O jogo do tempo

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Você me visitava todas as terças-feiras, religiosamente às três da tarde, quando o sol estava a pino.

Eu odiava suas visitas, mas como eram as únicas que recebia, as esperava com angústia e ansiedade. Temia que, daquela vez, justo aquela, seria finalmente o dia em que você deixaria de vir. Para sempre.

Odiava como implorava à enfermeira para que me sentasse na cadeira de rodas e me empurrasse até o triste jardim. Até as plantas entendiam o quanto tudo aquilo era degradante, pois as poucas flores estavam murchas, secas como a pele do meu rosto enrugado.

Sempre precisava pedir para a estúpida enfermeira colocar uma cadeira à minha frente, para que você sentasse. "Ela quem?", a tola perguntava. "Minha visita, claro", eu respondia; era algo óbvio, pelo amor de Deus. Era terça-feira! Aquelas meninas, todas, eram umas atrapalhadas. Deveria demiti-las uma a uma.

Geralmente as pestes riam, como se eu tivesse dito alguma coisa muito engraçada, mas a maioria acabava deixando a maldita cadeira. Não seria muito mais fácil se a largassem lá de uma vez, sem fazer perguntas inúteis?

Então eu me sentava e esperava. Cinco... dez minutos. O tempo: ele gosta de jogar conosco. É um velho maldito que caçoa de nós, segundo a segundo. Quando desejamos que seja infinito, como num beijo de despedida, ele insiste em se apressar. Quando é necessário que passe depressa, arrasta-se feito um verme, teimoso demais para morrer.

Não gosto de admitir, mas sentia as batidas do meu coração fazendo contagem regressiva quando as três da tarde se aproximavam. Tum, tum. Tum, tum. Só faltavam cinco segundos.

Certamente seria aquele dia. Seria aquele que você não apareceria. Já podia até prever: apodreceria ali, sozinha, e morreria de tédio.

Tum, tum. Quatro segundos.

Achei ter visto uma sombra. Virei-me, mas meu pescoço doeu. Maldito corpo velho e imprestável.

Tum, tum. Três segundos.

Você não vai vir. Você me acha uma piada. Provavelmente deve estar rindo de mim agora mesmo.

Tum, tum. Dois.

Fiz papel de tonta. Logo eu, logo eu! Que humilhante!

Tum, tum. Um.

Preciso ir embora. Preciso, mas como? Não consigo!

Três horas da tarde. E lá está você, sentada na cadeira à minha frente, em seu impecável terninho branco, o mesmo que eu costumava usar, as pernas cruzadas, o olhar condescendente que tanto me irrita.

— Pare de me olhar dessa maneira! – eu digo, cheia de pose, mas basta um sorriso seu para me quebrar.

Você não diz nada. Nunca diz.

Maldita.

— Você está cuidando direito das coisas? – pergunto. Você aquiesce, como sempre, sem falar, e eu fico ainda mais irada. Deve estar tudo uma bagunça, tenho certeza. Você não cuida das coisas como eu. Ninguém consegue, além de mim.

Resmungo, desejando poder pular em seu pescoço tão liso, tão perfeito, enfeitado por aquele estúpido colar de pérolas, meu favorito. Você roubou! Você roubou!

— Não me diga que está sendo mole com todos eles!

Você dá de ombros, como quem diz "certo, então eu não digo, se é assim que quer". Odeio seus joguinhos, sua ironia, seu jeito eficiente e mentiroso. Como ousa me imitar?

— Eles vão perceber o quanto eu faço falta! – elevo a voz, empinando o nariz. Espero que isso impressione você, mas sei, no fundo da minha alma carregada de dor, que não significa nada. – Virão me buscar e despejarão você num piscar de olhos!

Ah, aquele olhar. Há pena neles. E dor. Culpa, arrependimento. Odeio, odeio seu olhar! Não preciso de pena, muito menos da sua, não preciso de nada.

O que preciso é sair daqui.

— Me tira daqui – ordeno, usando meu melhor tom de comando. – Me tira daqui.

Sua feição agora é impassível. Você descruza as pernas, apoia as mãos nas coxas e me encara, olho no olho, nariz com nariz, desafiadora. Há uma verruga horrível no canto do seu olho esquerdo. Você fica horrorosa com ela.

— ME TIRA DAQUI!

Ah, não. Uma das estúpidas enfermeiras vem correndo "me ajudar", como elas gostam de dizer. Não, não, não quero ir. Xingo, esperneio e grito, a cadeira gira e não consigo ver você, mas sei que está rindo por dentro.

Você conseguiu o que queria.

Minha tortura.

Mesmo assim, mesmo prometendo a mim mesma que na próxima terça não vou esperá-la, os dias passam tão devagar e me sinto tão sozinha que, na semana seguinte, lá estou eu, no mesmo jardim deprimente, em frente a uma cadeira igualmente triste e vazia.

Conto os segundos.

Cinco... quatro... três...

É hoje. É hoje.

Dois...

Um...

Um.

Meu coração perde um compasso. Olho ao redor. Você não está aqui. A cadeira está vazia. Vazia.

Por Deus... você não veio. Você finalmente não veio.

Estou tão atordoada que não consigo acreditar.

Você me abandonou.

Sinto-me à deriva, afundando. De repente tudo perde o sentido. Eles não precisam de mim. Você não precisa de mim.

Eu sou nada.

Encosto a cabeça, fecho os olhos e choro. Há somente o silêncio.

Silêncio...

— Vou sentir falta dela - diz a enfermeira mais jovem.

— Ela era uma vaca sem sentimentos – responde a outra, mais velha. – Vivia nos xingando dos piores nomes. Ah, e era uma maluca. Toda terça-feira nos fazia arrastá-la até o jardim, para ficar por um tempão de frente a uma cadeira vazia. Dizia que era sua "visita".

A mais jovem deu de ombros.

— Talvez ela fosse apenas atormentada, coitada.

— Ela nos atormentava, isso sim - resmunga a outra, deixando o quarto para buscar qualquer coisa no banheiro.

A jovem acaricia o rosto da mulher morta. Há uma verruga ao lado do seu olho esquerdo, que algumas enfermeiras diziam ser a prova de que a velhinha era uma bruxa, afinal. Mas a moça se pega pensando que o pequeno defeito apenas a tornava mais humana.

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