Extra - A Escuridão e a Suicída

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"Se a luz que há em ti for trevas, que tremendas trevas serão" ~ Jesus de Nazaré

*

Coloquei a corda no pescoço e, depois de alguns segundos de hesitação, o corpo deslizou para baixo seguido de um bruto solavanco. Alguns espasmos, juntamente com pensamentos de arrependimento.

"Meu filho ...".

Um olhar agonizante no horizonte enquanto os olhos tentam saltar da face e a vida é cortada verticalmente.

Triunfo.

*

Algumas horas antes ...

Dora acordou um pouco mais animada.
Talvez aquele fosse o tão esperado dia do retorno de seu esposo a quem tanto amava.

Passou um café forte e cheiroso em seu coador de pano. Sentou a mesa para tomá-lo enquanto comia duas fatias de pão com doce de abóbora.

Deu bom dia para o filho assim que ele entrou na cozinha. Recebeu um "uhum" como resposta de Jeff.

Ocupou-se de suas tarefas. Alimentou os animais.

Tirou as botas e teve seu momento de prazer ao andar com os pés descalços no terreiro. Sentia-se como parte da terra e com energias revigorada. Mas estas novas forças não resistiam ao pensamento de que a vida injusta não seria amigável ao filho sincero.

"Se ele fosse mais ..." e muitos outros "SEs" a assaltaram, seguidos da ansiedade e a incerteza.

Preparou o almoço e viu o filho seguir o caminha da escola.

- Nunca será amado - martelou o pensamento em seu ouvido.

Tentou pensar em coisas boas e em como seria a vida assim que o marido retornasse com o sonho em suas mãos.

- Nunca voltará - sussurrou o pensamento ao fundo de sua mente.

Um calafrio correu por sua espinha. Suas pernas tremeram e ela desviou o olhar.

Sua infância não foi feliz. Mesmo sendo considerada como uma criança normal, Dora fora tratada com descaso pelos pais e até hoje não aceitava como sua a vida que possuía.

As barreiras que superou, sempre lhe pareceram como que roubadas de outra pessoa.

Era seu principal ponto fraco.

- Você é uma impostora e sabe disso - cravou em seu peito ressoando em seus pulmões.

Levantou-se e tentou tirar as idéias da cabeça como quem varre serragem na ventania.

Lavou o rosto, arrumou armários.

Sentiu a pressão em sua garganta.

Falou algumas palavras da fé mas sem nenhuma convicção, o que não fez diferença.

Chorou.

Sentiu o teto da casa de madeira ranger e apertar-lhe.

Arranhou-se e gritou em desespero.

O vento bateu janelas abertas e o ar se tornou rarefeito.

Um tinído em seu ouvido esquerdo soou initerruptamente como uma cigarra que pulava de um ouvido para o outro.

Uma vontade surgiu e esta vontade foi genuinamente dela e somente dela. Queria sumir, ser apagada como se não tivesse existido.

Eu me ofereci para atender seu pedido e ela aceitou. Suavemente beijei sua mão, rodopiei com ela em uma valsa e a possuí naquele instante.

Este foi o meu primeiro momento de êxtase no dia.

Neste incontáveis anos, cada momento como esse parece a primeira vez e cai no esquecimento assim que tocam o fundo do meu âmago.

A luz desaparece por completo e então eu cresço na mesma medida em que minha fome aumenta.

Ela, entorpecida observa-me levar seu corpo até a árvore onde será enforcada.

O corte da vida e o beijo da morte explodem em meu segundo e triunfal momento do dia e já não há mais nada.

Dos momentos e das almas tragadas já não me lembro mais.

Somente espero. Sedenta, de braços abertos.

Jeff mais leve que o arOnde as histórias ganham vida. Descobre agora