Capítulo 11- Marcos

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O que fazer quando você tem um segredo muito grande e que ninguém pode saber? Pessoas normais absorvem o que foi dito e seguem a sua vida, calmamente, como se nada tivesse acontecido. A diferença entre mim e as ditas "pessoas normais" é que eu não consigo ser tão indiferente a um segredo quanto elas. De verdade.

Aquela visão que havia recebido aos doze anos hoje me deixava cada vez mais ansioso. Na época não pareceu fazer o menor sentindo, mas agora tudo se encaixava. Mais ou menos. A minha mente de pré-adolescente viu apenas as crianças, e sentiu empatia pela situação em que elas se encontravam. Mas quando crescemos, amadurecemos e percebemos detalhes que antes não faziam tanta diferença.

Por exemplo, minha maior preocupação naquele momento era saber quem era a mulher que havia tocado em meu ombro e chamado para o almoço. Fiquei intrigado, tentando me lembrar daquele rosto que me parecia tão familiar na altura, mas que havia desaparecido da minha memória juntamente com a visão.

Estava sentado no sofá de casa, olhando pela janela, enquanto cogitava sobre esse assunto, quando meu pai me chamou. Minha mãe faria aniversário no dia seguinte, e ele sugeriu que eu comprasse um novo livro de receitas. Como se ela já não tivesse o suficiente para organizar sua primeira livraria e ganhar um bom dinheiro! Mas ela parecia amar ter cada vez mais volumes naquela prateleira que, de tão pesada, parecia uma mulher grávida. Pessoalmente, eu não poderia reclamar muito, a estante do meu quarto estava em condições igualmente precárias. Eram tantos volumes sobre comunicação, jornalismo e literatura, que mal havia espaço para as novas aquisições. Os livros mais recentes começavam a se acumular em um pequeno monte na mesa de escritório.

Fiz o caminho já conhecido até a livraria da cidade. Procurei logo pela seção de livros culinários. Havia tantos! Imediatamente percebi que não sairia dali tão cedo. Dezenas de capas multicoloridas se amontoavam em uma organização que eu não compreendia. Para mim era uma desordem de outro mundo. Como escolheria? "Vai ver que pagamos pela quantidade de receitas...", pensei.

Nessa definição, bastante precipitada, admito, iniciei uma investigação pelo livro que trazia mais receitas, pelo menor preço. Ainda corria o risco de comprar algum que a minha mãe já possuía. "Que dilema!".

Dirigi-me à estante mais próxima e selecionei dois dos livros mais grossos, e um volume mais fino. Levei os três para uma mesa e comecei a comparação dos índices e seus respectivos valores monetários. Sinceramente, eu não sei o que estava tentando provar com aquilo. Era para ser apenas uma compra de presente, agora parecia um exame admissional para um curso de exatas! Por sorte, uma senhora passou por mim, ela com certeza saberia como me ajudar!

— Moça, pode me ajudar aqui, por favor? — Falei, com os olhos ainda grudados nas páginas, e uma mão levantada. Interessado demais na minha busca para levantar os olhos. — Não consigo me decidir sobre qual dos livros tem mais receitas por um preço mais baixo.

Uma risada sonora estalou o ar à minha volta. A senhora era, na verdade, uma jovem. Deixei os livros para lá e ergui os olhos para ver de quem se tratava. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a sua risada. Acho que ninguém na livraria ficou indiferente a ela, mas acredito que foram motivos diferentes do meu. Aquele som preencheu todos os espaços do silêncio, deixando uma leve palpitação no ar.

Sorri, um pouco sem graça, sentido minhas orelhas aquecerem de vergonha. A presença daquela jovem havia me impressionado, ainda que eu não admitisse.

Com as mãos, ela enxugou os olhos úmidos da gargalhada, e me encarou, divertida. Agora que a olhava mais atentamente, via o quanto era bonita. Seus olhos negros conseguiam ser meigos e perspicazes, ao mesmo tempo. Eram como poços sem fundo, como se tivessem a capacidade de ler todos os meus pensamentos com apenas um olhar. Sua pele morena possuía um brilho natural. Não usava qualquer maquiagem, mas sua simplicidade foi o que mais me cativou.

— Desculpe, o que disse? Perdoe minha indiscrição, mas realmente achei engraçada a sua sinceridade. — Ela falou, deixando um vazio oco no meu estômago. Eu conhecia aquela voz! Foi a mesma que orou por mim enquanto estava no hospital! Mas que santa coincidência...

— Nem se preocupe. Em minha defesa, devo dizer que é a primeira vez que faço essa pergunta. Realmente estou precisando de uma mãozinha aqui. O aniversário da minha mãe será amanhã, e não sei qual deles devo comprar.

— Veja, eu sou bem suspeita para falar, porque amo cozinhar, e para mim todos eles ficariam muito lindos na minha estante. Mas, se precisa apenas de um, então sugiro que leve esse mais fininho. Provavelmente a sua escolha seria pelo que tem mais páginas, mas por vezes somos surpreendidos com as menores embalagens. — Ela sorriu, um sorriso de dentes perfeitamente alinhados, que interrompeu os movimentos de rotação e translação da terra.

— Muito obrigado, você acabou de salvar a minha vida. Serei eternamente grato, milady. — Curvei um pouco a cabeça, em sinal de reverência. Ela fez uma vênia suave, segurando as pontas do vestido, e sorriu novamente.

— Me desculpe a pergunta, posso estar enganado, mas sinto que te conheço de algum lugar.

— Sim, é verdade. Fui com a minha mãe e um grupo de irmãs em uma visita aos hospitais quando você estava internado. Mas julguei que estava dormindo... ---- Ela pareceu pensativa, talvez decidindo se eu seria um grande trapaceiro por fingir estar dormindo, quando deveria recebê-las. Ou seria apenas a minha consciência me acusando de fraude.

— Ah, tudo bem. Eu cheguei a vê-las sair do quarto. Sinceramente, não estava em uma situação muito boa para receber visitas. Fiquei um pouco acabrunhado. — Sorri, tentando disfarçar o turbilhão de pensamentos que povoavam minha mente.

— Não precisava. Nós sabemos como é difícil manter uma boa aparência deitado por tanto tempo em uma maca de hospital, ninguém te condena. — Levantou as mãos, em sinal de rendição, e riu.

— Se você o diz...

— Fonte fidedigna!

— Tudo certo, então. — Falei, sorrindo de volta. — Novamente, agradeço pela sua indispensável ajuda na escolha do presente ideal para a mamãe.

— Disponha! Então até já, fico feliz em saber que já está recuperado.

— Graças a Deus! Não tenho do que me queixar!

Ela acenou, e saiu, levando o brilho do sol atrás dela, e deixando um vazio silencioso ao meu lado. Esquecida a busca enlouquecida pelo melhor livro de receitas, minha pergunta mais urgente era outra.

Quem era ela?

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!