Capítulo 8

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Em menos de quinze minutos, os dois já estavam na garagem do prédio, com Murilo todo pimpão com o focinho para fora da janela do carro, posicionado no banco do carona, enquanto Pablo colocava no porta-malas uma mala mediana, que continha calças e camisas que davam para, pelo menos, duas semanas. Como o dia 24 cairia na sexta-feira, imaginou que se tudo corresse bem e ela tivesse alta logo, já poderia ficar direto para o Natal, voltando apenas na véspera do ano novo.

Sentou-se ao volante, mas, antes de ligar o carro, lembrou-se de passar uma mensagem para o chefe pedindo desculpas e dizendo que havia se sentido mal durante o evento na parte da manhã, tendo que ir para o hospital, mas que tinha esquecido o smartphone sem bateria dentro do carro. Aproveitou para relatar também o acidente com a mãe do seu filho e que estava indo para Ribeirão Preto, e que precisava que ele adiantasse uma parte das férias que tinha direito para poder dar uma melhor assistência ao menino. Afinal, independentemente da sua decisão, o show no teatro da vida precisava continuar e, assim que voltasse, ele daria um jeito de comunicar a decisão para a empresa.

– Agora, sim. Hey! Ho! Let's go!

Ligou o carro, sorriu e deu um tapa no rabinho de Murilo, que imediatamente deu-lhe uma encarada franzindo a testa com a boca fechada, como sempre fazia quando não gostava de carinhos, digamos, diferentes que seu dono costumava lhe fazer. Pablo abriu ainda mais o sorriso, colocou a marcha do carro automático em modo drive e, como a sua vaga de estacionamento ficava bem em frente ao acesso para a rampa da garagem, num piscar de olhos já estavam na rua. Passou em frente ao Mar de Girassóis e lembrou-se de que ficara devendo a resposta sobre comemorar o Natal junto com dona Gilda, mas ponderou que seria melhor ligar para ela apenas no dia seguinte após saber mais detalhes sobre como estava Juliana.

O trânsito, para variar, não estava nada bom, e eles ainda demoraram um pouquinho para chegar até a Rodovia dos Bandeirantes, onde finalmente as coisas começaram a melhorar. Pablo ligou o rádio, colocou o aceleradíssimo Loco Live, dos Ramones, para tocar, que seguramente era o álbum que ele mais tinha ouvido na vida, e acelerou sem medo de ser feliz até atingir a velocidade máxima permitida de 120 km/h. Relaxou e calculou que, como já passavam das seis horas da tarde, tudo indicava que lá pelas dez da noite já teriam cruzado os mais de trezentos quilômetros que ainda os separavam do hospital.

Por um instante, seus pensamentos aquietaram-se e sua mente ficou vazia enquanto prestava atenção na estrada. Involuntariamente, algumas lembranças começaram a passear pela sua cabeça trazendo as figuras das irmãs Carolina e Cristina, que eram as primas de Juliana e que moravam com os pais numa bela casa verde e branca de dois andares a dois quarteirões da rua onde os pais de Pablo moravam em Ribeirão Preto. Juliana morava num enorme casarão amarelo, que ficava do lado oposto, a três quarteirões da casa dos pais dele.

Todos os quatro estudavam no mesmo colégio, mas apenas Pablo e Carolina, que naquela época tinham dezesseis anos, eram da mesma turma. Cristina e Juliana, que tinham dezessete anos, naquele ano foram estudar na mesma turma no curso de inglês que Pablo fazia nas tardes de terças e quintas. Ele, assim como meio mundo dos garotos, já era um fã incondicional da beleza da Cristina, praticamente ficando congelado como se fosse uma estátua sempre que a via passar – no colégio, nas ruas do bairro, no clube ou onde quer que a encontrasse. Até que a sua vida começou a mudar de fato quando ela entrou pela primeira vez na sala do curso de inglês com uma minissaia branca e uma camiseta rosa, deu um "boa-tarde!" para todos com o seu sorriso perfeito, sentou-se bem em frente a Pablo e cruzou as pernas. Foi exatamente ali, naquele instante, quando ela lhe deu uma última olhada com aqueles claríssimos olhos azuis e esboçou um sorriso como cumprimento reconhecendo-o, que ele finalmente deu-se conta de que ela era sim o grande e eterno amor de toda a sua vida. Juliana, que também tinha lá o seu charme, chegou logo depois e sentou-se ao lado da prima, mas ele mesmo só foi perceber a presença dela apenas quando ela lhe direcionou uma pergunta em inglês já no final da aula – e que ele nunca mais lembraria. Entretanto, todas as perguntas que Cristina fez, todas as respostas que ela deu, todas as vezes em que ela mexeu no cabelo, sorriu ou cruzou as pernas, tudo ficara fixado por um bom tempo em sua mente.

Esta surpreendente e inesquecível primeira aula, com a presença ilustre do grande amor de sua vida, foi o filme que ficou passando ininterruptamente em sua cabeça naquela noite e na noite seguinte. E o que era melhor: pelos próximos cinco meses, duas vezes por semana, o filme certamente se repetiria, mas só dependia dele achar um jeito de transformar-se no ator principal que estaria ao lado dela para protagonizar o tão esperado final feliz – o que não era uma tarefa das mais fáceis. Como ela era dona de um corpo bem desenhado, de um sorriso e de um par de olhos azuis absolutamente hipnotizantes, era difícil não encontrar um só garoto que também não suspirasse de amores por ela em toda a Ribeirão Preto. Já Pablo, que não era propriamente um Brad Pitt da vida, muito embora também não figurasse entre os mais feios, e mesmo com toda esta concorrência ainda havia o pequeno detalhe de que as garotas nessa idade gostavam de sair com rapazes mais velhos, pois até os que tinham a mesma idade, para a grande maioria delas, eram considerados meras crianças – o que deixava a sua situação ainda mais complicada.

Moral da história: se no colégio a situação era bastante complicada para ele tentar algum contato com ela, o curso de inglês era a grande e única oportunidade que havia caído dos céus na hora certa – e se não fosse ali ou a partir dali, não seria em nenhum outro lugar. Além disso, ele precisava começar a se parecer bonito aos olhos dela, e a solução encontrada estava nas páginas de reclamações das revistas femininas que ele lia avidamente sempre que ia ao médico ou ao dentista: ser atencioso e inteligente – ou, pelo menos, parecer ser. Como ele já era um rapaz bastante atencioso com todos, este item já estava resolvido, mas ele ainda precisava provar para ela a sua inteligência, o que também não seria difícil, pois quando ele enfiava a cabeça nos livros dificilmente não conseguia ser o melhor aluno no que quer que fosse.

Então lá foi ele estudar ainda mais o inglês como se não houvesse amanhã, pois se houvesse e ela surgisse com dúvidas, que ele se tornasse a referência a quem ela deveria recorrer em primeiro lugar. E essa estratégia acabou por mostrar-se acertada, pois o seu inglês impecável não só começou a atrair a atenção de todos, como principalmente dela, que de fato tinha muitas dificuldades no aprendizado da língua. Ele, tal como planejara, acabou virando referência para toda a turma e transformou-se numa espécie de porto seguro para onde ela recorria sempre que tinha dúvidas, pois sabia que Pablo estava sempre disposto a ajudá-la, ainda que ele estivesse ocupado duzentos por cento do tempo com outros interesses em mente. O importante para ele era estar sempre disponível assim que ela precisasse, sem se importar com o fato de ela parecer agir através de duas personalidades bem distintas: a simpática, que vinha sempre sorrindo procurá-lo cheia de dúvidas de inglês, ou a curta e grossa, monossilábica para qualquer outro assunto – qualquer outro assunto mesmo. Nada, além da língua inglesa, era compartilhado por ela com ele fora do curso ou até mesmo no colégio, o que dava toda a pinta de ser da parte dela apenas um relacionamento de interesse extremamente definido, muito embora ele acreditasse piamente estar no caminho certo e que era apenas questão de tempo para ela sentir-se mais segura com ele e assim começarem a ter mais intimidade para falarem de outras coisas, até finalmente começarem o tão sonhado romance. Tal qual um lobo em pele de cordeiro, com paciência ele esperava o momento oportuno para finalmente dar o bote certeiro – o que, diga-se de passagem, parecia impossível, pois, além de ela estar sempre namorando, a conversa não fluía para nada além das fronteiras do aprendizado da língua inglesa – mas ele mantinha-se inabalável na sua estratégia à espera.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora