Chorando, ela já não luta para se recompor, apenas concentra sua atenção no filete de sangue que escorre da cabeça e vagueia entre os azulejos acinzentados e imundos do motel barato. É sempre assim: ela encerra a noite achando que chorou lágrimas para uma vida inteira, mas, no dia seguinte, o nó que comprime a garganta está lá de novo, batendo ponto, seu fiel companheiro.

Longos minutos depois, a alma ainda está pesada, mas já não caem lágrimas. Ela tira as notas da bolsa e começa a contar. Trezentos. O desgraçado deu cem a menos, ainda por cima, mas é o suficiente por hoje. Ela sabe que os trezentos reais que conseguiu não batem a rígida meta de lucro diário que estabeleceu, todavia quando se vê assim, cara a cara com a morte — situação que até já se repetiu numa mesma noite —, ela decide encerrar o expediente e agradecer a alguma divindade que ainda não nomeou por ter sobrevivido mais um dia.

Ainda não são onze horas da noite quando ela volta a vagar por ruas escuras. Sapatos de salto alto e vestido grená justíssimo que deixa à mostra suas belas e sinuosas curvas. Os lábios carregados de batom vermelho sorriem para os motoristas que passam assoviando e gritando impropérios. Tá decidido: se aparecer mais alguém, ela topa.

Novamente, é sempre assim: o medo, o sangue, as lágrimas; enfim, a visita cruel da morte, que sopra seu hálito gélido, pútrido, mas decide que ainda não é a hora e se vai... E então, vinte minutos ou meia hora depois, quando tudo isso parece ter acontecido noutra vida, a moça sabe que não pensaria duas vezes se um cliente aparecesse e perguntasse o valor de algumas horinhas.

Ela apelidou mentalmente seu trabalho noturno de meu Everest. Certa vez, na preguiça modorrenta de um feriado, ainda se recuperando de um golpe violento que levou nas costelas, ela passou a noite assistindo a um filme — ou teria sido um documentário? — sobre a febre da montanha que faz um alpinista gastar mais de 60 mil dólares de suas economias, abandonar a família e o trabalho, e partir para a montanha mais alta do mundo, o teto da Terra, em busca de glória, autoafirmação ou reconhecimento da comunidade de escaladores. Aqueles que conseguiam chegar ao fim da aventura com vida, comumente alpinistas experientes, costumavam dizer que nunca mais o fariam de novo, entretanto eram poucos os que não voltavam para atacar o cume do Everest mais uma vez. Assim, ela repete mentalmente, era o trabalho dela. Num dia particularmente violento, encerrava o expediente dizendo que aquela teria sido a última vez, mas, em seu íntimo, sabia que não era. Não podia ser.

É certo que alguns dias são particularmente tranquilos. Volta e meia, aparece um cliente mais carinhoso, perceptivelmente não habituado às putas, ou um ou dois adolescentes dando seus primeiros passos rumo à perdição — e, ah, como ela adora ensinar os novinhos —, ou, como acontecera ontem mesmo, um homem que paga umas boas centenas de reais para, na hora do vamos-ver, desabafar sobre a crise no casamento, sobre o fracasso na vida profissional, a falta de respeito dos filhos. Alguns, como o de ontem, até pedem desculpas por não ir às últimas consequências, mas ela sempre diz que está tudo bem, e os acalma e mima.

"Puta faz jornada dupla, porque também é psicóloga", segredou uma amiga transexual, nas primeiras noites em que a moça, ainda novata, começou a perambular perdida nas madrugadas da cidade de São Paulo, buscando clientes e conselhos das colegas de trabalho mais vividas.

O fluxo de pensamentos e lembranças é interrompido quando um carro pequeno para ao lado dela e um rapaz de uns vinte e cinco anos sorri, convidativo. O olhar é de puro desejo, medindo-a de cima a baixo.

— Quanto custa um arrebento, vadia?

Ela nota a aliança no dedo anelar da mão direita dele. Onde estaria a donzela do príncipe a uma hora dessas? Provavelmente dormindo, reflete a moça. "O mesmo dinheiro que compra o sexo, mata o amor", July vivia dizendo. July morreu esfaqueada por um cliente há menos de duas semanas. Passou até na TV.

Ela prepara o sorriso mais sedutor, arruma o vestido de maneira provocativa, ressaltando os seios que parecem implorar para saltar da blusa, e afasta definitivamente os pensamentos ruins.

— Pra você, eu faço quinhentos, amor.

— Caralho! Tá caro, hein? — responde o rapaz. Com fingida inocência, ela desvia o olhar do homem, como se não fizesse mesmo questão de acompanhá-lo, e alisa os seios com suavidade e lascívia.

Vinte minutos depois, ele está com os lábios famintos no mamilo esquerdo da moça, enquanto ela faz uma estimativa de quanto irá gastar no mercado quando amanhecer e tudo aquilo estiver terminado. A cabeça dela está completamente avoada nesta noite, porque mal sabia onde estava. Não prestara atenção ao caminho que fizeram para chegar àquele quarto ajeitadinho e o jovem que abocanhava seus seios com violência não dissera nada desde que ela informara o preço do programa.

— O dinheiro antes, amor, e eu chupo direitinho — ela diz no ouvido do cliente, enquanto se espreguiça sensualmente.

Ela recebe o dinheiro e o guarda, mantendo-se fiel à tática de dividir o bolo de notas em diversos compartimentos da bolsa. Isso ela aprendeu na prática. Depois de ter satisfeito um homem que parecia perigosamente drogado, teve que assistir inerte, sob o risco de ser esfaqueada, ao cliente que se lambuzara nela alguns minutos antes abrir a bolsa e pegar o dinheiro de volta. Naquele dia, ela aprendeu. Quando aconteceu de novo, o cliente da vez desistiu de revirar a bolsa e partiu depois de reaver um terço do que pagou, não sem antes desferir um belo cruzado de direita no olho da "vagabunda imunda, puta, vadia, chupadora de pau", como fez questão de registrar.

Esforçando-se para sair do palácio mental e se lembrar de gemer, ela presta atenção pela primeira vez no rapaz que se movimenta em seus quadris e verbaliza o tesão com urros e gritos animalescos. O moço é bonitinho, ela pensa. O corpo é atlético, o rosto tem uma seriedade que contrasta com a juventude, os olhos são intensos e perscrutadores... Se fosse numa outra situação, numa outra vida, talvez... Ele é cuidadoso, também. Deve ser a primeira vez com uma puta, conclui. Quando ele termina, ela percebe que se esqueceu de fingir o orgasmo, perdida que estava em tentar reconstituir os passos que os levaram até ali para se lembrar das linhas de ônibus que passavam na região.

O rapaz não parece muito incomodado com sua incapacidade de dar prazer à moça, já que se levanta de um salto, bem-humorado, e, com a maior cara de pau que ela vira até então, liga para a noiva, esposa ou namorada. Ela escuta, mas finge dormir.

— Eu sei, eu sei — o rapaz diz, impaciente. — Amanhã, a gente se vê. Eu prometo. Apareceu uma reunião com uns japoneses, meu amor. Eu não podia deixar o André na mão aqui no escritório. Aliás, os caras ainda tão ali na conferência e eu só saí de lá pra dizer o quanto amo você. Te amo, meu amor. Amanhã, eu te pego na faculdade.

Depois de desligar, o rapaz suspira profundamente e se deita, abraçando a moça e acariciando os cabelos dela até adormecer.

Toda noite ela chora, nem sempre pelos mesmo motivos. Além do medo e da temida aproximação da morte, uma das razões que mais a faz verter lágrimas é o dilema moral inerente ao seu trabalho. Conversas entre casais eram particularmente dolorosas. Mesmo depois de algum tempo ganhando a vida na noite, dependendo especialmente desses homens fujões, ela não consegue deixar de sentir grande empatia pelas namoradas, noivas e esposas abandonadas em casa. O que leva um homem a deixar em casa a mulher que ama, a se entregar ao corpo de uma desconhecida, a dormir acariciando os cabelos dessa desconhecida, gesto tão afetuoso e terno?, ela se pergunta. A moça não sabe, mas sente pena de si mesma, até certo arrependimento do que faz, quando pensa nas mulheres de seus clientes. Em dias muito amargos, ela até torce para encontrar a esposa de um de seus amantes fugazes e tomar uma sova inesquecível. Ela já se decidiu: não reagirá; irá receber a fúria da mulher traída de peito aberto, sem levantar um dedo sequer. Ela merece, né?, pensa sempre que segue esta linha de raciocínio.

Ela já até perdera boas oportunidades por causa deste dilema moral. Por indicação de uma colega, passou a investir em clientes fixos, que tratam putas como amantes, visitando-as com frequência semanal, dando presentes que nem mesmo suas esposas ganham. A moça passou um mês atendendo exclusivamente dois clientes fixos, trabalhando somente duas vezes por semana, e faturando quase o mesmo dinheiro que conseguia ganhar vivendo os perigos das ruas todos os dias. Contudo, aquele mês foi de sofrimento. Em todos os encontros, seus clientes fixos falavam de suas esposas ou a moça via fotos dos filhos ou do casal no celular de seus amantes endinheirados. Não deu para continuar. Voltou para a rua, para a incerteza da vida.

Clara, meu nome é ClaraLeia esta história GRATUITAMENTE!