Capítulo 7

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Era quase cinco horas da tarde quando Pablo voltou para o seu apartamento. Entrou de mansinho e, quando fechou a porta, o pequeno Murilo já se encontrava no meio da sala com a língua para fora sentado sobre as patinhas traseiras.

- Meu amigo, temos algumas novidades para hoje – disse Pablo com um sorriso cansado, enquanto colocava sobre a mesa de jantar os smartphones pessoal e o do trabalho, que ainda estavam desligados, e dirigiu-se para a área de serviço para deixar a sacola de ginástica.

"Continue", diziam os olhos do Murilo acompanhando os movimentos do Pablo. Sua língua agora estava dentro da boca fechada e sua testa estava franzida de curiosidade, até mesmo porque se o dono chegava àquela hora em casa de short e chinelo é porque realmente deveriam haver muitas novidades.

Pablo voltou da área de serviço andando sem muita pressa e sentou-se no chão, bem ao lado da mesinha de vidro que ficava no centro da sala, posicionando-se de frente para o cachorro. Pegou uma de suas patinhas com a mão, examinou-a por um instante e a deixou cair lentamente de volta para o chão. Passou a mão na cabeça dele e prosseguiu:

- Pedi demissão, ou melhor, larguei a empresa, mas ainda não avisei meu chefe e nem o departamento de recursos humanos. Devo passar lá amanhã para comunicá-los e acertar as contas. Tudo bem para você, amigão?

Murilo arregalou os olhos com a expressão "Não acredito!" e sacudiu rapidamente a cabeça em desaprovação, ainda com a língua presa dentro da boca fechada.

Pablo se levantou e foi abrir as cortinas da janela para deixar entrar os últimos raios de sol daquele dia. Olhou despretensiosamente pela janela lá para baixo só para ter certeza de que a vida seguia normalmente engarrafada para os carros que tentavam ir ou vir pela rua. Na volta, deitou-se no sofá e deixou o braço direito pender para fora até chegar bem próximo ao chão, que era a senha para o Murilo aproximar-se novamente e se encostar para receber mais um carinho.

- A princípio pode parecer estranho o que irei falar, mas é que leva tempo para conseguirmos ligar todos os pontos. E quando entendi essa ligação, percebi que andei trabalhando esse tempo todo de forma incansável para construir um enorme vazio em minha vida. Ou melhor: construí um baita de um muro lindo e grande, que na verdade só serviu para me esconder da vida, mas aqui dentro continuamos apenas com um terreno vazio, que é o mesmo desde a época em que comecei na universidade – disse apontando para o coração.

Murilo encostou-se mansamente onde pendia a mão do Pablo, e este imediatamente o agarrou por debaixo da barriga, trazendo-o para cima do sofá. Colocou-o ao seu lado, fez-lhe um carinho na sua cabecinha até que o pequeno voltou a sorrir e deixou a língua pender para fora da boca novamente.

- Em quase dez anos, ajudei a criar tantas coisas bacanas que fizeram melhorar bastante a vida das empresas que foram ou ainda são clientes, muito embora a vida de cada ser humano dentro dessas organizações não tenha sido afetada na mesma proporção, pelo contrário. Belo contrassenso, hein? – perguntou enquanto mirava os pequenos olhos amarronzados do seu cão.

Respirou fundo e prosseguiu:

- Para ser sincero, acho que nunca consegui colocar um sorriso verdadeiro na boca de quem quer fosse como retribuição por algo que tenha feito na empresa - tudo era apenas parte de um grande teatro corporativo, pois sempre fui pago para reduzir custos e aumentar a eficiência. Se fizesse isso, como cansei de fazer, todos riam porque receberiam bônus melhores e ponto. É a regra do jogo e tudo bem com ela. Por outro lado, a tristeza que deixei em cada um dos rostos das centenas de trabalhadores que tive que dispensar por conta dos projetos de automação nos quais me envolvi eram reais. Extremamente reais. Eu não posso segurar o avanço da tecnologia, mas sim usá-la em favor da nossa causa, que no final das contas era mais dinheiro na conta dos acionistas. E usei-a muito bem, diga-se de passagem. Agora, olha a Dona Gilda. Ela, assim como os acionistas, também precisa ter lucro, certo? É óbvio que sim, mas todo dia ela coloca centenas de sorrisos verdadeiros não só nos rostos das pessoas que compram as flores, como principalmente nos rostos daquelas que irão recebê-las. Muito mais do que manter a empresa viva vendendo cada vez mais flores, o que ela faz é cuidar da felicidade e intermediá-la com carinho entre as pessoas para deixar o dia a dia de cada uma delas muito mais feliz. E eu? Faço a intermediação do quê? Do apocalipse? Qual era o sonho que eu buscava obsessivamente? Subir mais um degrau e virar superintendente para ter participação em ações até o dia em que desse mole e fosse convidado a me retirar. Ganharia um tapinha nas costas, um abraço e tchau. E a moral da história é que ajudei a construir tantas coisas bacanas, mas que no final das contas nunca foram minhas. Saindo agora, tudo o que me resta é este apartamento e o dinheiro que tenho no banco, que já não é pouca coisa, mas é tudo material. Meu filho está lá do outro lado do Estado e eu estou aqui, mas ao invés de planejar minha vida para que ele fizesse parte disto tudo, meu plano era continuar subindo para ficar cada vez mais longe dele.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora