Prólogo

5.3K 486 49


Marina

Há certas situações na vida da gente que não têm explicação, e eu digo isso com conhecimento de causa, pois, há alguns anos, eu tinha uma vida que poderia ter sido considerada perfeita, mesmo eu sendo uma menina comum numa família de classe média.
Porém, tempos de calmaria podem prenunciar tempos de pura turbulência, e foi isso que aconteceu comigo. De repente, aquela menina que só conhecia a felicidade descobriu que a história da gente não é construída somente com risadas.
Assim, posso dizer e precisar o momento em que minha sorte virou completamente.
Eu tinha 12 anos, estava confusa, rebelde e entrava em embates constantes com meus pais, até que minha mãe, um dia, saiu para trabalhar e não voltou. Não, ela não nos abandonou; infelizmente, a violência de nossa cidade fez mais uma vítima naquele dia e, para nosso profundo pesar, não era uma vítima anônima, era a esposa amada do meu pai e minha mãe querida.
Ficamos só ele e eu para aprendermos a lidar com a vida da forma com que minha mãe gostaria. Tornamo-nos inseparáveis, e ele esteve presente nos momentos mais tristes e felizes da minha adolescência.
Foi ele quem me consolou quando tive meu coração partido pela primeira vez; foi ele quem reuniu meus amigos para uma festa surpresa quando completei 15 anos; quem me buscou numa festa quando eu estava bêbada demais para voltar sozinha; quem esteve representando minha família quando me formei no ensino médio. Ele era a única pessoa que eu tinha, meu pai.
E eu sempre enchia meu peito de orgulho ao falar dele para quem quer que fosse. Ele dizia que eu tinha um futuro brilhante pela frente e quase chorou quando passei no vestibular para cursar a faculdade de Direito. Dizia que eu teria as oportunidades que nem ele, nem minha mãe tiveram.
O sonho da minha mãe era ser advogada, e ela trabalhou em um escritório como secretária durante alguns anos, mas nossa situação financeira não permitia que ela realizasse o sonho de estudar. Então, eu ter entrado na faculdade para ser uma futura advogada enchia meu pai de orgulho.
Eu respiro fundo ao me lembrar do meu pai, ao pensar no que ele estaria sentindo nesse momento, vendo-me assim, sentada num banco da praça de alimentação do shopping, com um jornal aberto nos classificados e desanimada, triste por não ter conseguido realizar os sonhos dele.
Um casal de idosos sentados à minha frente me olha notando a tristeza e as lágrimas que caem dos meus olhos. Eu sorrio triste para eles, tentando parecer bem. Eu tenho que estar bem, porque eu preciso seguir em frente.
Fecho os olhos e penso em papai de novo. Eu o enterrei há algumas semanas e mal tive tempo para estar triste por ele. Tinham tantas coisas para eu resolver dentro e fora da minha casa que eu não consegui parar para digerir a dor da perda.
Eu quero tentar me lembrar dele como eu estava fazendo há pouco, pensando nos momentos bons, nas alegrias, no orgulho, nas risadas. Não quero pensar nos últimos três anos, nem nas últimas semanas, porque eu tenho certeza de que ele não gostaria que eu o fizesse.
O Senhor José Henrique dos Santos era um homem muito orgulhoso, e eu gostaria de preservar o orgulho dele, mesmo em pensamento. Lembrar somente que ele era um dos melhores, quiçá o melhor, e mais honesto taxista que o Rio já teve. Ele amava dirigir, conhecer pessoas e fazer amigos. Lembrar-me de quando ele me levava para o ponto de táxi, próximo ao Copacabana Palace, e eu fingia ser uma estrela de cinema hospedada em uma das Penthouses*  e pedia a ele que me levasse pelos locais turísticos da cidade.
Suspiro com um sorriso de saudade no rosto. Eu amo muito essas lembranças e ainda não sei como vou conseguir viver sem mais momentos como aqueles. Ele foi o melhor pai que uma garotinha poderia ter, e eu lhe disse essas palavras antes que ele desse o último suspiro.
Limpo um lado do meu rosto encharcado pelas lágrimas. Meu pai, meu amado pai, foi-se para sempre.
— Marina? — escuto alguém chamar meu nome. Abro os olhos e vejo uma senhora cujas feições não me são estranhas.
— Sim?
Ela se senta à minha mesa parecendo preocupada.
— Você está bem? — Olha meu rosto fixamente.
Com certeza eu devo estar pior que um espantalho! Eu passei o dia inteiro andando debaixo de um sol inclemente, com uma sensação térmica igual à do inferno, com saltos, maquiagem e uma esperança de conseguir um emprego.
Provavelmente, o que ela vê quando me olha é uma mulher chorona, com a maquiagem toda borrada e os cabelos se soltando de um tosco coque em cima da cabeça.
— Estou — digo ao tentar limpar o rosto. — Desculpe, mas a senhora é...?
Ela ri, e eu tenho a lembrança sonora dessa risada.
— Tia Cidinha! — fala animada, como se eu pudesse me lembrar apenas por seu apelido. — Do Copacabana Palace! Você ia trabalhar com seu pai e ficava na porta do hotel...
Ah, sim! A camareira que sempre me dava as balas que ficavam na recepção. Que coincidência!
— Sim! Quanto tempo... eu estava me lembrando daquela época...
Ela concorda com a cabeça, pesarosa.
— Meus sentimentos. Eu soube do seu pai. — Agradeço com um sorriso triste. — Há alguns anos que eu não a via, você se parece muito com sua mãe.
Ouvir isso me enche de orgulho, porque minha mãe era linda, por dentro e por fora, e eu quero muito seguir seus passos e ser uma pessoa de luz.
— Marina Morena! — Ela ri. — Seu pai amava seu nome.
— Caymmi, ele amava Caymmi**! — Boas lembranças passam pela minha mente. O som do carro tocando Caymmi ao fundo enquanto ele e eu íamos à Quinta da Boa Vista.
— Eu te vi aqui, tão triste. Eu sei que a dor de perder um pai, ainda mais sendo seu único familiar, é triste, mas eu queria dizer que você não está sozinha, pode contar comigo.
— Obrigada! É bom saber que não estou só. — Sinto novas lágrimas rolarem. — Eu me sinto tão perdida!
Ela se levanta, senta-se ao meu lado e me abraça.
— Pode contar comigo, Marina. Eu não sou rica, mas a ajudarei no que puder. E quanto ao carinho, minha filha, estou à disposição para quantos abraços forem necessários.
Suas palavras, seus abraços e sua força me consolam. Sinto-me melhor agora que tenho alguém para falar.
— Eu andei o dia todo hoje, ontem e anteontem. Rodei todo o Méier, fui ao Centro, à Zona Sul, e nada! — Olho em seus olhos. — Eu não consigo um emprego!
Ela toma minhas mãos nas suas.
— Não desanime...
— Não posso desanimar. A senhora se lembra de quando meus pais compraram o nosso apartamento? Como meu pai me falava disso! Agora eu preciso mantê-lo, e ainda há as dívidas do hospital...
Não quero pensar na quantia que eu devo, não posso pensar nisso. Não havia leitos para a internação de papai em hospitais públicos, e eu, no meu desespero, internei-o num particular. Ele merecia o melhor, mas eu não pude dar a ele. As lembranças do segundo evento mais triste da minha vida me assolam.
Era um dia quente, próximo ao Carnaval, a cidade estava movimentada e papai tinha trabalhado a madrugada toda, mas ainda queria dobrar o turno. Porém, de repente, ele caiu no chão ao lado do táxi e foi levado às pressas para o Souza Aguiar.
Ele sofrera um AVC, um Acidente Vascular Cerebral. Depois de semanas internado, ele voltou para casa, mas nunca mais foi o mesmo. O homem alegre e forte não podia mais andar, nem falar.
Eu estava cursando o terceiro período do curso de Direito, mas tive que trancar a matrícula, pois, além da necessidade de cuidar do meu pai, eu não tinha mais como pagar as mensalidades, visto que a aposentadoria por invalidez, que ele passou a receber, mal cobria os gastos de seus remédios e da manutenção da casa.
E foi assim, três anos inteiros cuidando dele e o vendo pouco a pouco perder o brilho no olhar e a vida. Não tínhamos mais plano de saúde, não tínhamos mais carro, mas eu o levava às sessões de fisioterapia e às consultas com o cardiologista e o neurologista.
Confesso que não foi fácil. Ele dependia completamente de mim, mas estava ali, presente, ao meu lado. Era com ele que eu conversava sobre o futuro, mesmo sem ter perspectiva alguma; eu queria continuar alimentando nossos sonhos e, assim, mantê-lo com esperança e ganas de viver.
No entanto, no último ano ele apresentou vários problemas, principalmente respiratórios, pneumonias seguidas, insuficiência respiratória – essa, fruto de muitos anos como fumante – e problemas gástricos por causa dos medicamentos.
Por fim, ele desenvolveu um quadro de embolia pulmonar, e foi isso que o levou para sempre. No fundo, eu sei que ele descansou, mas isso não diminui a dor de não o ter mais.
Agora, sozinha, sem nenhum familiar a quem recorrer, eu tenho que lutar contra meu luto para seguir adiante. Não tenho profissão, não tenho formação, não tenho experiência... maldita experiência!
— Sabe, Marina, eu trabalho na zona oeste agora, num hotel internacional de luxo bem no meio da área comercial da Barra da Tijuca. Eu vou conversar com alguns conhecidos e ver se posso te ajudar com algumas entrevistas.
Eu sorrio, sentindo que isso pode dar certo.
— Eu não sei como agradecer a ajuda! Eu aceito qualquer coisa que possa me auxiliar a sair dessa situação e prometo à senhora que serei exemplar...
Ela ri e toca minha bochecha.
— Marina Morena, não sou uma fada-madrinha, mas eu prometo que farei o máximo para conseguir que você realize esse sonho.
Pega um guardanapo e anota um número de telefone, e eu faço o mesmo, anotando o número do meu celular.
— Me liga daqui a alguns dias para me dar um retorno de suas tentativas; enquanto isso, eu vou tentar balançar a varinha lá na Zona Oeste. Se conseguir algo primeiro, te ligo! — Pisca e sorri. — Não desanime, nosso encontro hoje não foi por acaso.
E com essas palavras, ela se despede de mim e vai embora.
Eu faço uma oração de agradecimento. Meus pais sempre me ensinaram que há mais coisas a agradecer do que a pedir, então, sempre agradeço primeiro e depois, gentil e fervorosamente, peço.
Eu não me importo de trabalhar muito, desde que isso mantenha um teto sobre minha cabeça e alimento em minha mesa. Por favor, por favor!

--------------------------------------------

*. As Penthouses são sete suítes do Belmond Copacabana Palace, na cobertura, cada uma com 100m² de área, terraço e piscina privativa.

**. Dorival Caymmi (Salvador, 30 de abril de 1914 - Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2008). O nome da personagem é Marina Morena, inspirado na música Marina, de 1947.

Negócio Fechado [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!