Capítulo 1

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Seu rosto o assombrava. Não, na verdade, o seu velho rosto. Não era dele. Não mais. Agora pertencia a uma vida diferente. Pertencia a um estranho. Um estranho que o assombrava em todo lugar. Mas isso não o incomodava. Embora fizessem apenas poucos dias desde que perdera sua velha vida, ele já se resignara a tal destino. Ainda que ver seu rosto não o incomodasse, as pessoas ignorantes o xingando e culpando fazia o sangue dentro de si ferver.

Ele fechou os olhos e escutou a TV enquanto bebia. Era um raro momento de paz nos últimos dias; a partida quase acabara e seu time vencia, a bebida gelada ficou ótima dentro do bar aquecido. Mas, quando o juiz apontou para o meio do campo e o noticiário começou, sua paz foi embora como se nunca tivesse estado lá.

As primeiras notícias da noite mostraram seu velho rosto. Não foi a foto que o deixou com raiva—era uma das melhores fotos já tiradas dele—mas a palavra procurado abaixo dela, junto a seu nome, fez toda a dor voltar.

Ele não precisava ouvir mais a TV. Sem prestar atenção, já sabia o assunto. "Samuel Alexandre da Silva ainda está à solta...", "A polícia está oferecendo..." ou "Culpado pelas mortes de milhares..." e mais coisas do gênero.

— Filho da puta!

— O desgraçado merece morrer!

Os gritos que ecoaram pelo bar sobrepuseram o apresentador do jornal. Sam não tinha certeza se deveria ficar feliz ou bravo por causa disso.

Hora de dar no pé, compreendeu assim que outras pessoas se juntaram à conversa e uma pequena multidão se formou perto da TV. Sam foi lá apenas para ver seu time e esquecer dos problemas por algumas horas. Merda... Eu jurava que este bar não tinha tanta gente. Mas já que a destruição ainda afetava boa parte da cidade e a eletricidade não voltou a muitos bairros, qualquer bar aberto em dia de jogo teria clientes.

Foi burrice minha. É claro que todo mundo ia ter a mesma ideia, ele pensou, entregando o dinheiro para a garçonete mais próxima antes de ir embora. Ninguém prestou atenção nele quando o mesmo abriu a porta. Por que prestariam?

Sam olhou para a TV. Ele quase não parecia mais com a foto; não apenas perdera boa parte do cabelo, como também perdera a cor. A pele não era a mesma da imagem e não tinha cicatrizes para completar. Com o capuz cobrindo metade do rosto, seria difícil reconhecê-lo. Só se alguém me olhasse bem nos olhos conseguiria.

Ainda que não fosse necessário e não fizesse qualquer diferença real, Sam puxou o capuz para si. O simples ato fez sua respiração e batimento cardíaco diminuir. Sam fechou os olhos e sentiu a brisa no rosto.

Mal dera dez passos para fora do bar quando sentiu algo afiado contra suas costas.

— Parado —alguém sussurrou e empurrou Sam para um beco próximo com a mão livre. — Passa tudo.

Sou um belo de um idiota, pensou Sam, segurando a vontade de pressionar as têmporas. Antes de tudo começar, a cidade já não era segura o bastante para se andar sozinho de noite, mas agora ficou ainda pior. Assaltos se tornaram a principal fonte de renda de muitos, especialmente os que perderam tudo. Ele tinha visto durante sua procura, mas Sam nunca imaginou que aconteceria consigo. Um bar lotado obviamente atrairia essa gente.

Com o resto do corpo parado, Sam moveu a mão até o bolso, devagar, procurando pela carteira surrada. O ladrão pegou assim que ela ficou visível, abrindo-a e tirando o dinheiro.

Ele vai ficar bravo, pensou Sam, tentando conter o sorriso e pensando no que deveria fazer quando sua previsão se tornasse real. Duvido que esse dinheiro o satisfaça...

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