Capítulo 15 - Hellen

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Seguimos para a lanchonete. Lídia sorrindo feito besta, com o seu andar pulado de quem não tem nada a temer. E não tinha, mesmo. Já eu...não estava mais com borboletas na barriga, agora pareciam pássaros, voando aleatoriamente em meu estômago. Graças a Deus, nunca tive problemas de distonia, porque se tivesse, seria trágico. Quando chegamos no estabelecimento, Marcos voltou aos cumprimentos, como se estivéssemos separados há dias. Uma leve sensação de eletricidade sendo  transferida pelo toque das mãos.

Sentei, meio sem graça, procurando alguma forma de começar a conversa sem parecer desconexa. O que me parecia uma tarefa bem árdua. Não conseguia entender como uma pessoa tão extrovertida como eu poderia perder todas as palavras em tão pouco tempo. Na verdade, conseguia, só não estava pronta o suficiente para admiti-lo. Não em voz alta.

Evitando manter contato visual, sentei em frente a uma das meninas que estavam na mesa, ao lado dele, prevendo que ficaria mais à vontade assim. Talvez ele até esquecesse que eu estava ali, e conversasse com os demais amigos, que já faziam parte do grupo. Parte de mim torcia para que isso acontecesse. A outra parte...enfim, vocês já devem imaginar.

Segurei o cardápio e convidei os demais a fazerem o mesmo. Enquanto todos estavam atentos a discussões sobre o que deveriam comer naquela tarde, olhei de soslaio por cima do menu. Ele parecia mais concentrado do que era necessário para uma escolha tão simples. Sorri, pensando naquele dia da livraria. Talvez sentindo um par de olhos encarando-o, ele levantou a vista e me descobriu, espiando por cima do cardápio. Corando, me escondi rapidamente. Estava me sentido uma adolescente, pelo amor de Deus! Me pareceu ter ouvido um sorriso baixo, do outro lado. Não era o dele, gosto de pensar que teria reconhecido.

Os pedidos foram feitos, e as conversas recomeçaram. Cada um parecia já estar envolvido com o seu próprio grupo. Só eu estava mais interessada em admirar os vincos do guardanapo de papel na mesa. Até Lídia parecia estar se dando bem com todos, exibida.

Fiquei retraída ao perceber que não conhecia a maioria, visitantes de outras congregações. Lídia percebeu meu desligamento com o mundo real e tocou a minha mão sob a mesa, tentando me passar alguma confiança através do seu olhar. Devo dizer que não ajudou muito, mas me fez lembrar de que não estava ali sozinha, alguém que me entendia quase tão bem quanto eu estava lá para me apoiar.

Em pouco tempo os pedidos chegaram, e cada um dedicou toda a sua atenção aos pratos. O silêncio que tomou o espaço poderia ser cortado em fatias, tal era a sua densidade. Não era para menos, a comida naquela lanchonete era de chorar por mais. Nosso grupo era bastante diversificado, entre cachorros-quentes e coxinhas com ótima aparência, estava eu, com uma salada verde e um copo de limonada. Contrastando seriamente com duas ou três garrafas de coca cola suadas de gelo.

Nunca fui de fazer muitas dietas, mas naquele dia achei que precisava cuidar melhor da minha saúde e troquei o belo pelo saudável. Estava contente com a minha decisão. Tão contente que deveria estar sorrido para uma folha de alface quando alguém interrompeu meus pensamentos nada normais.

---- E aí, Hellen? Você faz alguma faculdade?

Levantei os olhos e vi que era Marcos quem fazia a pergunta. Só lembrei do famoso slogan dos pinguins de madagáscar: "sorrir e acenar". Queria fazer apenas isso, mas acho que a pergunta não era propriamente retórica.

---- Uhum, concluí o último período de Rádio, Televisão e Internet. Os últimos retoques do TCC já foram dados. Graças a Deus consegui a aprovação! Estou só esperando a colação de grau e a festa de formatura.

---- Nossa, que nome grande, hein? ---- Sorriu ---- O que difere o seu curso dos demais na área de comunicação? ---- Achei a resposta extremamente óbvia, mas queria manter a conversa, então prolonguei o assunto.

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