Capítulo 10 - Hellen

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Depois daquele segundo encontro, meus pensamentos sempre voltavam ao milésimo de segundo em que palavra alguma conseguia ser formulada em minha mente. Quando aquele sorriso surgiu em seus lábios. Eram apenas interjeições, involuntárias. Me obriguei a focar as minhas energias nas provas e trabalhos. Quem eu estava pensando que era? A herdeira de um reino riquíssimo? Precisava me esforçar para concluir esse bendito curso e ser alguém na vida, ora! Apesar de ser uma princesa por adoção divina, na terra eu precisava "suar a camisa" para ter um futuro minimamente promissor;

Minha mãe me viu andando sem rumo pela casa e me perguntou se eu não tinha alguma "lavagem de roupa 'pra cuidar". Quem nunca ouviu essa expressão, que atire a primeira pedra. Não quis mencionar o assunto antes de ter qualquer certeza, mas minha língua estava coçando um pouquinho para vazar todo aquele tumulto que bailava dentro de mim. Sempre fui muito próxima da minha mãe, mas certas áreas eu preferia deixar preservadas, apenas entre mim e Deus, adiando o momento em que pediria o conselho que mudaria não só a minha vida, mas também a dos meus pais.

Como cheguei a mencionar no início da narrativa, nunca superei o fato de não ter irmãos, e hoje deixo bem claro as consequências da escolha deles: muito em breve não terão mais nenhum "bebê" em casa para mimar. É uma pena.

Ao ver o seu "único exemplar de filha" rodando demais sem chegar a lugar algum, minha mãe me interrogou.

— Hellen, o que é tão importante assim que está deixando sua mente tão preenchida?

Confesso que fiquei envergonhada quando vi que minhas últimas ações não haviam passado despercebidas. Aquele era um assunto meu, eu deveria saber lidar com ele! Em vez disso, decidi que precisava compartilhar com alguém, ou explodiria.

— É que....sabe, mãe? Estou um pouco ansiosa esses dias. Há uma coisa que realmente vem tomando os meus pensamentos.

— Vem de Deus?

— Ainda não sei...

— Glorifica a Deus?

— Não são pensamentos maus, isso posso afirmar!

— Está tomando o espaço de Deus ou o tempo que você dedica a Ele?

— Bem, de certa forma está. Todas as vezes que vou orar, muitos planos preenchem minha mente, então percebo que em vez de orar, estou planejando o que fazer no futuro. A senhora me entende? — Era uma surpresa até para mim, constatar isso. Até então, nunca havia reparado que meus momentos de joelhos acabavam se tornando em uma sessão nostalgia. Mas era verdade.

— Minha filha. Nem vou perguntar a você do que se trata, porque quero que você resolva isso primeiro diretamente com Deus, que desenvolva um relacionamento mais próximo com Ele. Você está ansiosa com alguma coisa? Ore. Está precisando de orientação para tomar alguma decisão? Ore a Deus. Mais do que qualquer outra pessoa, Ele tem as respostas que você procura, e tem uma solução para todo e qualquer problema.

— É verdade, mamãe. Obrigada pelo conselho.

Minha mãe me deu um abraço e seguiu, com um sorriso nos lábios, para organizar alguma coisa na casa. Essa era a minha mãe. Terminava um afazer, começava outro. Dar um conselho à filha era mais uma de suas muitas especialidades.

Pensando no que ela havia me dito, fui diretamente para o meu quarto e fechei a porta atrás de mim. Nos momentos seguintes não seria incomodada. Me ajoelhei à frente da minha cama, fechei os olhos, e fiz uma oração sincera. Contei a Deus tudo o que estava acontecendo dentro de mim, mesmo sabendo que Ele já conhecia tudo como a palma de Sua própria mão.

Deus ama quando colocamos perante ele todas as nossas preocupações, procurando consolo em suas palavras e pedindo sua orientação. Gosta tanto, que sempre nos responde. Às vezes julgamos que ele está demorando muito, ou que não está nos ouvindo, apenas porque o ambiente à nossa volta parece tão silencioso quanto uma casa abandonada. Mas Ele sempre está ali do nosso lado, você sabia?

Não são todos os dias que sentimos Deus do nosso lado. Seria mentira afirmar isso. Há momentos em que não estamos sentindo nada, quando procuramos alguma pista de sua presença, mas nos deparamos apenas com um par de pegadas, ainda quentes. Eu estava me sentindo assim. Já estava insistindo com Deus sobre o mesmo assunto, mas nada acontecia, nenhuma novidade!

Um dia seguia-se ao outro, infatigável. Eu, por outro lado, já começava a me cansar. Até que um dia, em um dos círculos de oração que visitei, Deus usou uma irmã, que me disse:

— Minha criança, porque temes tanto pelo teu futuro? Não sou eu dono dele? Porque te apressas em fazer o que já disse ser meu trabalho? Aquieta-te, me busca, e vê o que farei contigo. Desce com pressa, porque o que tenho contigo é muito grande.

Aquela palavra foi exatamente o que eu precisava ouvir, depois daquele período de silêncio. Meu espírito se acalmou quase que instantaneamente. Voltei para casa como quem pisa em nuvens. Poderia pisar brasas quentes, não sentiria absolutamente nada.

Nos dias seguintes, foi isso que eu fiz. Dediquei-me ainda mais à palavra, e intensifiquei minha rotina de conversa a sós com Deus. O momento era de guerra, e eu queria estar preparada para tal. No fundo, sentia que havia algo mais. Aprimorei o ato de orar sem cessar, conversando com Deus em todos os momentos do meu dia; enquanto lavava o banheiro, quando entrava no ônibus, na hora do almoço, e até mesmo enquanto fazia meus trabalhos para a faculdade.

Então, aconteceu. Após dois meses, um pequeno brilho no horizonte. Não "a" resposta, mas ainda assim, uma resposta, dada através de um sonho. Nele eu estava em uma cozinha bem simples, com o que deveria ser um fogão a lenha, nenhuma geladeira, e um pequeno lavatório de barro em situação bem precária. O chão de terra batida era morno sob o meus pés, enquanto andava, cortando e reunindo algumas frutas para uma refeição. Lembro claramente que minhas roupas eram bem diferentes das que estou acostumada a usar. Uma saia longa com estampas chamativas e de cores vivas combinava com uma blusa igualmente colorida. Um turbante segurava meus cabelos, completando a indumentária.

No sonho, eu levava frutas e mandioca para uma mesa tão simples quanto demais itens da casa. Em seguida, me dirigia a um pequeno grupo de crianças de pele escura, que escutavam, embevecidas, as palavras de um homem, que estava de costas. Me aproximei da roda e apoiei suavemente a mão em seu ombro.

— Querido, traga as crianças, o almoço já está na mesa.

Quis permanecer no sonho por mais um tempo. Meu maior desejo era descobrir quem era aquele homem, aproveitar aquela sensação de paz e de bem-estar. Mesmo sabendo que aquele lugar não era meu país, me sentia em casa. Meu coração estava aquecido de amor por aquelas crianças, e principalmente, por aquele homem misterioso. A visão foi bem rápida, mas antes de desvanecer, uma voz falou, de forma audível, como se estivesse sussurrando ao meu ouvido:

"— Não tenha medo, minha criança. Tudo acontecerá conforme a minha vontade. Espere e confie. Falta muito pouco."

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!