Capítulo 12 - Marcos

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Os dias seguintes foram de turbulência. Emocional, mas não deixava de ser uma turbulência. Recordava incontáveis vezes os acontecimentos daquela tarde, na livraria. A minha maneira de lidar com isso sempre foi a mesma: escrever. Quando escrevia, as palavras fluíam sob os meus dedos ágeis no teclado do computador ou na folha de papel. Pessoalmente preferia digitar, porque as ideias vinham em uma rapidez tão grande, que esse era o jeito mais apropriado de captar a essência de todas elas.

Então foi isso que fiz. Aos poucos, a jovem que havia atravessado meu caminho por acaso começou a ganhar traços vívidos em minhas poesias. Era como se pudesse vê-la perfeitamente, descrita por adjetivos fortes e singelos, ao mesmo tempo. Sempre escrevi sobre tudo o que se passava dentro de mim, tudo o que me preocupava, admirava e fazia sorrir. Mas nunca havia escrito sobre alguém. Minha desculpa era que nunca conseguiria definir com exatidão um ser humano. Era como se quisesse respeitar a sua existência apenas no mundo real. Mas essa hesitação caiu por terra quando a conheci.

Parecia não faltar palavras para prosa e poesia. Escrevia porque me fazia sentir que todos aqueles acontecimentos não haviam sido um sonho. Escrevia porquê sentia-a bem mais perto de mim. Escrevia por que era esse meu talento, me esconder atrás das minhas páginas, imaginando sobre como seria se tivesse coragem para interceptá-la se a encontrasse novamente na rua.

Tanto escrevi, que acabei me dando conta de que ela nunca leria todas aquelas páginas escritas com tanta devoção e empenho. Era só um escape para a minha alma ansiosa e necessitada de um sorriso seu, de uma atenção demorada da sua parte. Incontáveis vezes orei a Deus, manifestando esse meu desejo de conhecê-la melhor. Não tinha ilusões de que algum dia seríamos eu-e-ela, mas a sua intervenção na minha vida real não passou despercebida, deixou uma sensação de paz indescritível! Mesmo falando apenas sobre receitas e amenidades, qualquer um poderia ver o brilho do Senhor em suas ações e palavras. O mesmo que eu gostaria de espelhar em minhas atitudes.

Cansado de viver apenas o sonho e imaginar o que poderia ter sido, "porque 'Ses' não fazem história", decidi que precisava fazer alguma coisa para mudar aquela realidade. Mentalmente, listei as pouquíssimas coisas que sabia sobre ela: fazia parte do mesmo campo que eu, fazia visitas aos hospitais às segundas, gostava de cozinhar...."Aff, só isso não me diz nada..."

Sem "material" para investigar, o único caminho foi esperar. Deixei nas mãos de Deus, e segui minha vida. Você já passou por algo semelhante? O apóstolo Pedro nos diz no seu primeiro livro, capítulo 5 e o versículo 7, que nosso trabalho é deixar nas mãos do senhor toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós. O mais interessante de tudo isso é que conhecemos tão bem a passagem, que sempre completamos as palavras de alguém que a cita. Você com certeza concluiu meu pensamento antes que eu terminasse a frase, o que significa que conhece bem a palavra, ou, pelo menos, a passagem. Mas o mistério a ser estudado é: porquê não a seguimos?

Aconselhamos dezenas de pessoas, talvez centenas, ao longo da nossa vida, mas quando estamos na mesma situação, é difícil seguir as palavras que repetimos com tanta maestria, não é? Alguém me explica porque isso acontece?

Esse pensamento me ocorreu enquanto lia o livro de Jó. O capítulo quatro foi como um balde de água fria no meu ego. Jó foi um personagem bíblico extremamente atribulado. Perdeu todos os seus bens, amigos, filhos, e por fim, sua saúde. Como se não bastasse, quatro amigos vieram ao seu encontro na intenção de confortá-lo, mas fizeram exatamente o oposto, acusaram Jó de ocultar seu pecado. Não compreendiam como um homem justo poderia sofrer tanto!

"As tuas palavras têm sustentado aos que tropeçavam, e os joelhos vacilantes tens fortificado. Mas agora, em chegando a tua vez, tu te enfadas; sendo tu atingido, te perturbas. Porventura, não é o teu temor de Deus aquilo em que confias, e a tua esperança a retidão dos teus caminhos?" (Jó. 4:4-6)

Era exatamente essa a sensação que eu tinha. Sabia que estar ansioso com o futuro não me levaria a lugar algum, e a saúde acabava sofrendo com esses acessos de ansiedade. Por isso, iniciei um período de preparação espiritual para os tempos que viriam. Deus estava me cobrando uma intimidade maior, e com pressa! E só havia uma forma de fazer isso, em oração!

Negando a minha natureza de amante da comida, comecei com o plano de fazer uma semana de jejum. Aprendi que não devemos fazer sacrifício de tolo, estendendo os esforços físicos até o insuportável, esquecendo de que o corpo também é templo e morada do Espírito Santo, e deve estar em ótimas condições de uso para toda a boa obra.

Durante uma semana, meu jejum seguiu até às duas da tarde. Meu desejo era passar mais tempo, mas a correria do dia a dia exigia que estivesse bem alimentado. Em todos os meus momentos de culto, apresentava a Deus sacrifício de louvor, e meditava em suas escrituras com uma sede cada vez maior. Recordei um tempo na minha adolescência em que enfraqueci espiritualmente por não estar mantendo a rotina diária de leitura bíblica e oração. Havia experimentado o que a falta dessa dedicação gerava, e agora estava me sentindo nas nuvens, descobrindo o prazer do alimento divino.

A palavra de Deus tem o poder de fazer reviver a sua vida espiritual de uma forma incomparável. Está triste? Tem resposta. Está feliz? Tem apoio. Está doente? Tem remédio. Está ansioso? Tem respaldo para colocá-lo no bom caminho.

Após a primeira semana de jejum, dei um intervalo para o corpo se recuperar, mas continuei a rotina de leitura. Com uma "dieta" dessas, só poderia dar em um resultado: resposta. No final do primeiro mês, algo surpreendente aconteceu. Minha fé, que já estava em boa forma, aumentou ainda mais depois desse acontecimento!

Naquela manhã, havia me programado para ir ao círculo de oração. Os momentos no leito do hospital me deram uma motivação ainda maior para buscar mais a Deus naqueles cultos. A irmã Necir era a dirigente, uma mulher de Deus, com palavra e unção da parte dEle. Tínhamos uma amizade muito saudável. Sempre que chegava lá, ela já me fazia um sinal para dizer que teria oportunidade. O famoso frio na barriga, mas logo superava o trauma!

Como disse anteriormente, meu amor pela música data dos meus nove anos de idade, quando realmente reuni coragem para louvar em público. Nem sempre fui uma pessoa extrovertida como hoje. Mas, à medida que eu fui crescendo, fui percebendo que cantar era mais que um hobbie, eu realmente amava fazer aquilo, e louvava a Deus por ter me dado a oportunidade de utilizar meu talento para a obra.

Todas as vezes que visitava o círculo de oração na congregação em que a irmã Necir cooperava, recebia oportunidade para cantar. Sempre era uma honra para mim, e naquele dia não foi diferente. Após todos os grupos oficiais terem dedicado o seu louvor a Deus, meu nome foi chamado.

Segui calmamente pelo caminho que fazia com frequência, abrindo a bíblia, pedindo a Deus que me mostrasse um versículo que alimentaria a igreja. Essa oração rápida também se justificava porque eu não previa a oportunidade. Eu sei, um soldado deve estar sempre preparado para a ação; mas simplesmente deixei passar.

O primeiro versículo aberto, foi aquele que li. Não aconselho ninguém a abrir a bíblia na hora e dizer no microfone a primeira passagem que aparecer, porque pode não encaixar com a situação em que você se encontra, como já vi acontecer diversas vezes.

O versículo que li, foi: "Agora, pois, me levantarei, diz o Senhor; agora me erguerei. Agora serei exaltado." (Isaías. 33:10).

Que tremendo! Imediatamente, senti uma graça sobrenatural descer sobre a minha vida. Queria prolongar aquele momento eternamente. O teclado do irmão que me acompanharia começou a tocar, e em voz emocionada iniciei: "Deus tem um plano em cada criatura, aos astros ele dá o céu..."

O hino mal havia começado, e já não conseguia cantar mais nada. Aqueles momentos de intensa comunhão com Deus estavam dando frutos, sentia a Sua presença bem forte ao meu lado. Um dos presentes que ganhei aquele dia foi o renovo. O segundo foi a resposta da minha petição ansiosa.

Em pé, ao lado do púlpito, interpretando em libras para um grupo de surdos-mudos, estava ela. Porque eu nunca a vira antes? Seu rosto estava banhado em lágrimas, enquanto gesticulava aquilo que eu cantava no púlpito. Vestia-se de forma moderna e modesta, mas ainda possuía uma beleza tão simples, que me comoveu de forma maravilhosa.

Suave como uma brisa, uma voz já conhecida minha falou claramente ao meu ouvido: "É ela".

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!