Capítulo 1

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Eu já estava preparada para dormir quando o celular apitou debaixo do meu travesseiro. No visor, apareceu para mim a notificação de que o canal "Ju te fala" tinha acabado de postar mais um vídeo. Não resistindo a dar uma última checada, abri o aplicativo de streaming e assisti a menina de pele clara e cabelos castanhos - curiosamente de costas para a câmera - falando sobre mudança de cidade. Achei uma situação engraçada... Esta estranha, que nunca sequer vi o rosto, sabendo mais sobre o que eu sentia no momento do que meus próprios pais. Sempre me identificava com seus temas,e o novo assunto caía como uma luva nessa nova fase da minha vida.

Nasci na zona oeste do Rio de Janeiro, mas meus pais se mudaram comigo para o interior de Minas Gerais quando eu era ainda muito nova. Era uma cidadezinha pequena, com pouco mais de 80 mil habitantes, e nós estávamos lá para cuidar do meu avô - que já não podia mais morar sozinho. Antes, a responsabilidade era de um dos meus primos. Mas como ele precisou sair do município por conta da sua faculdade, toda a minha infância e juventude foi transferida para este lugar - crescendo onde é possível conhecer todos os moradores, indo à missa religiosamente aos domingos e depois me encontrando com os meus amigos na praça em frente à igreja. Esta foi toda a minha rotina no decorrer dos últimos anos... Mas, há dois meses, meu avô infelizmente veio a falecer por conta da diabetes. E sem o único laço que os prendia naquela casa, meus pais decidiram que era hora de voltar para o Rio - onde eles diziam que as ofertas de emprego eram melhores, mas em nenhum momento perguntaram se eu queria mudar.

Então, quando a Ju te fala abordou o tema "mudança", eu senti que ela estava falando para mim. Como é ser jogada em uma nova realidade, deixar os amigos com quem cresceu para trás, sentir saudade até do cheiro da pipoca com queijo. Mesmo cansada, mantive os meus olhos abertos e me identifiquei com o seu relato até o fim. Por isso, quando o vídeo terminou, o sono finalmente me consumiu e eu apenas dormi - ainda segurando o smartphone em minhas mãos.

 Por isso, quando o vídeo terminou, o sono finalmente me consumiu e eu apenas dormi - ainda segurando o smartphone em minhas mãos

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Acordei no dia seguinte com o sol no meu rosto. Eu tinha esquecido de fechar as cortinas na noite anterior, e isto acabou se revelando um erro terrível. Sentei na cama para tentar ligar o cérebro, olhei as horas no relógio de cabeceira e não pensei em nada. Fiquei alguns minutos assim até tomar coragem para me levantar e ir ao banheiro tomar um banho, seguindo todo o meu ritual de lavar a cabeça e fazer a higiene matinal. Meia hora depois, eu voltava para o meu quarto enrolada na toalha quando vi meu pai subindo as escadas - cantando um pagode nos anos 90, muito animado para um sábado de manhã.

- Você ainda está assim, filha? - ele disse, depositando um beijo na minha testa e abrindo um enorme sorriso - Se arruma que tô fazendo churrasco. Vai ajudar sua mãe.

Apenas meneei a cabeça e segui para o meu quarto. Coloquei um short jeans, uma blusa branca (com aquelas frases em inglês que ninguém presta atenção quando lê) e um par de chinelos. Penteei o cabelo e resolvi deixar ele secar naturalmente. Enquanto descia as escadas, vi a minha mãe escoando a água da cenoura picada, que tinha acabado de tirar do fogo.

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