Capítulo 1

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O CONTRATO

O contrato estava ali, jogado sobre a cama pronto para ser assinado e assim mudar todo o rumo bagunçado que a minha vida estava tomando. Mas de início hesitei, por mais que não acreditasse naquelas coisas tinha medo de algo ruim acontecer comigo. Seria apenas uma pegadinha? Ou realmente tudo mudaria após eu assinar aquele longo pergaminho amarelo?
A minha alma está em jogo, se é que eu realmente tenho uma, não sei. As vezes me sinto tão vazia que poderia afirmar com toda convicção que nem mesmo órgãos existem dento de mim. Sou uma pessoa oca, sem sonhos, sem ambições, sem vontade alguma de permanecer neste mundo imundo no qual as pessoas insistem em me humilhar.

Me recordo plenamente da vergonha que passei hoje cedo quando a proprietária do apartamento me acordou aos gritos cobrando o aluguel atrasado, me dizendo coisas horríveis, aposto que todos os outros inquilinos escutaram. Mas o que eu poderia fazer? A realidade é essa, pessoas privilegiadas humilham pessoas rebaixadas como eu e não há nada que possamos fazer.
Por mais uma vez me peguei com os olhos vidrados no contrato sobre a cama.

Que palhaçada.

Pensei, enquanto uma brisa gelada entrava pela janela e balançava meus cabelos negros. Eu estava hospedada no segundo andar de um apartamento caindo aos pedaços, o aluguel não era caro e mesmo assim eu nunca conseguia pagar em dia.
Foi então que eu escutei a maçaneta da porta girar compulsivamente, em seguida alguém a abriu.
Não era ninguém menos que Carla, a dona do apartamento. Ela estava acompanhada de duas pessoas, seu marido gordo e um outro homem que eu não fazia ideia de quem era.

— Kaila — ela falou com o típico tom ignorante de sempre — preciso que desocupe o quarto agora mesmo.
— Mas agora? Já está de noite e não tenho para onde ir. Me deixe passar só mais essa noite.
— Sinto muito, alguém pagou caro por esse quarto então peço que se retire.
— Mas tem tantos outros quartos vazios.
— Essa pessoa pagou por todos e este aqui está incluso.
— Saía logo e pare de balbuciar — disse o marido gordo dela me olhando como se eu fosse um simples pedaço de lixo.
— Eu não vou sair, está de noite e tenho meus direitos.
— Você não tem direito de nada, mal paga suas dividas — Carla nunca media  as palavras quando se dirigia a mim, foi assim desde o primeiro dia em que pisei ali.
— Só essa noite... — minha voz começava a falhar, eu iria desmoronar a qualquer momento.
— Rapazes — falou, meio que dando uma ordem secreta para seus capangas baratos.

Seu marido adentrou no quarto ao lado do outro brutamonte e eles começaram a vasculhar as gavetas.
— Vocês não podem fazer isso.
— Podemos e vamos — disse Carla enquanto os outros dois jogavam minhas roupas e pertences em cima da cama, próximo ao contrato que eu tanto hesitava em assinar.
— Eu vou denunciar vocês, eu juro.
— Jure o quanto quiser, está nos devendo e ainda se acha no direito de querer fazer denúncias. Tomara que morra de fome nas ruas, cadela barata.

Foi ai que eles fizeram algo que eu não esperava, usaram o lençol da minha cama para fazer uma pequena trouxa e assim envolver todos os meus pertences. Em seguida jogaram tudo pela janela sem se quer se importarem com os objetos que poderiam se quebrar.

— Tudo limpo — o marido de Carla passou por mim, ele estava de costas mas eu podia ver claramente o seu maldito sorriso indo de orelha a orelha. Meus olhos lacrimejaram e eu sai o mais rápido possível daquele maldito quarto, não iria dar o gostinho a eles de me verem chorando.
Do lado de fora encontrei todas as minhas roupas espalhadas perto a rua, eles não haviam amarrado a trouxa e sei que fizeram aquilo de proposito.

Haviam pessoas observando toda aquela cena, algumas fingiram não estar olhando mas eu sentia o olhar de piedade delas sobre minhas costas. Eu não recolhi nada, apenas me sentei no degrau da calçada e olhei para cima, encarando a escuridão da noite. A minha vida era uma merda, foi assim desde que nasci. Cresci em um orfanato, sem família ou amigos. Depois passei a viver em um abrigo imundo, consegui um emprego de merda e foi assim que eu parei ali naquele apartamento lastimável.

Fiz dezoito anos na semana passada, não tive festa ou sequer uma parabenização de alguém que se importasse comigo, afinal ninguém nunca se importou mesmo. Alguns caras até tentaram, mas no fim eu sabia que eles só queriam transar, então ignorei todos.
Foi então que eu pude ver aquele contrato estranho por mais uma vez, ele estava entre as minhas roupas jogadas no chão.
Você deve estar se perguntando como eu consegui esse contrato, o que é, como ele é e o que está escrito. Bom, até onde eu sei é um contrato com o próprio satanás, diabo ou Lúcifer. Você escolhe se vai acreditar ou não, eu mesma não acredito, pelo menos não por completo.

Levei a mão até ele e o puxei de entre as roupas, agora só o que preciso é arrumar uma maneira de assina-lo usando o meu próprio sangue. Mas isso não seria um problema já que eu estava perto de uma lata de lixo, devia haver algum objeto cortante ali que pudesse me ajudar.
Me levantei e comecei a revirar o lixo como um gato noturno a procura de alimento. Encontrei uma garrafa velha de vodka e a quebrei, peguei um dos cacos de vidro e o usei para cortar meu polegar. Apoiei o contrato contra o chão e fui logo para o fim, havia um "x" marcado, certamente era ali onde eu devia assinar. E foi o que eu fiz, tremendo, escrevi cada letra do meu nome bem devagar, uma a uma.
Agora não tinha mais volta, a minha alma estava completamente sob a posse do diabo.

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