Estamos morrendo

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Estamos (sobre-vivendo), vamos a cada amanhecer saindo de nossas camas sem despertar, sem ver o espetáculo diário do Sol, escorregando para nossas atividades rotineiras, que de tão rotineiras chegam a ser parte de nós. O trabalho não deve ser parte de nós, é pesado demais para se carregar nas costas. Nossas atividades diárias devem permitir que se possa olhar em volta, levantar a cabeça, abrir os braços, mas muitas vezes o peso delas não nos deixa fazer outra coisa que andar e andar, mas andar em que direção é que não sabemos, apenas vamos indo rumo a coisa nenhuma, os objetivos vão se perdendo e vai ficando só o instinto primeiro de continuar respirando. Perdemos também o instinto de estar vivos.

Estar vivo significa algo além de respirar. Estar vivo é sentir o ar que penetra no corpo e se deixar invadir pelo cheiro, pela consistência desse ar. É respirar um ar que esteve em outro pulmão, numa planta, na água, somos e seremos sempre todos, uma mistura de tudo o que nos rodeia e o que rodeamos.

Vejo as pessoas nos ônibus, na rua, na faculdade, todos andam com a cabeça baixa e parece que o próximo passo não vai acontecer, a vida que há ali está sucumbindo, a respiração superficial, na altura do peito, é um sinal disso. Estamos respirando pouco, estamos oxigenando pouco e por isso não há mais ideias novas, não surgem mais gênios, as cabeças estão se fechando, o pouco de atividade que resta precisa manter a funcionalidade.

O medo tomou conta de nós e não é o medo do outro, é o medo de nós mesmos, estamos com medo de nos experimentar, estamos deixando a acomodação se acomodar em nós, está bom o ensino que recebemos, está bom o preço no supermercado, não conseguimos mais fazer nada, não temos mais força para lutar por aquilo que acreditamos. Ou pior, nós estamos deixando de acreditar. Por quê? Será por que a velocidade das informações é extrema a ponto de não nos deixar controlar mais nada ou porque realmente estamos, a cada dia, abandonando o que acreditávamos?

Somos cada vez mais dependentes de coisas totalmente dispensáveis ao mesmo tempo em que acreditamos ser mais livres a cada dia, é uma liberdade aparente, uma ideia que compramos e cremos nossa e nos enganamos. Um exemplo típico é o telefone celular, não que eu seja contra, até uso e muito o meu, mas o fazemos na ilusão de que somos livres, sendo que enquanto andamos pela rua, submersos em nossas conversas ao celular, não olhamos mais no rosto das pessoas, nem sabemos se um homem ou uma mulher nos atendeu na loja, porque estávamos ao celular em um assunto que não poderia esperar nem um minuto.

Estamos afogados em toda maluquice que criamos. Outro dia recebi um daqueles e-mails encaminhados, sobre a cidade de Dubai, com uma retrospectiva fotográfica desde 1990, quando ainda era quase um deserto. Fiquei pensando depois de ver todas as fotos atuais, de todos os prédios e maquetes: o poder do ser humano é imensurável, Dubai foi um sonho realizado em cinco anos! E pensei ainda: quando vamos a Dubai, vamos e voltamos com a sensação de que assistimos a um espetáculo artístico, cheio de beleza, riqueza e luzes ou voltamos só com a sensação de que cumprimos o dever, também conhecemos Dubai, agora podemos conversar nas reuniões, mostrar as fotos, opinar sobre a economia mundial?

A quem enganamos vivendo uma vida tecnológica, uma história contada, um conto infantil? Estamos morrendo porque nossa vida não tem mais a nossa vida, vamos sentindo e vivendo coisas que compramos, inconscientemente, e cremos ser a única possibilidade. Para não parecer um pensamento pessimista, aí vai uma proposta: romper, aos poucos para os mais tímidos, com convenções, ir aqui e ali operando mudanças pequenas mas prazerosas em nossa vida diária, na nossa casa, nos caminhos que percorremos, na maneira como olhamos para o outro, em como sentimos o olhar do outro em nós, no tom de voz, na cor da roupa... A proposta é aceitar o desafio de se mostrar verdadeiramente como somos, sem o medo do julgamento, e sim com a paz da verdade.

© Dan Porto

www.danporto.com

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