Capítulo 13 - Hellen

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Aquele com certeza não era um dos meus melhores dias. Já acordei com uma forte dor de cabeça, como se tivesse levado uma pancada no dia anterior. Mas como isso não havia acontecido, achei estranho. Levantei com a pressa de uma lesma ao sol, e tentei reunir as ideias de forma mais ou menos concisa.

Previa uma longa tarde de estudos, só para revisar. Apesar de já estar em férias, mantinha uma rotina para não perder o costume. A formatura estava às portas, O TCC estava pronto e a vida parecia mais calma depois disso. Ainda assim, me sentia tentada a estudar mais um pouco, só pelo prazer de ter o que estudar. Podem me chamar de nerd, e talvez eu seja mesmo. Mas é um alívio saber que já tenho algum conhecimento armazenado.

O celular tocou. Sem muita coragem para começar o dia, segurei o aparelho entre as duas mãos trementes e li a mensagem, ainda com os olhos embaçados.

"Como parece que você me esqueceu de vez, estou passando pra dizer que não te esqueci, e que ainda moro aqui, do seu lado. O que aconteceu???" Lídia.

Lídia! Como pude esquecer minha melhor amiga? Fiquei tão empolgada com todas essas mudanças na minha vida que acabei esquecendo de incluí-la. Estava sendo realmente uma amiga da onça! Mas com certeza ela me perdoaria quando soubesse as novas! Pensei que seria melhor convidá-la para um lanche e conversar calmamente, em vez de mandar uma simples mensagem. Sim, eu faria exatamente isso.

Digitando uma mensagem rápida, marquei para nos encontrarmos no círculo de oração daquela tarde, e no final colocaríamos o papo em dia com um bom sanduíche na lanchonete ao lado da igreja. Animada com a mudança de planos para o dia, me ergui com mais energia, arrumei a casa num ápice e me organizei para sair. Estudei minha imagem no espelho, testando o cabelo em um coque alto, mas acabei por deixá-lo solto, como um véu sobre os ombros. Sempre gostei de usar os cabelos longos, era agradável a sensação de senti-los suaves na pele.

Peguei a bíblia, um CD, e saí apressada, tocando a campainha barulhenta da casa de Lídia, que já abriu a porta de braços abertos, correndo para um abraço.

---- Amigaaa! Achei que você estivesse chateada comigo! ---- Fazendo careta de amuo.

----- Que nada, Lids! Os caminhos de Deus realmente preencheram a minha mente todo esse tempo. Mas tenho tanto pra colocar em dia!! Vamos para o culto, e no final nos falamos...

Pela cara, ela não gostou muito da ideia de ter que esperar até o final pra saber tudo, mas que remédio havia?

Me ajoelhei no último banco reservado para os jovens, esperando não ser reconhecida. Que novidade! Queria mesmo ter um momento calmo só com Deus, sem exposição. Orei, apresentando a Deus a minha vida e minha adoração daquele dia, agradecendo por tudo o que Ele estava fazendo em mim. Sentei quietinha, olhos fechados e coração no céu. Aos poucos, os grupos de louvor foram recebendo oportunidade, e a cada momento que passava eu ficava mais feliz porque ninguém havia me visto. Foi uma felicidade passageira.

Para que vocês entendam melhor o esquema da minha congregação, os grupos estão organizados dos lados esquerdo e direito do templo, com os bancos virados para o centro, onde há outros bancos, olhando para o altar. Próximo ao púlpito ficam algumas cadeiras para os surdos, onde o culto é interpretado por um profissional das libras. Até o ano passado, essa medida ainda não havia sido tomada; mas, empolgada com a ideia de ser ainda mais útil na obra do Senhor, e vendo que muitos surdos não conseguiam acompanhar os cultos por razões óbvias, me propus a estudar a linguagem de sinais, na faculdade. Posso dizer que essa foi uma das melhores decisões que já tomei. Desde então, sou a responsável por esse departamento.

Naquele dia não havia nenhum dos componentes conhecidos meus. Eram todos ouvintes. Mas, à medida que o culto ia passando, via um ou outro chegando e sentando na área reservada. Sabendo da minha obrigação, juntei-me a eles e comecei a interpretar tudo o que acontecia. Mesmo desejando manter o anonimato, aquela era uma tarefa que me dava um grande prazer. Aqueles jovens dependiam de mim para entender tudo o que se passava no culto, e isso me fazia sentir necessária. Por menor que seja a sua função, ela é tão importante quanto qualquer outra, você deve entender que todos têm um papel essencial para o bom funcionamento da igreja local.

Em dado momento, um irmão foi chamado para louvar, mas antes, deixou um versículo que gelou meu sangue nas veias. Literalmente. "Agora, pois, me levantarei, diz o Senhor; agora me erguerei. Agora serei exaltado." (Isaías. 33:10)

Senti alguma coisa diferente quando aquele versículo foi falado, mas principalmente quando uma voz limpa começou a cantar que Deus tinha um plano para cada pessoa. Aliado ao fato de que aquela música em particular falava ao meu coração de forma maravilhosa, estava a certeza de que já ouvira aquela voz. Apesar de ter ouvido diversas vezes em outras ocasiões, nunca havia despertado nada "de outro mundo", e porquê agora?

Acompanhei a música cumprindo todos os sinais necessários para o entendimento dos meus alunos, e deixei minha mente se ligar inteiramente nos céus. Inevitavelmente, os olhos transbordam quando o coração está completamente cheio. Lágrimas sinceras lavaram meu rosto, mas não quis interromper os gestos. Uma paz inexplicável inundou minha alma, retirando todas as dúvidas que ainda permaneciam em mim.

Quando o hino terminou, voltei para o meu lugar, leve como uma nuvem. Bem próximo ao meu ouvido, uma voz falou: "É ele".

Olhei para os dois lados, julgando que alguém havia falado comigo. Mas não havia nenhum irmão por perto, e a voz era masculina, suave e mansa. Quando me dei conta de que a voz era Deus falando, fiquei tão feliz que a dor de cabeça parecia ter desaparecido por completo. "Meu Deus, é o que queres de mim? Me ajude a cumprir o teu chamado, não permita que me engane em minha decisão." Essa era uma oração que meus lábios já conheciam, era uma preocupação sempre permanente. Costumo dizer que sempre fui uma serva estilo Gideão, gostava de ter a certeza (absoluta) de que Deus estava comigo antes de dar qualquer passo. Era um bom hábito que havia me livrado de muita dor de cabeça. E olhe que eu já havia colocado ela a prêmio por diversas vezes...mas a misericórdia divina é inexplicável!

Mas, à medida que o culto ia se desenrolando, as confirmações eram feitas, sucessivamente. Até o próprio Tomé já estaria acreditando! Oh glória!

De longe, senti que alguém me olhava, de vez em quando. A princípio achei que fosse alguma coisa da minha cabeça. Mas quando aconteceu novamente, olhei e encarei, a fim de saber de quem se tratava. Foi com uma mistura de surpresa e alegria contida que descobri, camuflado entre outras pessoas, o rapaz dos livros de receitas!

Percebendo que havia sido interceptado, ele acenou e sorriu. E tudo pareceu fazer todo o sentido. Todas as vezes que Deus havia dado um "não" sem muitas explicações, todas as noites de silêncio absoluto, apenas a promessa de que o tempo iria chegar... Tudo parecia culminar ali, naquela meia-lua de sorriso que já expressava milhões de palavras não ditas e sentimentos não expressados.

Era ele!

Liberdade - Uma história de amor e fé [Não Concluído]Leia esta história GRATUITAMENTE!