Capítulo 1

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— Olha lá — alguém sussurrou. — Ela voltou mesmo? Depois daquilo tudo?

— Ela foi presa ou algo assim, né? — perguntou outra voz.

— Não, besta — falou um terceiro. — Ela estava na clínica de reabilitação.

— Ah, foi mesmo. Fiquei sabendo que ela quase teve uma overdose na véspera de ano novo.

Apesar de sussurrarem, a garota conseguia ouvir tudo. Estou surpresa que se deem ao trabalho de sussurrar, pensou Eliza enquanto caminhava até a última fileira, os olhos abaixados para evitar contato visual. Quando sentou na cadeira próxima à janela, ela descansou a cabeça nos braços e fechou os olhos.

Faz uma semana desde que fui liberada, pensou ela. Achei que vocês já teriam cansado desse assunto agora. A primeira aula nem começara e já estava cansada. A garota tinha uma forte impressão de que muitos alunos a encaravam. Mas, quando abriu os olhos e olhou ao redor da sala, ninguém olhava em sua direção.

Eliza fechou os olhos de novo e moveu os braços para cobrir o rosto. Respirando fundo, a garota relaxou e abriu os olhos de novo. Depois de encarar seu braço por alguns segundos, a pele começou a ficar transparente. Um segundo depois, os músculos, veias, sangue e ossos também desapareceram, então Eliza confirmou que os alunos olhavam para ela.

Controlando a vontade de zombar, ela piscou e sua visão voltou ao normal. Seus olhos começaram a formigar e ela os fechou para aliviar a sensação. Vocês já não deviam ter enjoado de mim? Sei que é o primeiro dia que voltei e pá, mas não sou nada interessante, pensou, suspirando. Se quiserem fofocar tanto assim, que tal escolherem alguém com uma vida mais fascinante?

Eliza ouviu a porta e moveu seu braço um pouco. Tipo ela. A vida dessa garota é bem mais legal que a minha. Uma de seus colegas caminhava até sua carteira naquele momento. A garota jogou seus longos cabelos castanhos pra trás com uma das mãos enquanto sentava. Não demorou nem um segundo até duas amigas sentarem perto dela e começarem a conversar.

É, falem dela, não de mim. Sério, ela tem uma vida bem mais interessante. Eliza observava de esguelha. As amigas da garota riam, brincavam com as mãos e refaziam suas maquiagens.

Sei que dá a entender que ela não consegue manter uma conversa além dessas desgraçadas, como se a vida dependesse disso, mas é tudo fachada. Se suas amigas soubessem que você tem um trabalho pra juntar dinheiro e estudar fora do país enquanto ainda cuida da casa, já que sua mãe deixou você e seus dois irmãos...

A porta abriu de novo e Eliza deu uma espiada. Ele também é assunto pra dar e vender. Sabiam que ele está tentando ser um artista e, para tal, está procurando por novas experiências para aprofundar seu trabalho? Até beijou um cara após tomar uma droga aí, embora não sei se deu certo com o outro cara, pensou ela, lembrando-se de como seus olhos fecharam quando os dois começaram a se despir. Não curto essas coisas.

Aquela lá é outra legal. Vai pro cemitério e tenta invocar os mortos. Pode ser só loucura, mas é bem mais emocionante do que a chata aqui. Ou quem sabe aquele ali, com um pau tão pequeno que usou esteróides feito louco e treinou pra compensar. Pensando bem, ele ainda não falou com uma garota... Pode ser engraçadinho, mas tenho certeza de que é bem mais interessante do que eu. Ou quem sabe... ela. Duvido que ela tenha uma vida interessante...

Eliza desviou o olhar quando viu Bianca. É... acho que a vidinha perfeita dessa daí que parece tirada da TV seria chata demais para se fofocar, pensou, com a mente lembrando de tudo que ouvira da garota. Será que alguma coisa legal acontece na vida dela pra variar?

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