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Capítulo Catorze: O Olhar da Morte

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"Deambulei por horas, dias, semanas. Encontrei um grupo de salteadores num vale arborizado. Escondi-me nas sombras e ataquei sem sobreavisos. Eu estava sedento de vingança; Apalasi estava sedenta de sangue. Nunca soube se aqueles homens mereciam a morte. Pelo menos, uma morte tão cruel quanto aquela que lhes ofereci. Degolei, desmembrei, cuspi para cadáveres enquanto praguejava aos deuses. Todos eles pagaram por um crime do qual não tinham culpa. Lucilla. Perdi Lucilla no último momento. O meu plano, o elaborado plano que tanto me inflamara de presunção, tinha falhado. Mas eu só pensava nela. Luce."

Havia uma caravana de camelos a atravessar a rua escura, empurrando a populaça para as bermas da estrada. Esperaram que ela passasse.

― Este fedor a camelos ― grunhiu Marovarola, levando a mão ao nariz ― dá-me sempre a volta ao estômago.

― O que me dá a volta ao estômago é a tua hipocrisia, Dagias ― murmurou Língua de Ferro, ao seu lado.

― Ora, Val... Todos queremos o mesmo, não adianta fingir que somos os melhores amigos, mas nunca fui hipócrita contigo; sempre soubeste que eras um instrumento nas minhas mãos.

A tentação de fazê-lo engolir aquelas palavras nauseantes com o seu aço era grande. Deixaram Tayscar amarrado no esconderijo da Companhia dos Ossos, assim como Seji, depois de encerrarem a taberna. Mais tarde, decidiriam o que fazer com eles. Os encontrões sucediam-se entre os transeuntes, a maioria gatunos e comerciantes, a fauna mais abundante nas ruas de Ccantia.

― Não subestimes a minha paciência ― disse Língua de Ferro ― , caminhamos há quase meia hora.

Marovarola virou-se com ar jovial e abriu os braços. Tinha o florete embainhado na anca esquerda e o seu olhar eram duas moedas de prata.

― Tu pediste para te levar ao rei do crime, aquele que controla os bordéis e faz tremer os agiotas. Não achas que a discrição é um seguro de vida?

Língua de Ferro franziu a testa e continuou a andar.

― Estamos a andar às voltas?

― Não exatamente, digamos que estamos apenas a seguir um curso mais longo.

― Estás a adiar o inevitável.

― Não, não, não, não! A evitar ser perseguido, o que seria de certa forma embaraçoso. Marovarola é um espião, ser alvo de perseguição seria o equivalente a ser apanhado a mijar num salão de baile, com as calças caídas pelos tornozelos.

Língua de Ferro sorriu. Estava na posse de faculdades que Marovarola não podia prever. Não estavam a ser perseguidos. Continuaram por uma via transversal, menos movimentada.

― Dagias Marovarola?

― Eu?

― És patético.

Marovarola encolheu os ombros.

― Eu sei que sim ― respondeu.

Pararam ao fim da rua. Ali ficava uma mansão de dois andares, com sebes de arbustos bem aparados a fazer de muro à volta de um jardim. Através do portão gradeado, com as figuras de leões encastrados em baldaquinos laterais, podiam ver um jardim colorido e bem podado, com canteiros altos e uma estrada de paralelepípedos em calcário.

― É a mansão de Averze? ― perguntou Língua de Ferro.

Marovarola meneou negativamente a cabeça.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!