O ideal de John Humphrey

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John Humphrey era um dos alunos exemplares da universidade. Cursava direito e gostava de ler tudo sobre ética e cidadania. No segundo ano já havia escrito boa parte da sua monografia, onde sugeria a necessidade de um estatuto em defesa dos seres vivos, incluindo as pessoas.

Humphrey era um porco. Um suíno nascido em uma família da mais alta linhagem do campo. Seu pai era um economista de sucesso, e a mãe, uma filósofa acadêmica. Ele teve a quem puxar.

Logo que John terminou a faculdade, mudou-se para a grande cidade, onde foi fazer doutorado em ética e cidadania. Lá escreveu a sua tese sobre a importância da tolerância por outrem. Foi nessa época que ganhou o prêmio Jovem Revelação e, por isso, o governador da cidade o escolheu para escrever as Leis da Tolerância e Trégua no Estatuto dos Animais. O governador era um leopardo, e nada mais convincente em questões de tolerância quando se coloca um porco e um carnívoro de respeito para descrever tais leis.

Elas falavam da trégua entre cães e gansos na briga pelo direito de defesa de propriedade; pregavam o respeito pelo instinto da águia em querer matar o macaco para comer a carne, e exigiam a não ação dessa ave durante as assembleias e reuniões populares — também frequentadas por símios. As leis davam também ao macaco o direito se defender com uma arma, se assim fosse preciso.

Nem tudo o que estava no estatuto Humphrey aprovou, mas às vezes o governador leopardo preferia se reunir antes do almoço, e era normal seu humor mudar com a fome.

Dois anos mais tarde, John já havia publicado um livro sobre o Direito da Distribuição de Territórios, ressaltando os bisões e sua natureza migratória, defendendo que deviam ter, como direito assegurado pela nação, duas casas.

Mas John ainda não se sentia feliz com a dificuldade que era colocar as suas ideias em prática. A desigualdade entre os animais era escandalosa. Houve um dia em que viu um rebanho de pessoas ser transportado num caminhão. Elas gritavam em desespero. Foi neste dia que Humphrey se lembrou de sua infância, quando estava certa vez num Pessoalógico. Lá viu um macho e uma fêmea de pessoas protegerem um filhote que era arrancado por um gorila tratador. Aqueles pensamentos em conjunto mexeram com as emoções do talentoso Humphrey.

Mas já diziam os animais mais antigos, como o elefante e a tartaruga: as pessoas ficam em gaiolas porque são perigosas. As pessoas são piores do que um grupo de leões famintos, lembrou sua professora do primário, uma cobra, ensinando normas de segurança. Todos sabiam que era por esse motivo que as pessoas foram destinadas à indústria alimentícia.

O caminhão está levando essas pessoas para o abatedouro, pensou Humphrey voltando sua atenção ao veículo. Isso havia estragado a noite do porco.

***

— Eles são seres vivos e sentem medo e dor como nós — falou John em sua visita a Rousseau, o mocho que foi o seu orientador no doutorado.

— As pessoas estão presas há gerações e não é por acaso, John — explicou o mocho. — Nossos antepassados sabiam o que estavam fazendo quando os prenderam. É melhor deixar como está.

— Mas já faz muito tempo — insistiu Humphrey. — Como quer que as pessoas reajam se nascem e vivem para nos alimentar? É preciso pensar nos Direitos dos Seres Vivos.

— Esqueceu-se do artigo 9°?

Não será punido o animal faminto que, pela lei do mais forte, mata a fim de se alimentar — ditou o porco que nunca havia concordado com aquele parágrafo.

— Sem eles, de onde tiraríamos a ração dos filhotes dos porcos, galinhas, cavalos? A merenda escolar é um banquete, John! Sem a carne das pessoas, os animais comeriam uns aos outros — o mocho empoleirou-se na cadeira e levou a asa ao ombro do porco. — Eu o vejo como um amigo. Não quero que termine mal em sua carreira. Pense na ração que alimenta o estômago faminto dos canídeos. E o que diriam os felinos se tirássemos dos restaurantes o baby beef?

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