16b. Volta à escola (parte 2)

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— Então você é nova por aqui – ele quebrou o silêncio que se impôs. – De onde você é?

— Como você sabe que eu sou nova por aqui? – Perguntou ela se lembrando da visão que tivera em sua aldeia de um rapaz que ela jurava ser ele.

— As notícias nas aldeias se espalham rápido. E na escola também. Sei até que você bateu em um Karaí no seu primeiro dia de aula. Sabia que você foi o comentário principal das conversas na semana passada? Só que depois você não veio mais... sumiu.

— Estava doente. Meus pais acharam melhor eu faltar até melhorar. Então eu fui o alvo das conversas?

— Sim. A menina que voou para cima do rapaz e o esmurrou. – E depois ele completou como se falasse consigo mesmo: – E foi o que me deu as provas que eu precisava para confirmar quem era você.

Porasy achou que não tinha ouvido direito.

— Como?

— Nada. Deixa pra lá – Kauã a olhou por instantes, pensando em como mudar de assunto. – De onde vocês vieram?

— Somos de Dourados – Porasy respondeu bastante desconfiada.

— De qual Aldeia? Jaguapiru, Bororó...

Na cidade de Dourados havia várias aldeias indígenas. As duas principais eram as que ele havia citado: Jaguapiru e Bororó. Essas duas aldeias ficavam dentro da Reserva Indígena de Dourados. Uma reserva pequena em tamanho, mas com uma população muito grande: cerca de quinze mil indígenas.

— Na verdade, de nenhuma dessas – respondeu Porasy. – Somos do tekoha Apyka'i, e como a terra do nosso povo está nas mãos dos fazendeiros, vivemos na beira estrada.

— Em um acampamento de retomada?

— Isso. Conhece lá?

Ela temeu um pouco ao perguntar se ele conhecia o lugar. Salpicou na sua memória a imagem do rapaz que lhe aparecera no mato, ao lado do córrego. Ela não conseguia tirar de sua cabeça de que era ele.

— Mais ou menos – ele disse olhando-a nos olhos. – Já vi nos jornais e televisão, eu acho. Não foi lá que pegou fogo?

— Foi sim.

— Alguém se feriu? Digo... quando aconteceu o acidente.

Desta vez foi ela quem o encarou. Alguma coisa lhe dizia que ele sabia do "acidente" mais do que ele queria transparecer. Porasy olhou-o tentando ver mais alguma coisa em sua expressão, que parecia sombria demais.

— Não foi um acidente. O fogo... – ela disse deixando transparecer um pouco de raiva na voz. – O fogo não foi um acidente.

Ele silenciou por instantes. Pareceu a Porasy que pensava no que dizer. Como se escolhesse as palavras, ou mesmo como se escolhesse que mentira contar. Por fim ele falou:

— Então vocês não acreditam que foi um acidente, como a mídia mostrou, ou tentou demonstrar? Mas se não foi acidente, quem poderia ter colocado o fogo? Quem vocês pensam que fez isso?

— Temos muitos inimigos – a menina insistiu, agora muito irritada. Não gostava de ser contrariada nunca. E o rapaz parecia desdenhar do que ela falava. Ou temia sua resposta. – Aquela terra está em disputa há décadas. Nesse tempo os fazendeiros já fizeram de tudo para que saíssemos de lá.

— Ah tá! Os fazendeiros – de repente ele pareceu aliviado. – Então vocês acreditam que foram os fazendeiros.

— Eles próprios não. Alguém a mando de um deles, ou mesmo de todos eles. Eles têm muitos capangas. Gente disposta a tudo por dinheiro. Eles nos querem fora de lá.

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora