Capítulo Quinze: O Sangue Nas Nossas Mãos

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"A verdade do que fui e do que fiz não desapareceu com o tempo. Ingressei num galeão pirata, chamado Alma Sangrenta, antes da Seca. Que terrível ironia. Gritei aos treze mares que ninguém conseguiria derrubar Língua de Ferro, mas o que tinha na minha mente era bem mais truculento e ingrato. A certeza de que havia perdido Luce para sempre. O sangue nas minhas mãos. Menos de um ano depois, o Alma Sangrenta encontrou uma frota naval bem vigorosa. Dizem que as chamas do fogo refulgiam no meu rosto e na minha lâmina, como se eu fosse um deus da guerra. Mas só me lembro do cheiro hediondo a suor e a piche, do solo pegadiço de sangue e de entranhas, dos vómitos e da carnificina à minha volta. Acabei por saltar ao mar, como os outros. Fui dos poucos sobreviventes. Acordei com a boca cheia de areia. Um prenúncio do que estaria para vir."

― Matem-na! ― gritou Allen, com um guincho. ― Matem-na! Matem-na! Ela é a culpada de tudo. O verdadeiro rosto do Império.

Empecilho desceu os degraus cautelosamente, enquanto o cenário na sala comum da estalagem transformada em quartel-general de Mario Bortoli se tornava mais claro. Bortoli estava de mãos nas ancas junto à janela, onde o borrão vermelho-alaranjado das chamas exteriores se coadunava com o estourar das bancas de mercado e com os gritos dos oprimidos.

Ele deu as ordens. Aquilo é obra dele.

Ccantia estava sob ferro e fogo, com indígenas e rhovianos a espalhar o terror. Bortoli entrara em Ccantia com vontade de ser parcimonioso e diplomático, mas desde que Averze se recusara a conceder-lhe uma audiência, a paciência do Mecenas implodira. Também Marovarola lhe prometera mundos e fundos, uma aliança promissora, e desaparecera sem uma nota de despedida. Por fim, Agravelli Domasi e Donatello Brovios apareceram mortos.

Por essa altura, Vance Cego capturou Lucilla e conduziu-a à estalagem, onde os rhovianos às ordens de Bortoli a acobertaram com uma pele de cabril e a ataram nos pulsos e tornozelos. Eram sete, os rhovianos ali presentes. Também havia um par de indígenas rezolis e cinco antigos prisioneiros da Prisão. Um deles era Opyas "Boca de Sapo" Raymon, que agora parecia trabalhar como taberneiro particular de Bortoli, substituindo aquele que tinha sido morto por Marovarola.

Lucilla parecia pálida e inexpressiva, resistindo a todas as perguntas e ameaças com meras evasivas e provocações. Colocaram-na sentada sobre uma mesa, com uma adaga afiada a um palmo da sua garganta. Allen caminhava de um lado para o outro, com um rosto afogueado, maxilar tenso e olhar assustado, e parecia lembrar Bortoli a cada segundo de quem Lucilla era, sempre com um indicador acusatório acima da cabeça para enfatizar os seus argumentos. A mente de Bortoli, contudo, parecia longe dali.

Empecilho tentou imaginar o que ruminava por detrás daquele cenho franzido. Devastar a cidade-sombra e avançar para Chrygia, levando Lucilla como troféu ou refém parecia ser a medida mais lógica, tendo em conta os últimos acontecimentos. A ideia de ganhar Chrygia com venenos e usar Língua de Ferro como bode expiatório caíra por terra. Tinham chamado demasiado a atenção, Língua de Ferro desaparecera misteriosamente e agora tinham ali Lucilla ao seu dispor.

Porém, o Mecenas era muitas vezes imprevisível.

Allen argumentava com alguma aflição para que se livrassem dela, que Lucilla era muito mais perigosa do que a sua aparência sugeria. Parecia agora, no entanto, encetar um monólogo. A sessão de parada e resposta que os rhovianos incutiram à mulher tinha findado, e até Vance Cego parecia limitar-se a esperar, encostado a uma parede com os braços cruzados e uma espada larga embainhada à anca direita. Ravella estava ao seu lado, igualmente expectante.

― Não foi para isto que viemos até aqui? Para acabar com ela? ― continuava Allen, recebendo indiferença como resposta.

Ravella soltou um suspiro enfadado. De resto, a uraniana tinha modificado ligeiramente o seu comportamento desde que Vance a reclamara para si. Quando era amante do rhoviano, parecia evidente o seu esforço por agradar, mostrar-se cortês e tudo isso redundava num comportamento visualmente teatral. Com Vance, Ravella era ela mesma. Não sabia o que ele lhe teria dito, mas os dois pareciam falar uma mesma linguagem, talvez por comungarem da mesma origem – os seus traços pálidos denunciavam a natureza da vasta província do Urão, a norte. Nunca os vira agarrados ou a partilhar gestos ostensivos de carinho ou de desejo, mas partilhavam o mesmo quarto e lá passavam várias horas.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!