Capítulo 16

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MARCOS

Queria eternizar aquele momento em um filme com efeito de câmera lenta. Provavelmente no dia seguinte não acreditaria que havia acontecido. O olhar que ela me dirigiu respondeu todo o questionamento de uma vida. Da minha vida. Sempre achei interessante quando alguém dizia ser possível ver lar em um olhar. Era assim que eu me sentia. Mas, como sempre, as palavras me faltaram quando eu mais precisava delas. Ou talvez aquele silêncio escondesse mais do que meras palavras poderiam explicar.

O lanche terminou, e cada um foi para a sua casa. Quando dei por mim, estava na porta do estabelecimento, acenando em despedida para aquela que seria a minha futura esposa. Dizer essa palavra associada ao seu sorriso que ainda pairava vívido em minha mente causava um turbilhão de sentimentos.

Fui para casa contando as pedras no chão e falando em secreto, com Deus. Então quer dizer que todos os "não" que recebera do alto convergiam para aquele momento? Impressionante! Deus realmente sabe como trabalhar. Eu é que às vezes me perdia em questionamentos e ansiedade descontrolada. Mas Ele sabia exatamente como a história iria terminar. Segui todo o caminho com um sorriso nos lábios, estava me sentindo bobo, mas gostava da sensação.

Ainda antes de entrar na rua da minha casa, vi o brilho de uma sirene refletido. "Como assim? Será que é a polícia?". Pensei. A minha rua costumava receber muitas visitas dessas, não era propriamente um lugar seguro, entendem? Mas à medida que me aproximava, pude perceber que se tratava de uma ambulância, e estava em frente a um jardim bem cuidado, com uma cadeira de balanço na entrada, e um tapete de grama sintética que dizia "bem-vindo". Era a entrada da minha casa.

Já esquecido de todos os pensamentos apaixonados que haviam povoado minha mente há alguns segundos atrás, corri apressado, afastando as pessoas, e perguntei a um dos paramédicos o que estava acontecendo. Provavelmente ele era um daqueles que não recebia preparação para falar com os familiares de pacientes, porque foi bem curto e frio.

— Seu pai morreu, garoto.

O chão pareceu desaparecer sob os meus pés. Sentia-me realmente um garoto naquele momento, um garoto que agora estava órfão de pai. Minha visão ficou turva, de repente, e desmaiei.

HELLEN

Meu Deus, que dia! Será que eu vi realmente um vislumbre apaixonado naqueles olhos profundos e conhecedores? "Por favor, não me acordem desse sonho, estou bem demais para voltar à vida real." Estava tão empolgada no monólogo, que não escutei quando o celular começou a vibrar no bolso. "Como vai ser minha vida daqui para a frente? Não consigo continuar como se nada tivesse acontecido, é emoção demais para um dia só!"

Cheguei em casa, ainda sorridente, e fui direto para o quarto, me organizar para o culto da noite. Estava eu embalada nos hinos da minha playlist, quando ouvi uma batida fora do normal na porta do quarto. Gritei um "cinco minutinhos, saio já!", e continuei a minha preparação. Quando finalmente saí do quarto e fui (a passos de valsa) para a cozinha, onde minha família já estava reunida, me deparei com três rostos tristes. Lídia também estava lá.

— Gente, o que houve? Parece que todo mundo está com cara de enterro! — Resmunguei.

— Hellen, aconteceu uma coisa na casa de Marcos. — Lídia começou, relutante.

— Com...com Marcos?? — Meu coração caiu nos pés. Uma falta de ar súbita enevoou a minha visão.

— Sim, não sei como te dizer isso, mas o pai dele sofreu um AVC enquanto ele estava fora de casa.

— Meu Deus!! Mas ele está bem?

— Ele não resistiu, Hellen.... E tem mais uma coisa. Marcos chegou em casa e viu a ambulância na entrada. Um dos paramédicos não soube dar a notícia, e ele desmaiou. Foi levado para o hospital, mas ainda está sedado e dormindo. Foi um choque muito grande para ele.

A cozinha parecia estar rodando sozinha, perante meus olhos.

— Ele estava com a gente, Lídia, se ele estivesse em casa....Meu Deus! Se ele estivesse em casa.... — Comecei a chorar, sem conseguir conter minhas emoções. Não sabia por que estava tão sensível, mal conhecia Marcos, nem conhecia seu pai! Mas tudo aquilo me parecia muito errado. Sentia que era culpada pela ausência dele na hora em que seu pai mais precisava.

— Se ele estivesse em casa teria acontecido a mesma coisa, Hellen. A culpa não foi de ninguém, foi permissão de Deus. — Lídia tentava me acalmar.

— Nós estávamos tão à vontade, lanchando e sorrindo, quem poderia imaginar o que estava acontecendo? — Olhei para cima, tentando controlar o choro. Um nó apertava minha garganta, uma tristeza inesperada.

Pedi licença aos meus pais e à minha melhor amiga e voltei para o quarto, já desistindo de ir para o culto. Chorei, abafando o som com a almofada. "Por quê? Porque com ele? Porque o pai dele? Logo hoje, que deveria ser um dia marcante, o nosso dia!"

Uma voz retumbou dentro de mim, e me deixou paralisada. "Vai! E eu falarei contigo."

Não foi preciso repetir duas vezes. Saí do quarto como se estivessem me empurrando. Lídia ainda estava com meus pais, à mesa, em silêncio. Passei quase voando por eles, deixando um rastro de preocupação naqueles rostos que amava. Cheguei à igreja em dois tempos. Os grupos já estavam cantando, mas fiquei ajoelhada nos últimos bancos da igreja, disposta a passar despercebida por todos.

O culto seguiu. Continuei de joelhos, incapaz de encarar quem quer que fosse. Uma criança foi chamada para louvar. Mas antes de começar o hino, disse que Deus tinha uma mensagem para alguém. Meu coração bateu acelerado. Será que Deus iria usar aquela criança para falar comigo? O menino não saiu do lugar onde estava, falou de lá mesmo. Mas me atingiu em cheio.

"Porque ainda questionas o meu trabalhar? Já não provei que posso cuidar de ti e do teu? Porque ainda te perturbas? Se você se render à minha vontade, te usarei para fortalecê-lo, e usarei ambos para alcançar muitos!"

Chorei como nuncahavia chorado. Minha alma foi lavada, e minha fé, renovada. Eu precisava serforte. Por mim, e por ele. Naquele momento meu choro foi de tristeza por alguémtão especial na vida de Marcos, mas que nunca chegaria a conhecer. Chorei pelatristeza que ele com certeza enfrentaria quando acordasse, e ainda mais pelafalta que o pai traria àquela família. Chorei como se eu mesma já fizesse partedela.    

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!