Capítulo 17

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MARCOS

Acordei com um sabor amargo na boca. Não sabia onde estava. O quarto era tão branco que feriu meus olhos assim que os abri. Algo familiar. Tentei levantar, mas fui impedido por um tubo que ligava uma bolsa de soro à minha veia. "Ah sim, o hospital". Há quanto tempo estaria ali?

Aos poucos, a minha memória foi retornando, e todos os acontecimentos passados ficaram claros como água. Inconscientemente, comecei a chorar. Não era um choro desesperado, mas a libertação de uma dor que estava aprisionada. Parecia irônico um médico morrer de uma doença que costumava diagnosticar no seu dia-a-dia. Mas acontecimentos como esses ocorriam em outras famílias, não na minha, que contava com dois médicos renomados, que salvavam vidas. Não na minha casa! Mas agora...meu pai era apenas lembrança.

Me recusava a acreditar que aquela situação tinha algum motivo de ser. A educação que havia recebido, e as experiências que eu e meus pais havíamos vivido eram respaldo suficiente para a minha crença de que Deus sempre está no controle de tudo. O que acontecia, era permissão dEle. Mas, em momentos de dor, algo acontece, que nos deixa "cegos", impossibilitados de relembrar tudo o que Ele já fez. É como se víssemos apenas o presente, um povo hebreu apavorado com o mar à sua frente, esquecendo que o Senhor já havia demonstrado tantas outras vezes que seria com eles.

Me sentia enclausurado em minha própria agonia. Passei o dia seguinte todo no hospital, sendo visitado várias vezes pelas enfermeiras e observado dia e noite. Voltei para casa exatamente vinte e quatro horas depois do ocorrido.

A sensação era de estar vivendo um sonho. Digo, um pesadelo! Todos os cômodos da casa possuíam uma história. Não há como dissociar memórias de lugares. Sentia-me parcialmente morto, por dentro. Minha mãe tentava me ajudar como podia. Chamava meus amigos para visitar, promovia passeios de mãe e filho, trazia presentes inesperados, fazia minha sobremesa favorita...e orava por mim, constantemente. Mas nada parecia me animar. Só queria estar sozinho, recapitulando minha própria vida vezes sem conta, em um ciclo vicioso.

Certa tarde, cerca de um mês após o ocorrido, estava eu deitado na rede da varanda, quando ouvi o som de passos se aproximando da casa. Sem muita coragem de sequer erguer a cabeça para ver quem era, esperei que a pessoa falasse para, enfim, decidir o que fazer.

---- A paz do Senhor, Marcos! Sua mãe está? ---- Falou uma voz hesitante.

"Esperem...eu conheço essa voz. É a mesma que me visitou no hospital depois do acidente, e a mesma que estava comigo no dia em que meu pai faleceu..." Era a voz de Hellen! Fechei os olhos instintivamente. Não queria que ela me visse naquele estado, pelo amor de Deus! Estava literalmente no fundo do poço, com enormes olheiras que fariam uma mamãe panda me confundir com um de seus filhotes.

Se ela me visse agora, ia perder todos os meus créditos, aquela imagem com certeza não sairia da mente dela! Sim, eu sou um criador de drama nato.

Como não respondi ao seu chamado, ela seguiu para a grade e bateu palmas até que minha mãe saiu pela porta da frente, certamente me lançando um olhar reprovador.

---- A paz do Senhor, minha linda! ---- Um sorriso largo no rosto, imagino. ---- Que bom você vir aqui nos visitar!

---- Amém! Vim saber como a senhora estava. ---- Uma pausa ---- Desculpe, mas acho que não chegamos a ser apresentadas. Me chamo Hellen.

---- Eu sou Ângela, a mãe do Marcos.

Ao ouvir o meu nome, tentei não abrir os olhos e me erguer para cumprimentá-la. Apesar de querer fazê-lo, deveria manter meu disfarce ou tudo seria em vão.

---- Você quer entrar? Acabei de fazer um bolo de laranja, tem que ficar para comer.

---- Hum... o cheirinho está me deixando com água na boca!

Liberdade - Uma história de amor e fé [Não Concluído]Leia esta história GRATUITAMENTE!