O tempo

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A inconstância da presença de nossas vidas aqui é que torna o caminho uma curva, e a cada uma dessas curvas um encontro. A efemeridade de nosso "estar aqui" é medida pela magia como chegamos e partimos, como vivemos e morremos, e mais que isso, é medida como caminhamos.

Parar pode ser um ato de caminhar. O movimento independe de nosso querer, é um fluxo constante que pode ser percebido pela inconstância de nossa presença, mas o movimento é um andar infinito, imensurável. Nunca saberemos ao certo o tempo que estamos aqui e menos ainda o tempo que estaremos ou voltaremos. A relatividade do tempo em nosso corpo é inexplicável para a ciência atual.

A espera da mãe pelo filho e do lavrador pelo brotar da semente é um ato de caminhar. Envolve o cuidar de si e do outro para depois caminharem juntos até que uma curva os separe, e o caminho prossiga. Caminhar é exatamente o ato inocente de criar, por vezes inconsciente.

A maneira como passa o tempo em nós, no corpo, é uma maneira além de novo e velho, além de rigidez e flacidez, além de passado ou presente ou mesmo além de rugas e cicatrizes. O tempo nos passa assim como passamos no tempo e pelo tempo. Passar é se deixar dobrar pelas curvas e ir rasgando os pedaços de trilho num tempo incontável a fim de invadir o tempo contável.

O lado incontável do tempo é esse fluxo interno e externo que nos permitimos apenas a refletir, sem podermos sentir, é um modo do universo de não nos deixar viver. Esse tempo ou modalidade de tempo é não cronológico. A única coisa que sabemos dele é que nos perpassa. Ao contrário do tempo contável, cronológico, consciente, programado ou programável. O contável do tempo é a sensação de calor ou frio, a fome ou sede, é a corporeidade do ser humano.

© Dan Porto

www.danporto.com

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