Dracma

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Dracma


Às verdades, que um dia foram mentiras.






Havia uma ilha: longe o bastante de tudo, perto o bastante do nada. Intocável para mim, para nós, para quem está. Mas para quem se aventura no oceano, talvez ela seja a estadia dos que daqui se foram.

...

É hoje... O dia que chove.

O dia que chove uma chuva diferente, daquelas que um dia me foi chuva. Pois as anteriores, quando vinham, lá estava eu, esperando os pingos tocarem no telhado e quando acontecia, toda aquela mágica, eu me encolhia mais e mais na cama; o clima úmido, a coberta, o corpo pequeno que era abraçado pela gigantesca cama, a mesma ligeiramente fria que aquecia-se quando eu me movia de um lado para o outro.

"Ah... doce infância, a qual hoje me parece um filme que assisti há muitos anos... Um filme que foi imaginado com vários finais felizes, uma lembrança insistente que ecoa através dos tempos suplicando para que não se perca com o vento".

É hoje, o dia em que chove uma chuva que não apenas molha, mas que também fere. E lá está ela.

Ela chegou. Temo sair, pois não quero me molhar, não outra vez. O que hoje apenas posso fazer, assim como fiz ontem e outros muitos "ontens", é fumar o meu cigarro, olhar pela janela fosca já suja e embaçada de poeira pela poluição dessa cidade que morre lentamente, sendo riscada por pingos d'água que escorrem do lado de fora; o que posso fazer é apenas esperar ela ir embora, enquanto bebo meu vinho, permanecendo calado em gritos internos olhando minha vívida morte-vida ascendendo ao ocaso.

Eu a sinto, de todas as formas, o seu cheiro úmido no asfalto molhado, antes seco, no barulho nas árvores, no céu antes azul sendo engolido pelo cinza fúnebre, e nas pessoas correndo. – talvez elas saibam que hoje é o dia da chuva que fere. – Quem sabe nesse hoje, novamente sozinho nesse escuro e falecido quarto morrerei por mais um dia, brindo a ela, a qual levou uma parte de mim, – arrancou de mim! – me deixando numa vida amarga. Talvez a morte tivera esquecido de mim, talvez ela tenha virado numa outra esquina, abraçado um outro ébrio cheio de ira no coração e de batimento vagaroso fadigado. Talvez ela ido sem ter me levado... Às vezes, temo até que ela esvaneça e esqueça-se de me levar.

Mas por agora, nesse momento-agora, serei o herege, o que se recusa aos caprichos de um pai presunçoso. Não dobrei meus joelhos naquele dia e não os dobrarei hoje, tampouco amanhã! Um buraco, profundo e escuro, é o que meu coração é hoje, é o que me é presente depois da minha grande queda.

Eu ainda lembro, lembro-me de como era.

Ela era tão pequena, tão doce, gentil... Pura. E você a deixou ir, na verdade você a arrancou de mim, ela tinha sonhos, – a pequena sonhadora. – vivências não vividas, amigas e amigos, parentes, um cachorrinho de cor marrom e branca que ainda visita o quarto dela, esperando a pequena voltar de um dia de aula – eterna ida. Suas ações são injustificáveis, suas "linhas tortas".

...

Seguidamente, com tudo o que se caminhou, os trajes fúnebres, as lágrimas e as preces, logo após todo o luto, dor e o vazio que ficara, em queda livre eu mergulhei de cabeça dentro dum poço escuro, de água suja, fétida e fria. Águas que se assemelham como quando a chuva lava as ruas dessa cidade imunda, podre e vil. Eu mergulhava cada vez mais e mais, tão longe, tão fundo, tão só, tão morto... tão frívolo. A mulher que segurava minha mão a soltou, preferiu caminhar só do que ao lado de um recente ébrio, tomado por um jovem trauma intensamente colérico! Minha ira crescia a cada dia, tinha – tem. – um alvo: o homem mágico de barbas grandes e brancas. O mesmo o qual a mulher que segurava minha mão acredita veemente, também é o mesmo que usurpou nossa pequena sonhadora!

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