— Só isso? — bradou o bandido enquanto olhava a única nota de vinte reais.

Como suspeitei desde o princípio, pensou, sorrindo. Ainda segurando a faca contra suas costas, o ladrão jogou a carteira no chão e vasculhou os outros bolsos. Se quiser um celular, tenho más notícias pra você. O meu foi destruído e não tenho motivo pra comprar um novo. Não pra que... não depois de tudo... O pensamento fez o sorriso em seus lábios desaparecer.

Só havia uma coisa que Sam valorizava e quando as mãos do ladrão se fecharam naquilo, ele arregalou os olhos. Sua respiração ficou irregular e rápida e ele teve dificuldade em controlar o impulso de matar o ladrão. Merda! Merda! Não vou matá-lo... Ainda sou humano... Ainda sou humano!

— Que merda é essa? — O ladrão olhou para a pequena pedra vermelha em suas mãos, virando-a.

— Não... toque... — Sam conseguiu falar, o outro sangue dentro de si fervia. Droga! Estou perdendo a consciência...

Com uma mão na cabeça, Sam se virou antes que o ladrão pudesse fazer qualquer coisa. Ele só queria segurar o pulso do meliante, mas usou força demais e sentiu os ossos quebrarem por debaixo de seus dedos. Porra! Esqueci de controlar, pensou, soltando, metade de sua visão tingida de vermelho.

O assaltante gritou e caiu no chão, segurando seu pulso quebrado. Ele levantou a cabeça para encarar Sam, olhos cheios de raiva e dor. Mas então, após um instante, a raiva se foi e só restou horror.

— O monstro! — Ainda no chão, ele recuou, gritando e apontando com a mão boa.

Merda, Sam pensou quando percebeu que seu capuz caíra, expondo o rosto. Ele puxou o capuz de volta, mas antes que pudesse pegar a pedra, a porta do bar se abriu. Todos correram para fora e se reuniram no beco.

A multidão olhou para ele e depois para o assaltante. O ladrão apontou para Sam e, aos poucos, as pessoas entenderam quem ele era, o horror preenchendo os rostos. Foi só por um instante, mas a hesitação delas foi o bastante para Sam fugir.

Ele conhecia a cidade. Ele cresceu naquelas ruas. Sabia onde estava e para onde o beco dava. Graças a isso, não precisou pensar muito para escolher as rotas de fuga que chegavam a sua mente. Estava mais ocupado tentando acalmar seu sangue. Sou humano... Ainda sou humano, disse para si de novo e de novo enquanto virava nas esquinas.

Mas a cidade que conhecia desapareceu. A destruição mudou a cidade e ele desconhecia os novos caminhos. Os restos do supermercado que sua mãe ia todo domingo bloqueavam a rua que levava a outra ruela estreita, o melhor caminho. E antes que pudesse pensar em outra rota, pôde ouvir a multidão correndo atrás de si, os gritos alcançaram seus ouvidos. No instante seguinte, o caminho estava bloqueado.

— Monstro...

— Por sua causa... por sua causa, minha filha morreu!

— E a minha esposa!

Ele não deu o trabalho de olhar os que falavam. Eram todos uma massa sem rosto para ele. Sam manteve a boca fechada, suprimindo a vontade de retrucar. Vou falar o quê? Que salvei vocês... salvei esta cidade... e todas as vidinhas de merda deles, pensou ele, as narinas dilatando. Perdi meu olho, metade do meu rosto... o lugar a qual pertencia... tudo... e é assim que me agradecem?

— Sam... então é verdade... você realmente é o monstro...

A única voz familiar o fez olhar. Primeiro, ele não sentiu nada enquanto olhava para seu melhor amigo, mas quando Sam viu os olhos de Thiago, a raiva o preencheu. Ele é praticamente um irmão... e agora me olha assim, pensou, sua mão queimando por dentro. Não... Não! Ele agarrou o braço com a outra mão com toda força que tinha. Posso estar me tornando um, mas ainda não virei um monstro! Ainda sou humano, disse para si mesmo enquanto sua visão virava escura agora. Ainda sou humano...

Sem Glória Para VocêOnde as histórias ganham vida. Descobre agora