Capítulo 14 - Hellen

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Não precisou de uma entrada triunfal, com cavalo branco e um pajem tocando trombeta. Sem alardes, ou mesmo uma grande seta luminosa apontando em sua direção. Em minha mente, minhas poesias e minhas prosas sempre criaram uma expectativa bem diferente da realidade. Não era pretensão, não senhor, era apenas uma forma de passar o tempo, imaginar como seria quando finalmente estivesse cara a cara com a pessoa que Deus havia escolhido para mim.

Por isso aguardei, aguardei, e aguardei. Esperei sem medo, pois sabia que o melhor de Deus por vezes leva tempo, mas sempre vem melhor do que pedimos e esperamos.

A minha mente fervilhava, em ebulição. Não sabia se sorria, se chorava, se me ajoelhava e agradecia a Deus, ou simplesmente fingia que nada estava acontecendo e deixava o culto terminar. Tudo pareceu ter mais cor, sabe? Após tantas negações, não me deixava impressionar facilmente. Por me apegar com facilidade é que passei por tantos maus bocados. Mas hoje algo estava mudando. Não sabia como reagir. Mesmo sabendo que esse dia chegaria, nada nos prepara para o momento em que passamos de Platão pra Neruda, da ilusão para a realidade.

O culto terminou, mas fiquei paralisada no meu canto, sem saber para onde ir. Ouso dizer que quase esqueci – novamente – de Lídia, que veio ao meu encontro assim que o "Amém" foi dado.

— Mulher! E aí? Vai me contar o que aconteceu ou vai ficar com essa cara de quem está sonhando acordada?

Despertei do meu torpor, apenas para ver que ele, "ele" estava vindo em minha direção. Um frio na barriga já conhecido surgiu. Além disso, ainda sentia minhas pernas moles feito gelatina. Era esse o efeito que sua presença surtia em mim. Isso e o sussurrar do meu Pai momentos antes. Estranhamente, eu gostava dessa sensação, era uma forma linda de confirmar aquilo que já havia sido dito. Não digo que essa deve ser uma regra, você precisa ter uma certeza de Deus para tomar uma decisão. Essa confirmação pode vir de qualquer forma, só não pode deixar nenhuma dúvida pelo caminho.

Ele parou na minha frente, e me cumprimentou, estendendo a mão. Perdida demais no meu próprio mundo, deixei que sua mão pairasse no ar, acenei, fracamente. Porque eu fiz aquilo, até hoje é um mistério para mim. Ele sorriu, abaixando a mão, um pouco desconcertado.

— Tudo bem, acho que você só me reconheceria se eu estivesse com três livros de receita e nenhuma escolha, não é isso? — Um sorriso enviesado surgiu, me desarmando por completo.

— Nada...eu prefiro pensar que a minha memória é melhor que isso.. — Um riso nervoso de quem quer parecer legal, mas está eufórica demais pra isso.

Ele sorriu, e baixou os olhos para as mãos, que estavam unidas, talvez em sinal de coragem para o convite que viria a seguir. Ou talvez ainda estivesse pensando no aperto de mão que eu recusei sem querer.

— Só não nos apresentamos de verdade, naquele dia. Eu sou Marcos... — Ergue a mão em um aceno, imitando o meu gesto.

— Eu sou a Hellen, com "H"...

— Bom, Hellen...com "H". Estava pensando aqui com os meus botões, eu e mais alguns amigos vamos fazer um lanche aqui do lado, vocês querem ir com a gente?

Foi inesperado, com certeza. Isso me fez parar um pouco para pensar se deveria aceitar com prontidão, ou me "fazer de difícil". Não queria ser tão óbvia em meus sentimentos. Era mais seguro assim, mesmo tendo algumas certezas. Por outro lado, também havia a questão de que eu não costumava sair para lanchar com amigos rapazes, cresci aprendendo a pensar por mim e pelas outras pessoas. Defendia a minha honra como um cachorro defende um osso. Eu sei, parece bobagem, mas a mente humana é engenhosa demais para ser desconsiderada.

Sem esperar pela minha resposta, Lídia colocou-se à minha frente. Era sempre ela a tomar a iniciativa!

— Com certeza, nós queremos ir, não é, Hellen? — Com a cara mais "cínica" que você já viu, ela olhava para mim, provocativa.

— É...eu acho que podemos ir, sim. Seria um prazer! — Tentei manter a minha compostura com todos aqueles olhares na minha direção. Com aquele olhar na minha direção. Não era uma tarefa muito fácil.

— Ótimo! — Ele falou, sorrindo de orelha a orelha. — Nos encontramos lá, então.

Retribuí o sorriso e, mal o perdemos de vista, olhei furiosa para Lídia, que procurava um buraco para se esconder.

— O que foi isso? — Perguntei, pausadamente.

— Amiga, você precisava de uma ajudinha, deveria me agradecer, não fazer essa cena toda. — Fez "beicinho". — Ele claramente está interessado, e você parecia uma boba, olhando pra ele sem conseguir falar.

— Depois acerto as contas com você. Mas, agora temos que cumprir a sua promessa, não é? Vamos lá antes que ele pense que eu saí correndo.

— Eu sei que você está gostando da ideia... — Cantarolou — Você não admite, mas eu te conheço, mon amour...

O pior é que ela me conhecia mesmo, sempre conseguiu ler nas entrelinhas o que eu não era capaz de admitir em voz alta. Intimamente, ainda estava tentando juntar as peças daquele quebra-cabeça. Eu e ele. Dois mundos diferentes. Juntos. Era muita informação para um dia só.

Se bem que, mesmo sem querer admitir, já começava a fazer alguns planos mentalmente. Se Deus já havia pensado em nossos nomes no tapete da entrada de um apartamento, quem era eu para ir de encontro aos planos divinos? Em meu coração já nascia algo diferente. Guardei com carinho aquele novo sentimento em silêncio, relembrando de uma expressão tão repetida por mim mesma: "O que é para ser seu, encontrará o caminho até você". Então descansei. Deus estava no controle!

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!