Personagem #12 - A voz do Narrador

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Existe um princípio que um livro só deve ser narrado em primeira pessoa quando o narrador for uma pessoa muito interessante. Se ele não for uma pessoa única e carismática, para que dividir os seus pensamentos e opiniões com o leitor, não é verdade?

Imagine que você seja obrigado a ouvir uma pessoa chata contando uma ótima história. Você até tem curiosidade sobre o desenrolar da história, mas até a voz da pessoa te tira a paz. Você continuaria a ouvir a história? Provavelmente, não.

É o que acontece com os livros. A primeira pessoa caiu na moda e uma enxurrada de personagens sem sal nos contam histórias que poderiam ser boas a todo o momento. 

Então, a questão de hoje é que só devemos usar a primeira pessoa quando o narrador for interessante. Combinado?

E como deixar o narrador interessante?

O primeiro passo é conhece-lo e ao seu Arco dramático (PERSONAGEM #10).

O passo seguinte é traduzir tudo isso na sua voz. Não literalmente no timbre, mas na forma única que só ele pensa e fala. Entenda como a forma que ele enxerga o mundo reflete nas palavras que ele usa.

Tenha em mente que pessoas calmas e dinâmicas e agressivas ou pessimistas e otimistas e realistas têm discursos diferentes. Que pessoas que lutam para superar as suas perdas falam diferente das que desistiram de lutar. Entenda muito bem quem é o seu narrador, e então se pergunte:

Quais palavras ele usa?

Ele é uma pessoa que olharia para a chuva e a descreveria como irritante ou como a tradução do sentimento da natureza? Não use palavras que ele não usaria. Pense também no tamanho e na carga das palavras. Por exemplo, se uma pessoa é extremamente religiosa, não use palavrões. Se ela for um desbocado, qual é o seu palavrão preferido.

Sobre descrições, não cometa o erro de qualificar algo que o seu personagem não se importa. Se ele nem repara na diferença de tamanho das pessoas, não faça ele dizer que um sujeito é alguns centímetros mais alto do que o outro.

Qual o tamanho das frases que ele usa?

Ele é um sujeito de poucas palavras ou de grandes divagações? Além do padrão, atente que o tamanho das frases muda de acordo com a emoção que ele sente. Em eventos dinâmicos (desesperadores, por exemplo) as frases devem ser pequenas. Quando ele sente preguiça, as frases tendem a ser maiores, ainda que alongadas artificialmente por conectivos e repetições.

Qual o tom da narrativa?

Imaginem duas pessoas. Um acredita que o mundo não tem salvação. O outro é um religioso que dedica a vida aos mais necessitados. Ainda que a mesma coisa aconteça com os dois, eles a absorverão de forma diferente e isso impactará a sua narrativa. Essa mudança de percepção é o tom da narrativa.

OBS.: Se a sua história não captura a atenção do leitor, não deixe de se questionar se o narrador escolhido foi o apropriado.



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