DEGUSTAÇÃO - PRÓLOGO E CAPÍTULO I e II

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Prólogo

Egito, século VI.

Em uma manhã de nuvens nubladas e poucos raios aparentes de sol, um grupo de sacerdotes perambulava pelos arredores do templo de Osíris, buscando orientações sobre como se proceder com tamanha desgraça. Não era sabido pelo povo nada a respeito do verdadeiro desastre, mas os rumores já haviam se espalhado. Diziam que uma escrava, chamada Zara, havia sido possuída por um demônio oculto. Os pensamentos da jovem determinavam o destino daqueles quem lhe cruzava o caminho, causando mortes e destruição por onde quer que fosse.

Azib e seus irmãos haviam tentado ao máximo desmentir os fatos, pois precisavam de tempo para se decidir o que fazer com aquela garota tocada pelas sombras; havia sido difícil capturá-la e, graças à Sociedade do Ankh, isso realmente foi possível. Zara se banhava à margem do Nilo em um certo amanhecer; fugia dos guardas do faraó mas precisara fazer uma pausa para se refrescar e recarregar os estoques de água. Sorrateiramente, um dos guerreiros da sociedade se aproximara; ele estava ocultado pelo poder do amuleto de Osíris e, por isso, a jovem podia senti-lo, mas não podia vê-lo.

Enquanto Zara olhava para os lados preocupada, o nobre guerreiro lhe lançara uma pequena flecha com veneno suficiente para um desmaio. A jovem, desacordada, fora levada até o templo e permanecera adormecida, pois, caso acordasse, poderia matar todos que ali estivessem. Durante suas pesquisas, Azib descobrira que precisaria interromper o ciclo, mas, para tanto, um ritual complicado deveria ser empenhado. A preparação do mesmo e a obtenção dos ingredientes demorariam duas semanas; enquanto isso, a jovem jazia em um sono profundo.

Quando tudo estava pronto, o corpo de Zara fora devidamente mumificado, embora ela ainda se encontrasse viva. Azib entoou um canto que despertara a moça, mas os incensos espalhados pela câmara impediram-na de pensar claramente ou mesmo de assimilar a situação. Os demais sacerdotes acompanharam o coro do encantamento e, logo, um vento raivoso começara a sacudir as areias do deserto. Azib sabia qual seria o preço a pagar, mas, graças a ele, a salvação da humanidade se realizaria mais uma vez.

A sociedade do Ankha aceitara fielmente guardar o segredo, enquanto a múmia de Zara seria colocada em um local onde possivelmente demoraria a ser encontrada. Azib não era tolo de pensar que poderiam nunca a encontrar, pois sabia que o destino utilizava caminhos incertos. Mas, com a proteção de Osíris, o encantamento fora realizado com maestria e, agora, aquela garota seria apenas uma história para assustar as crianças, e, com o tempo seria esquecida e ambos se certificariam de que tal fatalidade nunca seria relatada, nem mesmo nos registros históricos. Era necessário esquecer aquilo que não poderia se lembrar, pois, caso o fizessem, as sombras iriam dominar o mundo para sempre.

Embora a sociedade tivesse se comprometido com a promessa, Azib sabia que um determinado grupo não esquecera tão facilmente da história. Os seguidores da serpente estavam sempre espreitando, aguardando a oportunidade de, finalmente, conseguirem o que queriam. Mas um sacrifício havia sido combinado de se realizar naquele dia, Zara havia partido, mas os oitos sacerdotes presentes naquela sala conheciam o seu segredo. E, assim, no momento em que o sol chegara ao ápice, Azib e seus demais colegas se organizaram em uma fila e ali rezaram até a chegada do pôr do sol. Quando finalmente entardecera, sabiam o que precisaria ser feito. Cada um ergueu um copo de veneno e engoliram tudo de uma só vez, enquanto Amon-Rá iria para o seu barco enfrentar mais uma batalha. Mais uma vez, a luz havia vencido e, mesmo que aquela paz inquietante não durasse para sempre, ela adiaria a escuridão por alguns séculos, resguardando a vida plena mais uma vez.

Capítulo 1 – O Acidente

Londres, dezembro de 2014.

A neve caía sem parar desde que havíamos chegado à casa do tio Cal; não havia sinais de que a tempestade daria uma trégua e meu irmão Julian começou a chorar escandalosamente ao perceber que não havia sinal de nossa mãe. Meu humor naquele dia estava estranho. Não havia ficado satisfeita com nenhum dos presentes recebidos e a súbita viagem dos meus pais só me entristeceu mais pois um dia na casa de Cal e sua esposa era perdoável, mas uma semana era quase tortura. Não podíamos assistir canais de desenho, somente documentários, e a internet era limitada a duas horas por dia para cada membro. Sendo assim, eu passava os dias imersa em clássicos da literatura, que desviavam a minha atenção do fato de que meus pais haviam nos abandonado mais uma vez.

A Mensageira da Morte - DegustaçãoLeia esta história GRATUITAMENTE!