Promessa de Heylel

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São Paulo, 8 de março. 19 horas e poucos minutos.

— Você não está muito bem, não é mesmo? – A mulher de longos cabelos ruivos olhava preocupada para a outra, de pele negra, sentada no que sobrou de uma poltrona de couro, desgastada pela ação do tempo.

— Hoje ele está fazendo três anos Cassandra – a voz da mulher era baixa, contida e enquanto falava, deslizava suavemente as pontas dos dedos sobre um pingente circular gravado com a letra J.

— Eu não consigo nem imaginar como deve ser horrível, Anitiell. – Cassandra alisava os cachos escuros da sua amiga, sentindo a maciez dos cabelos. – Mas escolhemos um caminho que o pequeno Joshua não sobreviveria ao trilhar, mal podemos garantir nossa sobrevivência. Claro, ele vai crescer, vai se tornar forte e nós o encontraremos, lutaremos juntos.

— Não sei o que ele se tornará, Cassandra. Essa incerteza me consome. Um filho de um demônio com um Celestial... O que nós geramos? – Os olhos castanhos de Anitiell brilharam com as lágrimas.

— Dante me contou histórias cruéis de criaturas Híbridas, mas também me falou de muitos que vivem sua vida toda sem saber o que de fato são, ou que escolheram lutar por uma causa nobre. Eu tenho certeza que Joshua será um guerreiro, assim como o pai, com a bondade herdada da mãe, seja lá onde ele estiver eu sei que ele está em boas mãos...

Cassandra abaixou a cabeça, há três anos ela havia aberto um portal e transportado Joshua para algum lugar, na época não tivera muita escolha; ou tomava essa atitude ou o recém-nascido estaria morto.

— Eu sei que você fez o que estava ao seu alcance, Cassandra, e eu também sinto que meu pequeno está bem, apenas queria estar com ele.

O silêncio durou por alguns minutos até Anitiell suspirar pesadamente e assumir um semblante vívido e alegre, com um sorriso lindo de dentes perfeitos e brancos, contrastando com sua pele escura. Ela olhou para Cassandra.

— E você e Dante? Vão assumir o namoro quando? Nem adianta negar que tem um clima entre vocês.

Cassandra sorriu tímida antes de responder.

— Acho que não tivemos muito tempo para assumir o namoro, não com essa vida que levamos, mas acho que estamos curtindo a companhia um do outro.

— Você merece ser feliz, Cassandra. Vamos pra sala, talvez os meninos estejam precisando de ajuda, logo a velha volta – Anitiell disse ao se levantar.

Longe do olhar de Anitiell, Cassandra pegou o bilhete de Dante deixado naquela manhã e leu pela inúmera vez:

"Volto em breve"

***

São Paulo, 8 de março. 10 horas e poucos minutos.

— Desculpa a demora, mas eu estava na Rodovia SP 122, sorte sua que o celular deu sinal por aquelas bandas – Dante falava com a mulher ao seu lado, subindo o estreito lance de escadas de um prédio antigo do centro de São Paulo. – O que tem de tão grave que não conseguiu resolver sozinha?

— Você vai ver com os próprios olhos. Mas por que não veio junto com seu "grupinho"?

— Eles estavam ocupados com outros assuntos.

— Você sempre mentiu mal, Dante. Tem mulher no jogo, não é?

— Eu não ia ficar sozinho para o resto da vida, Vivi. Achou que eu ia esperar você voltar do mesmo modo como você se foi?

Promessa de Heylel - 4° Conto da Série Silhuetas na PenumbraLeia esta história GRATUITAMENTE!