Capítulo 5

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Pablo morava no segundo andar de um prédio localizado na sempre agitada Rua Augusta, próximo da imponente Avenida Paulista, em cima de uma tradicional floricultura chamada Mar de Girassóis. Destino ou coincidência, possivelmente ele teria ignorado esse apartamento se a floricultura tivesse homenageado outra flor qualquer que não fosse o girassol, pois havia outros tão bons quanto e até mais próximos do seu trabalho ali mesmo na região da Avenida Paulista, mas sem dúvida alguma esse nome era emblemático o bastante para que alguém como ele que gostava demais de girassóis deixasse passar despercebido.

Esta verdadeira adoração começou no dia do seu aniversário de onze anos, quando a professora espanhola que havia começado a dar aulas de matemática lhe deu de presente onze vasinhos com um girassol em cada um, dizendo que isto era o símbolo da sorte. Talvez por conta da didática da nova professora ter sido realmente muito boa, o fato é que ele, que mesmo aprendendo tudo com relativa facilidade, em matemática ainda apresentava algumas dificuldades de uma forma em geral, mas naquele ano acabou passando nesta matéria com um pé nas costas e, de lá para cá, nunca mais deixou que faltasse girassóis onde quer que estivesse. Em seu apartamento, fosse através de quadros ou da própria flor, que ele deixava num vaso na área de serviço em cima da casinha estilizada em forma de iglu do Murilo, eram sempre muitos e por todos os cantos. No quarto onde dormia, inclusive, na parede atrás da cabeceira da cama, destacava-se um quadro gigantesco que mostrava uma vasta plantação com centenas de milhares de girassóis a perder de vista, mesclando o azul límpido do céu com aquele verdadeiro mar de tons amarelos.

O apartamento era relativamente espaçoso, com dois quartos, um banheiro, uma cozinha e uma pequena área de serviço, que era onde também ficava o iglu do Murilo, assim como a pequena cama verde redonda, a vasilha com água e os brinquedinhos dele. Um dos quartos ele utilizava como escritório e era onde repousava a sua coleção de canecas, que ele ia comprando em cada país que tivesse a oportunidade de ter visitado em férias ou a trabalho, além da imensa coleção de livros e outros tantos cds, que ficavam alojados numa parede que havia sido transformada integralmente em estante. Pôsteres de figuras emblemáticas que eram suas referências também ocupavam as outras paredes deste quarto, que curiosamente era o único cômodo que não possuía nenhum item alusivo aos girassóis. Estavam lá destacadas as capas dos álbuns Rocket to Russia dos Ramones, do London Calling do The Clash, do Creatures of the Night do Kiss, além de pôsteres dos filmes Rocky e do Poderoso Chefão. E no meio dos livros e das canecas ficavam dezenas de bonequinhos colecionáveis dos mais variados tipos como se fossem os verdadeiros guardiões da estante.

Do lado de fora, a permanente confusão de carros e pessoas vinte e quatro horas por dia debaixo das suas janelas, que eram todas cobertas com películas antirruído, para ele nem de longe eram problema, pois o mais importante é que naquela região ele podia fazer praticamente tudo a pé – do barbeiro à livraria, do cinema ao trabalho, da padaria ao mercado. E isto, numa cidade sufocante e estressante como São Paulo, era toda a diferença entre um pouco de paz e paz nenhuma.

Pablo parou o carro na garagem, que ficava no subsolo do prédio, mas antes de subir para o seu apartamento, resolveu dar uma passada na floricultura e conversar com a simpática dona Gilda, que era uma das sócias da empresa. Do alto dos seus setenta e cinco anos de idade, ainda mostrava uma garra invejável para cuidar diariamente dos negócios, muito embora seu corpo já viesse dando vários sinais de que já tinha passado a hora de se aposentar. Ela tinha os cabelos todos branquinhos, pois se recusava a pintá-los como forma de esconder a idade, e fisicamente ainda continuava bem magrinha para os seus quase um metro e sessenta de altura, o que lhe dava um ar de ilusória fragilidade.

Sempre com um sorriso no rosto, lá estava ela bem na porta de entrada despedindo-se de um cliente que levava consigo um grande buquê de rosas vermelhas, brancas e amarelas, quando Pablo veio lhe saudar:

- Oi, vovó, tudo bom? – Perguntou chamando-a carinhosamente pelo apelido.

- Tudo bem, meu filho, mas o que fazes tão cedo em casa? Cansou do serviço?

- Cansei. Hoje foi meu último dia.

- Último dia?

- Sim, último dia lá e primeiro dia de uma nova vida que começou há algumas horas.

Dona Gilda fez cara de espanto e, por cinco longos segundos, manteve-se imóvel olhando para ele, que ainda estava de short e chinelos, tentando digerir aquelas palavras estranhas e esse visual absolutamente incomum para uma segunda-feira. Afinal de contas, até semana passada ele falava sobre o final do ano e da expectativa para o ano seguinte, mas não havia mencionado em momento algum que iria deixar o emprego atual.

- Tudo bem, entra. Vamos conversar. Quer um café, meu filho? A Bia está lá na copinha terminando de fazer. – E lá foi ela em direção à copa sinalizando para que ele a seguisse.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora