CAP 01 - CRESCENDO E APRENDENDO

130 9 2



No início do século XIX, Foxes Park era uma bonita propriedade para os padrões britânicos. Nela havia árvores frondosas por todos os lados. O jardim primorosamente cui­dado era o mimo maior daquela região. Pessoas vinham de longe apreciar as flores dos Hamptons. A estrada, que pas­sava por entre as árvores e as flores, era perfumosa e agra­dável. Seria um pecado recusar uma caminhada... assim, os que moravam nas redondezas sempre priorizavam pas­seios por ali.

Veronika, aos dezenove anos, era uma moça como qual­quer outra daquele condado. Tinha os cabelos escuros e se­dosos que caíam em forma de cachos sinuosos. Não era tão bem favorecida pela beleza quanto pela fortuna. Sem seu suntuoso dote, talvez nem fosse notada, porém uma fortuna muda muita coisa e uma daquelas mudava tudo. Ela iria de­butar em Londres em uma semana, e Suzanne estaria ao seu lado, como sempre.

- Suzanne o que você acha, o vestido azul celeste ou o verde musgo?

- Você fica bem com qualquer um deles, a sua pele é realçada por essas cores, terá um feliz début com qualquer um que escolher. - Mas sempre gostei mais do azul, então opto por ele.

Suzanne levantou da cadeira mais rápido do que de cos­tume e um pequeno erro de cálculo foi o suficiente para que ela se apoiasse no canto da bandeja do chá e a xícara com o bule de louça se esparramassem pelo chão.

- Que desastre! Não sei por que estou perguntando a uma criada como você, que nem entende de moda, quanto mais da moda londrina. Eu e minha bondade em tentar enxergar os criados como pessoas normais! Mas, de qualquer forma, agradeço a sua humilde opinião, irei com o azul! Limpe tudo isso antes que mamãe veja, e se vista o mais rápido possível pois você irá me acompanhar até a casa dos Hinghes - Deu um suspiro raivoso. - Como mamãe faz questão de levá-la a Londres, não terei muito o que opinar, pelo menos não ficarei desacompanhada e, na falta de coisa melhor, você servirá.

Suzanne tinha sentimentos controversos pela senhora que acompanhava desde sempre. A dama de companhia de Veronika, tinha apenas dezessete anos e sempre viveu na casa dos Hamptons. Sua mãe fôra criada da casa e falece­ra por doença, deixando Suzanne órfã aos seis anos. Des­de então, a Sra. Hampton assumiu a função de provedora, mesmo não sendo habitualmente uma pessoa carinhosa, até mesmo com a única filha, Veronika. Era uma mulher por demais reservada, que acompanhava os progressos da filha com a sua tutora, escolhida pelo seu falecido esposo. Apesar de pouco conversar com a filha, ainda assim era quem Su­zzane conheceu como autoridade materna durante o longo período de luto que passou, mas com certeza, o carinho e o afago só foram possíveis por causa de uma única pessoa: Mary Hancock.

Após a morte da mãe, a pequena menina de cabelos loi­ros escuros e olhos azuis brilhantes passou quase um ano sem falar uma palavra sequer. Seu olhar perdido e choro­so era capaz de comover mesmo o mais frio dos corações, como o da Sra. Augusta Hampton. Esta nunca lhe destinou amor porque parecia não saber o que era isto. Porém mes­mo assim, garantiu propiciou uma vida razoável à pequena menina, que dormia no andar de cima, junto aos patrões, em um quarto situado ao lado do aposento da filha do ca­sal. Sempre sentava-se à mesa e a Sra. Augusta exigia que Suzanne tivesse a mesma educação que Veronika sob a ale­gação óbvia de que uma dama de companhia tem que ser prendada e bem educada se não quisesse envergonhar sua dama em eventos sociais, não obstante esse comportamento suscitar falatórios entre os empregados e vizinhos.

Suzanne, desde criança, precisava agir como a dama de companhia de Veronika, mas não era uma tarefa tão fá­cil quanto se imagina a duas crianças. A mais velha sentia a falta da mãe e do pai e sofria com a rigidez de sua tutora. Gozava de apenas de uma fonte de escoamento de sua verdadeira natureza e se comprazia de seus recalques: maltratar a menina mais nova. Enxergava a pobre menina, que a respeitava e amava como se fosse sua irmã mais ve­lha, como uma ratazana prestes a tornar-se uma reles presa. Sempre fazia questão de lembrar à Suzanne qual era o seu lugar na casa, o que, nas palavras de Veronika, se restringia a pouco mais do que nada. Ainda assim, Suzzane lhe era fiel e a ajudava com sincero empenho.

Desencontros e DesencantosWhere stories live. Discover now