Prólogo

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 — Até mais, Patt. Não se esqueça de mandar notícias — disse Cézar, depois de me dar um abraço bem apertado.

­ — Até mais, Cézar. Pode deixar, eu mandarei — respondi com um pouco de timidez.

Com a mala nas mãos, pronto para viajar e curtir minhas férias de dezembro, dou uma última olhada para as pessoas que estão na rodoviária, respiro fundo e entro no ônibus azul marinho. Escolho uma poltrona que se localiza no meio do corredor, sento-me e fecho os olhos. Antes que o ônibus dê a partida, coloco minha mala na poltrona ao lado e rezo para que ninguém queira dividir a fileira comigo.

Assim que o motor é ligado, o ônibus começa a tremer e sinto meu estômago se contorcer dentro de mim. Algumas pessoas ainda estão entrando, a cada cheiro de perfume diferente, meu estômago se embrulha e tenho que me segurar para não vomitar. Não sei se extrapolei na tequila na noite de ontem ou se estou passando mal por não ter bebido há mais de três anos.

Assim que o ônibus sai da rodoviária, fecho meus olhos com força e me seguro na poltrona, sinto como se estivesse andando em uma montanha-russa, mas é somente a impressão causada pelo meu mal-estar. Meu Deus, que tontura!

Depois de alguns minutos, abro os olhos novamente. Tento relaxar para começar a refletir sobre os acontecimentos de ontem. Na verdade, antes de chegar a esse ponto, preciso fazer uma breve análise da minha vida nos últimos anos...

Hoje estou com vinte e quatro anos, acabei a faculdade há quase dois, minha média geral foi uma das maiores da história do curso de Letras, tenho um lattes de dar inveja para qualquer pessoa da minha idade, ou até mesmo para pessoas mais velhas. Consegui um ótimo emprego logo após terminar a graduação, na verdade, tive a chance de escolher entre duas ótimas editoras, que me ofereceram as vagas.

Muitas coisas boas aconteceram desde o começo da graduação, mas, também, muitas coisas boas deixaram de acontecer. Passei a graduação inteira fazendo estágios extracurriculares, iniciação científica, apresentando trabalhos em congressos, horas enfurnado na biblioteca, sempre me esforçando para ser o melhor!

Penso que na vida profissional até consegui o que sempre sonhei, mas a realidade é que a vida não é feita apenas de trabalho e o lattes não define quem você é. O problema foi que ninguém me avisou sobre isso...

Deixei muita coisa passar sem que eu pudesse aproveitar... Festas da faculdade, baladas, barzinhos, amizades, paqueras, sexo casual, matar aulas, dentre outras coisas comuns que todo jovem da minha idade poderia ter feito ou ainda faz. Anos sem me divertir, sem extravasar, sem me permitir...

O motorista dá uma freada para estacionar o ônibus na primeira parada e meu estômago dá um sinal de alerta. Fecho os olhos e finjo que estou dormindo, faço mais cinco minutos de reza para que ninguém se sente ao meu lado. Por sorte, quando abro os olhos, reparo que já estamos novamente na rodovia e o banco ao lado continua vazio.

O reflexo do sol cega meus olhos por alguns segundos. Então, resolvo colocar os óculos escuros e aproveito para pegar os meus fones de ouvido para ouvir música. Começo a procurar algum álbum do iPod, preciso ouvir qualquer coisa que seja bem animada, para tentar descontrair. Clássicos, clássicos, música depressiva, melancólica, mais clássicos... Ah, sabia que um dia essa música iria ser ouvida novamente, ainda bem que não apaguei! Apertei o play na música Sparks, da Hilary Duff.

A música me fez lembrar da noite anterior. Sim, a noite anterior! Mas antes de chegar a este ponto, preciso voltar a fazer outra breve análise da minha vida, desta vez, minha adolescência.

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