Capítulo 6

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A floricultura possuía cerca de seis metros de frente voltados para a calçada, sendo que quase quatro metros eram ocupados por uma bela vitrine de vidro por onde se viam sempre expostos buquês e arranjos dos mais variados. Como destaque nesta vitrine lia-se a frase "Quando as palavras fogem, as flores falam", que ela havia retirado de uma revista qualquer há tanto tempo que não lembrava mais quando a havia colocado lá – possivelmente já estivesse até na inauguração da loja, há mais de cinquenta anos, mas ela não lembrava e também pouco importava. Acima da vitrine, ficava o enorme e imponente letreiro com girassóis estilizados onde se lia de longe o nome da loja: Mar de Girassóis.

Atrás da vitrine, do lado esquerdo de quem entrava, ficavam vários níveis de estantes com os mais variados tipos de flores, ainda nos baldes com água, para que os clientes escolhessem as que mais gostassem e ela, junto com a sua neta e ajudante Bia, montassem então os arranjos na hora. Do lado direito da loja, presas à parede, ficavam diversas molduras com flores expostas, além de várias samambaias choronas, e embaixo ficavam os vasos com os mais variados tipos e tamanhos de girassóis, além dos tradicionais pinheirinhos para o caso de alguém que ainda não tivesse comprado uma árvore de Natal. Nos espaços vazios das paredes em que não havia flores ou molduras, havia quadros com desenhos de passarinhos, que eram a segunda paixão de dona Gilda, e que ela fazia questão de sempre mantê-los bem longe das gaiolas, deixando para admirá-los ao vivo e a cores na tranquilidade do seu sítio que ficava numa cidadezinha no interior do estado.

Na parte traseira da loja ficava o balcão do caixa e, atrás do balcão, cobrindo toda a parede, ficava uma minibiblioteca com variados livros onde os temas predominantes eram sempre o amor e as flores. Muitos destes livros ela comprava para revender para os clientes e ler nas horas de menor movimento na loja, mas se o cliente quisesse trocar ou até mesmo pegar emprestado para ler e devolver mais tarde, também não havia problema algum. O importante era manter a chama da leitura acesa, pois como ela sempre gostava de dizer - "Não existe livro ruim; ruim é não ler". E o pessoal até que lia bastante, principalmente as pessoas que trabalhavam ali próximo, como os atendentes dos bares e das lojas, as cabelereiras, os mecânicos e os executivos. Todos passavam por ali, principalmente na hora do almoço, para trocar algum livro ou simplesmente pegar ou devolver algum que já tivessem pego emprestado. Muitas vezes nem compravam flores, mas para ela também pouco importava, pois o mais importante era a sensação de dever cumprido em poder propiciar, à sua maneira, um pouco de cultura para as pessoas.

Ao lado do balcão do caixa havia uma porta que dava para a copa e para o banheiro. Entraram e lá estava a Bia terminando de preparar o café.

- Bia, temos visita! – gritou dona Gilda tão logo abriu a porta.

- Olá, mocinha. Como vai esta gatona?

- Oi, Pablo, está tudo bem. Quer um café? Acabei de fazer.

- É claro que sim. Deixa que te ajudo.

Ele lhe deu um beijo na bochecha e abriu em seguida a porta do armário, que ficava acima do balcão, onde pegou três xícaras e colocou-as em cima da mesinha. Dona Gilda já estava sentada remexendo no potinho do açúcar, que era estilizado em formato de cactos, enquanto o Pablo abria uma cadeira de ferro retrátil para sentar-se de frente para ela. Logo em seguida, Bia virou a sua cadeira de rodas do balcão para ficar no que seria a cabeceira da mesa, que na verdade era assim que eles denominavam aquela posição que ficava de costas para a porta que dava acesso à loja, até mesmo porque naquele espaço diminuto só cabiam mesmo três pessoas sentadas à mesa.

Bia tinha quinze anos de idade, mas seu corpo frágil e seu ar angelical lhe sugeriam cinco anos a menos. Tinha longos cabelos castanhos encaracolados, olhos curiosos e um sorriso contagiante tal e qual o da dona Gilda. Elas moravam juntas no mesmo prédio do Pablo, mas no terceiro andar, e ela havia ficado paraplégica num acidente de automóvel quando tinha sete anos. Após saírem de uma festa, seu pai havia bebido um pouco mais do que deveria e acabou perdendo a direção numa curva, onde o carro chocou-se contra um poste. Seu pai e sua mãe morreram na hora com o impacto da batida, mas ela escapou por pouco. Como os avós por parte de mãe já haviam falecido, dona Gilda, que sempre teve um carinho especial pela neta, adotou-a de vez sem pestanejar e, desde então, cuida com todo o amor do mundo para que nada lhe falte e nem lhe faça menos feliz. E quando não está na escola, ela faz questão de ficar sempre na floricultura ajudando a avó.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora