Capítulo 8 - Hellen

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O tempo passou sem mais novidades. Cumpria com minhas responsabilidades de casa e da faculdade, ia aos cultos e círculos de oração sempre que podia, e lia livros incansavelmente, aproveitando todo e qualquer conhecimento que me era oferecido. Sempre fui de muitas leituras, essa era a minha marca registrada. Quem ouvia meu nome, já pensava em alguém sentado - antissocialmente - em uma varanda ensolarada, com um bom livro aninhado nos joelhos. Como evitar? Realmente eles (os livros) se tornaram meus melhores amigos e irmãos, que nunca tive.

Tudo parecia estar acontecendo conforme a rotina habitual a que estava acostumada. Era uma manhã de segunda-feira, bem ensolarada, daqueles dias bem alegres e brilhantes. Apesar de todo o preconceito humano pelos primeiros dias da semana, aquele era especial. Eu o recordaria milhões de vezes em minha mente, e teria dado toda a minha coleção de obras do Nicholas Sparks, se pudesse revivê-lo.

Como já era de costume, minha mãe me lembrou de que aquele era o dia em que visitaríamos os hospitais. Sempre achei lindo o trabalho que as irmãs faziam, visitando os enfermos que estavam detidos em uma maca hospitalar. Por isso, na semana anterior havia me candidatado a acompanhá-las.

Me organizei quanto ao horário e roupa que usaria, e preparei meu almoço, prevendo que já iria de lá para o círculo de oração. Entramos no carro, eu e minha mãe, e nos dirigimos ao primeiro hospital da nossa "listinha".

Aquela foi uma das manhãs mais produtivas da minha semana. Conheci tantas histórias, que me sentia tentada a escrever um livro, reunindo todas elas. Pois é, aliado ao amor pelos livros estava o amor pela escrita.

Passamos por três hospitais. Uma reunião havia sido feita a fim de planejar todas as alas que visitaríamos por semana, de maneira que todos recebessem orações e uma palavra de conforto divino.

Faltavam apenas trinta minutos para o meio-dia, quando decidimos ir ao último hospital da lista. Costumo dizer que aquela meia hora poderia ter sido uma vida inteira, porque foi o ponto de virada da minha história, ainda que eu não o soubesse. Gradativamente, como um chuvisco de chuva que vai ensopando a terra seca, os acontecimentos que se seguiram foram modificando os meus planos de vida.

Entramos no hospital Don Álvaro, e começamos nossa maratona de visitas. Era quase meio-dia quando entramos no último quarto. Batemos à porta e aguardamos a permissão para entrar. O ambiente era claro e asséptico, como todos os hospitais devem ser. Uma cama estava posicionada no meio do quarto, rodeada de equipamentos. Uma janela larga deixava entrar a luz do dia através de venezianas brancas.

Na cama, dormindo, estava um jovem de idade indefinida. Não dei muita atenção, já tinha visto tantas pessoas naquele dia. Era "só mais um na multidão".

A voz que nos convidou a entrar era de uma senhora miudinha, que estava sentada no sofá, ao lado da cama. Ao entrarmos, ela levantou-se e nos recebeu com um sorriso largo e acolhedor. Seus cabelos castanhos e cacheados, emolduravam um rosto em forma de coração. Seus olhos negros e vivos sorriam igualmente, contrastando com o seu tom de pele cor de caramelo.

Apesar de ter idade avançada, seu rosto não era marcado por tantas rugas. Decidi mentalmente que gostaria de envelhecer assim, ainda que marcas de expressão sulcassem a minha face, seriam lembranças de muitos sorrisos e felicidade plena. Imaginei que ela fosse a avó do rapaz que estava deitado. Ângela, era o seu nome.

Juntamente com minha mãe e mais duas irmãs da nossa congregação, me aproximei da cama e iniciei uma oração a Deus. De certa forma, aquela oração foi diferente de qualquer outra que havia feito. Havia uma ligação diferente entre mim e o paciente do quarto. Mas como isso era possível? Nem o conhecia! Foi uma sensação diferente que me invadiu quando pedi pela sua proteção e recuperação, como se realmente me importasse, como se ele fosse alguém muito querido. Encerrei a oração sem mais delongas, querendo me livrar daquela sensação, apesar de ter sido bem agradável, na verdade.

Quando estávamos saindo do quarto, reparei, pela minha "visão periférica", que o rapaz não estava tão adormecido assim. Um dos seus olhos abriram, de soslaio. Mais uma vez, fiquei pensativa. Ele claramente estava acordado quando chegamos. Mas porquê nos ignorar de forma tão exagerada?

Nem quis me ater muito a esses pensamentos, já tinha tanta coisa em que pensar, tantos trabalhos a concluir! Deixei o assunto para lá e segui a minha vida.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!