PRÓLOGO

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— Dashier?

— Pai? Eu preciso de ajuda... — Imploro, já chorando. Levando a mão ao meu nariz em uma tentativa de me livrar da breve coceira, percebo que estou sangrando.

Acordei sobressaltado, abafando um grito dolorido.

Merda!

Levantei da cama imediatamente, iniciando a contagem para me acalmar. Podia ouvir o temporal caindo do lado de fora, então tentei me concentrar no barulho da chuva, já que o silêncio de dentro da minha casa conseguia me deixar ainda mais ansioso. Sentia a ânsia, vontade, o querer queimando debaixo da minha pele trêmula. Era assim sempre que eu tinha um dia ansioso, sempre que os pesadelos vinham.

Sempre que as lembranças me torturavam.

Contei meus passos até a cozinha, tentando me concentrar em qualquer coisa que me tirasse daquele desespero.

Abri a geladeira e peguei uma garrafa, sentindo minha garganta seca e dolorida. Virei a água com desespero em minha boca, com o desejo de aplacar a dor e o horror do pesadelo. Pensei em ir até o quarto de Hazel, talvez uma boa olhada em meu filho me acalmaria, mas a vergonha e a culpa não me permitiam ir até ele. Eu não merecia velar o seu sono. Não naquele momento.

Caminhei até a janela da sala para ver o temporal cair. O barulho da chuva nunca me acalmou, mas, naquele momento, ele me chamou, cantou para mim, oferecendo um conforto que nunca havia oferecido antes. Abri a cortina da janela que abrange toda a parede, de cima a baixo, e que me dava uma vista privilegiada do lado oeste da cidade. Além da chuva, ouvia o barulho das poucas buzinas que preenchiam as ruas durante a madrugada e o som discreto e abafado de uma música animada. As luzes de algumas poucas janelas ainda estavam acesas nos prédios vizinhos. Eu as analisei e me perguntei o que as pessoas estavam fazendo tão tarde da noite acordadas, apenas para tirar a minha mente daquele pesadelo.

O terraço do prédio em frente me chamou a atenção. Estava mais iluminado do que qualquer outro na rua. Olhei tudo, as luzes, a decoração, as flores e a mulher parada ali, completamente sozinha, olhando em direção à rua. Seu olhar parecia focado em algo, e, ainda assim, eu podia dizer que ela olhava para lugar algum. Ela apenas pensava sozinha, sob a chuva.

A mulher completamente vestida de preto tinha um copo vazio na mão, protegido por seus dedos e apoiado em seu peito enquanto ela simplesmente pensava. Tentei ouvir se a música que tocava poderia embalar os pensamentos aparentemente melancólicos da mulher encharcada. Não consegui, então, para fugir dos meus próprios medos, imaginei uma trilha sonora para ela. Wish you were here, do Pink Floyd, me pareceu uma boa escolha para ela, que continuava a deixar a chuva cair sobre seu corpo sem esboçar qualquer reação, sem se defender. Imaginei que talvez precisasse de ajuda, e isso bastou para me tirar de dentro da escuridão de meus pesadelos. Fiquei preocupado com uma mulher que sequer sabia o nome ou conseguia ver o rosto com clareza.

Procurei ao seu redor, buscando alguém para resgatá-la daquele lugar. As flores caídas eram afogadas, enquanto as velas iluminavam os outros convidados da festa dentro do ambiente fechado. Eles sorriam e conversavam, protegidos da chuva, sem lembrar de um dos convidados. Eu não conseguia ver o seu rosto, mas a proximidade dos prédios me dava uma boa visão sobre a sua caída, cansada e solitária expressão corporal.

A parte de estar sem ninguém eu compreendia perfeitamente.

Havia um tempo que eu me sentia sozinho, mesmo estando cercado de pessoas. Quando estava com Hazel, Sylvia e meus pais, eu me sentia um pouco melhor, mas eu realmente nunca me sentia completamente inteiro. Nunca. Nem antes de tudo acontecer, nem quando aconteceu e muito menos naquele momento, quando eu lutava tanto para manter a minha vida nos eixos.

Fechei meus olhos por um momento e logo voltei a mirar a mulher solitária no outro terraço. Sem saber o porquê, me peguei querendo abrir a janela e gritar para ela correr e se proteger da chuva, mas eu sequer a conhecia, ela sequer me ouviria em toda aquela chuva. Então eu simplesmente a deixei, sozinha e molhada, provavelmente com frio, e me sentei no sofá, já mais calmo. Mas, por segurança, reiniciei a minha contagem. Mesmo me acalmando, minha mente escorregava para a maldita lembrança daquele dia. Um arrepio passou por minha espinha, e eu voltei para a cozinha em busca de mais água.

Será que um dia aquilo pararia?

Eu seria livre novamente?

Da cozinha, olhei para a grande janela na sala e senti vontade de observar novamente a mulher solitária. Pensar nela me fazia esquecer de mim. Será que a estranha se importaria em ser usada para esquecer dos meus problemas? Não seria justo com ela... Ou seria? Afinal, ela nunca me conheceria.

A memória veio novamente, me fazendo andar em desespero para a janela mais uma vez, em busca da mulher que, mesmo sem saber, estava me ajudando.

— Pai? Eu preciso de ajuda... – Imploro, já chorando. Levando a mão ao meu nariz em uma tentativa de me livrar da breve coceira, percebo que estou sangrando. — Eu matei alguém.

Quando eu olho para fora, ela não está mais lá.

Então eu volto a minha contagem.

Um... dois... três...

O DESTINO DO CEO - AMOSTRAWhere stories live. Discover now