Em um canto qualquer

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Em um canto qualquer, sobre notas musicais, estão os dizeres dormindo. Em um canto qualquer está o olhar malicioso e esfomeado que se trocou no meio da multidão; está o riso com o lábio preso, misto de alegria e medo que sempre andou do lado de alguém; estão os embalos dos corpos e o cheiro morno do sexo; a letra de cada palavra escrita e o som de cada uma que foi dita. Em um canto qualquer jaz a voz embargada, as palavras contidas e não ditas ou pela metade escapadas da boca; um sonho que se rende à uma caixa de papelão que o prende e deixa nem o Sol entrar; o riso, aberto, se prende à sombra da parede.

Em um canto qualquer vem sua lembrança. Em um canto qualquer vem a felicidade e o meu corpo dança porque minha dança é o meu jeito de chorar, é o meu jeito de rir e meu jeito de estar no mundo. Em um canto qualquer vem presa a sua voz, o seu som e o seu bom que eu tive e não sei perder; vem girando seu riso que me deu outro riso. Em um canto qualquer vêm as palavras vazias ou cheias, mas elas vêm e trazem você; fica; em um canto qualquer.

Em um canto qualquer não está aquela mão que se enchia no meu corpo sem pressa, e seguia me apertando, sufocando minhas palavras e enchendo de lágrimas os meus olhos sujos. Em um canto não posso respirar o seu suor que eu tinha de cima de você e você; posso me perder em um caminho e lhe encontrar do lado, mas vai ser só imagem; não posso me deixar, alma e corpo, sem preocupação, porque você me cuida, não, você não vai estar para me cuidar. Em um canto qualquer não existe a vibração enérgica das mãos sobre mim e o fluxo de luz do seu corpo para o meu; não existe.

Em um canto qualquer

Está,

Perdido,

O beijo úmido / no teu lábio / no meio do povo.

© Dan Porto

www.danporto.com

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