Capítulo 2

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Pela primeira vez em um bom tempo, Eliza não queria ficar na cama. Depois de acordar, ela levantou, tomou banho e se trocou dez minutos antes do despertador tocar. Ela foi para a cozinha e não viu a mãe. Era raro não ver nenhum dos pais tomando café da manhã na hora em que acordava. Devem ter voltado pra casa bem tarde ontem, pensou, abrindo a geladeira.

— Eliza? O que você está fazendo acordada tão cedo?

— Oi, mãe — disse a garota, olhando para os ingredientes. — Apenas acordei cedo hoje.

— Eu vou fazer o café da manhã — disse a mãe dela, bocejando.

— Não precisa. Eu cozinho hoje.

— Tudo bem... — Mesmo sem ver, Eliza podia sentir o olhar da mãe em suas costas. — Aconteceu alguma coisa boa?

— Nada demais. Eu só... Eu só acordei e não fiquei com vontade de ficar na cama — disse Eliza, evitando os olhos de sua mãe. Embora fosse verdade, a garota preferiria que seus pais não soubessem do motivo por trás da mudança de humor. Ela tremeu com a ideia de que seus pais descobrissem que seu hobby era espionar os segredos dos seus colegas de turma. Já que eles ligam tanto pra mim e pro que faço, tenho o direito de dar uma espiada na vida deles também.

— Que... bom...

A garota sentiu o alívio na voz da mãe. Não me olhe assim... É só meu hobby estranho, nada demais. Nada mudou, pensou, rapidamente mudando de assunto.

— Eu vi o jornal ontem. Deve ter sido dureza. Que horas vocês chegaram em casa?

Sua mãe bocejou de novo.

— Tarde. Obrigada — falou sua mãe quando Eliza fez uma xícara de café e deu para ela. A mulher aproveitou e tomou com calma, depois pressionou os olhos com a mão livre. — Foi horrível. Os pacientes não paravam de chegar. Eu nunca vi tantas queimaduras químicas na minha vida.

Eliza se esforçou para não imaginar aquilo e continuou cozinhando os ovos até a mãe parar de tremer.

— Pelo que ouvi, eles foram casos simples — continuou a mãe, depois de um tempo. — Os piores foram levados para a capital, mas nem eles conseguiram dar conta de tantas vítimas.

— Parece horrível. — Foi a única coisa que Eliza disse.

— E foi — disse seu pai, bocejando. Ele parecia tão cansado quanto a mãe e quando sentou na cadeira, cochilou, a cabeça balançando um pouquinho. De repente, ele se moveu bruscamente e abriu os olhos, piscando algumas vezes. Eliza fez uma xícara de café para ele também, que bebeu metade em um gole. — Valeu. Só começamos a trabalhar tarde da noite. Depois de apagar o fogo, eles precisaram descontaminar o lugar pra gente começar a procurar por sobreviventes. Estava... feio demais lá. — O pai estremeceu e bebeu outro gole.

Eliza fez a mesa e começou a comer.

— Você tem alguma ideia do que causou o incêndio?

— Não sabemos dos detalhes, mas dizem que foi erro humano — disse o pai e comeu em silêncio.

Ela queria dizer aos pais que tirassem o dia de folga e descansar, mas conteve as palavras antes que saíssem de sua cabeça. Eles não podem... precisamos do dinheiro por minha causa, ela sabia. Se disser algo a eles, vão ficar bravos, então tudo que posso fazer é não fazer merda. Ela terminou o café da manhã, deu adeus aos pais e foi para a escola.

O prédio parecia quase deserto. Acho que poucas pessoas chegam aqui tão cedo. Melhor pra mim, pensou enquanto ia para sua sala. Pela primeira vez naquela semana, Eliza não ouviu os sussurros costumeiros que a seguiam. Se eu não perder tempo na cama, consigo um pouco de paz de manhã? Bom saber. Sentou-se à carteira mais longe da porta e se virou para a janela.

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