Capítulo 9 - Hellen

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Os dias continuaram os mesmos. O final do curso já está se aproximando, e todas as minhas habilidades intelectuais estavam direcionada nesse sentido. Eram tantos trabalhos, que mal conseguia dormir! O TCC estava me tirando do sério! Lembrei de um dos conselhos que recebi assim que cheguei no primeiro dia de aulas: "Suas noites e seus fins de semana nunca mais serão os mesmos.". Eu ri junto com a classe, assumo, mas nunca pensei que aquela afirmação fosse uma das maiores verdades que meus ouvidos poderiam captar. Agora que o leite já estava derramado, só me restava descobrir como lidar com isso.

Não tenho assim tantos motivos para me queixar. Essa carreira foi o que eu escolhi para a minha vida, e realmente estou me sentindo em casa com todos esses termos técnicos e trabalhos práticos. Rádio nem sempre foi a minha primeira escolha, mas devo dizer que sinto como se estivesse começando a viver agora, depois que descobri esse amor pela comunicação. Raras vezes bate um desespero fora do normal, quando acumulo muita coisa para o dia anterior à entrega. Sou mais uma vítima da procrastinação.

Minhas sessões de estudo, entretanto, eram bem puxadas. Se tinha um dia livre, aproveitava todo ele para revisar aquelas matérias mais "chatinhas" e ficar por dentro de tudo o que estava sendo dito na sala de aula. Isso me dava um tempo mínimo para deixar a mente vagar. Pelo menos era o que eu tentava combinar com a minha mente. Mas aos poucos fui perdendo essa guerra, sabe?

Comecei a achar que alguma coisa estava diferente comigo quando me era pedido um ensaio ou artigo, mas eu só queria fazer poesia. Não via justificativa o que estava acontecendo. A bem dizer, sempre fui muito amante de rimas e versos, então era normal que meu pensamento fosse, todo ele, uma grande poesia, concordam?

Certo dia, estava eu em uma livraria do centro da cidade, quando o vi.

Preciso dizer que minha atenção estava completamente focada na sinopse de uma das obras de Jane Austen, Razão e Sensibilidade. Uma das escritoras mais amadas pela minha pessoa, e por milhões de outras. Mas algo me tirou o foco. Coisa rara de acontecer quando estou com um livro excelente em mãos e algum dinheiro no bolso.

Um rapaz estava parado no corredor de estantes repletas com livros de receitas. Em um dos braços tentava equilibrar dois volumes bem pesados, enquanto a outra mão segurava um livro, enquanto ele lia a contracapa. Achei aquela cena bem fora do comum. Não digo que homens não devem cozinhar; aliás, meu pai cozinha tão bem quanto a minha mãe! E por vezes, ouso dizer, até melhor! Mas aquele não era um acontecimento corriqueiro. Fiquei curiosa para saber o que ele tanto procurava. Sou dessas pessoas que quando veem alguém lendo, fazem uma manobra radical para conseguir ler a capa. É um desafio pessoal!

O rapaz misterioso não tinha nada de misterioso, na verdade. Compreendi, depois de alguns olhares furtivos, que era o mesmo que tínhamos visitado no hospital há algum tempo atrás. Percebi que tinha os mesmos cabelos castanhos vistos na mulher que nos recebeu no hospital. Naquele dia não havia dado tanta atenção, mas encontrei outras semelhanças entre os dois. Será que eram avó e neto, mesmo?

Ambos tinham o mesmo tom de pele, o mesmo jeito de se comportar, e aquele ar de quem está sempre de bem com a vida. Com a cabeça levemente inclinada, ele franzia os olhos para entender o que estava escrito. Não sei se o franzir era sintoma de um problema de vista, mas ele fazia aquele gesto parecer...belo.

Carregando os livros nos braços, sentou-se em uma das cadeiras disponíveis e posicionou as três capas, lado a lado. Abriu os três livros na primeira página e analisou o primeiro livro. Fez o mesmo com o segundo, e depois com o terceiro. Fiquei realmente intrigada. Como alguém procura por um livro dessa forma?

Querendo descobrir, passei de forma natural ao lado da mesa, mas sem olhar. Fingi que estava indo para outra sessão de prateleiras, e segui de queixo erguido e andar pausado. Tentem imaginar essa cena.

— Moça, pode me ajudar aqui, por favor? — Uma voz me chamou. A princípio não entendi de onde vinha, por isso fiquei procurando em volta, tentando encontrá-lo. — Não consigo me decidir sobre qual dos livros tem mais receitas por um preço mais baixo.

Não pude me conter, e dei uma risada, apenas para receber os olhares reprovadores das pessoas que frequentavam a livraria. A minha imaginação fértil já definia mil e uma razões que motivariam aquela busca estranha nos livros. Mas nunca, nunca teria imaginado que a razão era puramente a relação entre preço e quantidade de receitas.

Lembrei que o rapaz ainda estava ali, olhando para mim, com um ar divertido, mas ao mesmo tempo, sem entender o porquê da minha reação.

— Desculpe, o que disse? Perdoe minha indiscrição, mas realmente achei engraçada a sua sinceridade. — Falei.

Ele sorriu de volta, e aí tudo pareceu andar em câmera lenta. Foi como uma lufada de vento agradável no meu rosto.

Certo, dia perguntei à minha avó como ela soube que havia encontrado o amor da sua vida.

— Ele sorriu do jeito certo... — Ela falou, com ar sonhador.

Eu sei que não existe "um jeito certo" de sorrir, mas entendi o que ela quis dizer. Entendi mesmo.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!