Prólogo

1.5K 23 4

Eu sabia que o sol brilhava lá fora, tanto quanto sabia que minha cabeça latejava e meu corpo doía como se atropelado por um caminhão. Eu não sabia se já era a ressaca ou eu ainda estava bêbada. Afinal, fazia pouco tempo que eu deitara.

Quando escutei a batida na porta eu soube que era Mercedes. Aquela era sua rotina de todas as manhãs. Tentar me levar de volta ao meu inferno particular.

— Alice, está na hora de ir a escola.

Mercedes tinha me criado desde que eu me entedia por gente, se não antes. Mas não, eu não sou uma órfã. Meu pai morreu em um acidente de avião há muito tempo, mas minha mãe continuava viva. Apenas não suportava minha presença. Do meu pai, eu me lembrava pouco de mais para sequer sentir saudades, mas as poucas lembranças que eu tinha, me diziam que ele me amara. Mais do que minha mãe me amaria algum dia.

Por quê? Eu não tinha ideia do que eu fizera de errado para ela, mas algumas coisa ela gostava de deixar claro:

Ela não me amava.

Ela não amara o meu pai.

Ela apreciava o dinheiro que a morte dele dera a ela.

Precisamos de mais para mostrar que minha vida era uma pura e completa felicidade? Acho que isso já é o suficiente. No meio disso tudo, eu só conseguia agradecer a Mercedes. Ela era quem cuidava de mim. Era minha mãe. Minha família.

Esperei que ela parasse de bater, porque sempre parava. Eu sabia que ela me amava, mas amor nenhum no mundo me faria voltar à escola. Mesmo que por quatro meses seguidos Mercedes batesse na minha porta me pedindo isso. Mas eu não podia, simplesmente não podia.

Tinha total consciência de que parar de estudar arruinaria meu futuro, mas naquele momento eram os meus estudos ou minha sanidade mental.

Quando ela se foi, fechei os olhos e por fim adormeci.

***

Minha boca seca quase me matou, enquanto eu tomava banho para ir a cozinha.

Mercedes me ofereceu alguns restos do café da manhã, mesmo que naquele momento passasse da hora do almoço. Eu como sempre, agradeci por aquilo. Adorava os bolos que ela fazia e a chance de me sentir uma criança mimada e pequena.

Liguei para Paula na esperança que ela estivesse acordada, mas sua voz ao me atender deixou claro que tinha sido eu a acordá-la.

— Acho que está mais acabada do que imaginei. — Comentei colocando um pedaço de bolo de chocolate na boca. Ela apenas resmungou. — Estava pensando se não tem outra festa para irmos hoje.

— Tem festa, mas não irei levantar dessa cama hoje. — Sua voz baixa provou que a cabeça dela doía tanto quanto a minha, se não um pouco mais. Mas o que me preocupava no momento era o fato dela não poder sair comigo. Eu precisava sair. E eu precisava dela. Ela não podia fazer aquilo comigo.

— Como não? — A pânico em minha voz foi um pouco maior do que eu pretendia. — Não posso simplesmente ficar em casa olhando minha mãe e meu reflexo no espelho. Não quando... Não posso, Paula. — Suspirei, incapaz de continuar.

— Se acalme. — Se perguntassem se eu amava alguém alem da Mercedes, esse alguém seria Paula. Ela estava comigo desde sempre e eu esperava que para sempre. Ela me conhecia, entendia... Estava sempre lá para mim. — Não posso ir, mas arrumei companhia para você. Tem uma festa que me falaram há um tempo. Ela é em uma casa em um condomínio e acontece todo mês.

— Como faço para entrar? — Eu não estava satisfeita em ir sem ela, mas a pequena possibilidade de não ir, de apenas ficar em casa me matava. Ficar tanto tempo sozinha comigo mesma não era saudável.

— Mulheres entram de graça. Eu passo seu endereço para as pessoas que sei que vão e eles lhe pegam aí, tudo bem? — Concordei, apenas desejando que lá tivesse o necessário para me afastar da realidade.

— Vai sair de novo? — Mercedes perguntou assim que desliguei o celular e o joguei sobre o sofá.

— Sim. — Respondi com um suspiro. Odiava fazer isso com ela. Odiava sair todos os dias. Odiava precisar me perder. Odiava não conseguir me olhar no espelho. A verdade era que eu odiava a minha vida e quem eu havia me tornado. Tão diferente de quem eu era e de quem Mercedes conhecia.

— Se esconder não é a melhor forma de resolver os problemas. — Ela me olhou com ternura e por um momento me perguntei se ela ainda gostaria tanto de mim se soubesse o que eu tinha feito, o que eu tentava esquecer. — Eu sei que alguma coisa aconteceu para você desejar tanto não ficar em casa. — Ela caminhou em minha direção e parou a poucos centímetros. Eu desejava tanto contar.  — Mas não fuja de você. A minha Alice nunca abandonaria a vida dessa forma. A escola sempre foi tão importante para você, minha querida. — Desviei os olhos quando ela sentou no braço do sofá e ao meu lado. Eu podia sentir os olhos ardendo. Sabia que lágrimas escorreriam se eu permitisse. E estava perto de permitir.

— Não posso voltar lá. — Sussurrei sabendo que não poderia fazer mais.

— Por quê? — Desejei contar, desejei deitar minha cabeça em seu colo e chorar como tantas vezes já tinha feito. Desejei seu conforto e seu apoio, mas eu não queria perdê-la. Não queria deixar de ser sua pequena garota.

— Minha cabeça dói, vou para o meu quarto. — Falei rapidamente, enquanto me levantava. — Acho melhor termos essa conversa depois.

— Apenas tenha cuidado, minha querida. — Sua voz veio quando eu já estava no primeiro degrau e me fez parar brevemente. Olhei para ela e sua face preocupada. Eu deveria ter tido cuidado antes, mas eu não tivera e por isso estava aqui agora. Como queria que tudo tivesse sido diferente.

— Terei. — Forcei um sorriso a ela, enquanto subia as escadas para o quarto.

Abri o computador sobre a mesa e olhei o grupo da sala em busca de qualquer coisa útil. Qualquer coisa que me fizesse mais poderosa e qualquer coisa que pudesse me derrubar. Se não fosse tão amarga, a ironia me faria rir sempre que eu olhasse aquele grupo.

Alguns meses atrás tudo aquilo era fútil de mais para mim. Pouco importava o que acontecia na vida alheia e o que comentavam sobre ela. Mas tudo tinha mudado, tão rápido e tão bruscamente. Aquilo não só era importante como significava tudo. Eu precisava saber tudo que tinha escrito ali, cada postagem, cada foto, cada comentário...

Porque uma fofoca era capaz de destruir reinados. E quando se é uma rainha com tudo a perder, saber o que dizem é essencial.

O Segredo da Rainha - O que você faria por amor?Leia esta história GRATUITAMENTE!