Capítulo 7 - Marcos

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Já haviam se passado duas semanas desde o acidente, e eu ainda continuava no hospital. Não entendia porque ainda tinha que ficar ali por tanto tempo. Já estava entediado com os poucos canais de TV aberta que repetiam as mesmas programações incontáveis vezes. O momento mais "alto" do meu dia era quando uma enfermeira chegava para olhar como estava o soro e trocar os meus curativos. Até as horas pareciam passar lentamente, como se zombassem do meu estado deplorável. Decidi que precisava encontrar algo mais útil e rentável para passar o meu dia, além de estar parado contando os segundos no relógio de parede.

Me sentia como se estivesse preso a um asfalto em fase de endurecimento. Não me permitiam levantar sequer para ir ao banheiro. Já estava imaginando, sairia dali tão trôpego, que precisaria de umas boas sessões de fisioterapia.

Felizmente, em uma dessas tardes de muito tédio, uma irmã bem idosa veio me visitar. Apoiada em uma bengalinha simples, ela entrou no quarto, me saudando com a paz e mostrando um sorriso acolhedor. Quase me senti bem o suficiente para sentar e conversar com ela cara a cara. Mas aí lembrei que iria precisar de braços para me apoiar, o que estava em falta, no momento.

Irmã Josefina, era o nome dela. Aproximou-se a passos curtos da minha cama, e disse que havia trouxera um presente para mim. Fiquei realmente lisonjeado. O máximo que havia recebido até aquele momento era a assistência constante dos profissionais do hospital e a sopa rala de costume. Era uma surpresa agradável, sem dúvidas!

Ela abriu a sua bolsa, e de lá tirou uma bíblia pequena.

— Mas eu já tenho uma bíblia... — Tentei argumentar.

— Essa aqui vai te acompanhar nos próximos dias, você vai precisar dela.

— Eu poderia pedir à minha mãe que trouxesse a que deixei em casa, irmã Josefina, não precisava...

— Seja paciente, meu filho, você deverá estar preparado algo que vai acontecer. Leia todos os dias, fortifique a sua fé e não deixe ninguém tomá-la de você. Deus tem um plano tão grande em sua vida! Mas não pense que tudo será apenas um mar de rosas. O caminho será tão estreito! Ainda assim, se você continuar firme, aceitando e abraçando o que Deus tem para a sua vida, a recompensa virá doce. E você colherá acompanhado. Tudo já está preparado.

Nesse momento eu já não conseguia conter as lágrimas. Chorava feito criança. Todos os meus passos até ali eram permissão de Deus, disso não tinha dúvidas. Por mais estranho que pudesse parecer, cheguei a tentar o suicídio, em uma crise na adolescência, quando não conhecia a Cristo como O conheço agora. Aliás, o que conheço, sei que ainda é uma porcentagem mínima, comparada à grandeza de toda a sua essência. Apesar dos anos de evangelho, ainda me sentia como um novo convertido, que conhecia muito pouco sobre o seu Deus. Na verdade, quando é que compreenderemos a Deus em sua totalidade? Ainda assim, perseguimos diariamente esse sonho de conhecê-lo mais e mais.

Enxuguei os olhos sem jeito, tentando me recuperar. Agradeci o carinho da irmã Josefina, e a sua disposição em vir me visitar, e guardei a bíblia com carinho. Depois que ela saiu, fiquei pensando comigo mesmo sobre o significado daquelas palavras. No meu íntimo eu sabia o que estava sendo escrito para o meu futuro. Aos nove anos de idade, já louvava na igreja. Meu amor pela música sempre foi um mistério para os meus pais. Ninguém da família cantava ou tocava qualquer instrumento. A especialidade deles era cuidar das pessoas, ambos médicos. Orgulhavam-se de exercer uma atividade que era útil para a sociedade e para o povo de Deus.

Quando eu tinha doze anos, Deus me deu um sonho que me fascinou e marcou a minha vida de forma inegável. No entanto, apenas anos mais tarde Deus me permitiu compreendê-lo com mais clareza. No sonho eu estava sentado em um chão de barro, com as pernas cruzadas e uma bíblia no colo. À minha volta, meia dúzia de crianças de pele escura me olhavam, atentas. Suas roupas eram bem gastas e remendadas, seus corpinhos magros chegavam a dar pena. Cada palavra que era lida e explicada por mim, a partir da bíblia, parecia desaparecer sob o prazer ávido de aprender daquelas crianças. A mão de uma mulher tocou o meu ombro e me chamou por um nome carinhoso, me convidando a levar as crianças para o terraço, porque o almoço estava pronto.

O terraço era uma clareira formada por algumas árvores de grande porte. Uma mesa rústica equilibrava-se parcamente, sob a pressão de várias outras crianças que se amontoavam e acotovelavam-se para conseguir um espaço. A mulher que havia me chamado trouxe algumas bandejas com bananas assadas, batata doce e mandioca. A quantidade era bastante reduzida para o número de crianças ali presentes, mas com mão hábil, ela dividiu a alimentação por todos os pratos, deixando apenas a minha porção e a dela, na bandeja.

Acordei sobressaltado, procurando descobrir de onde eu conhecia aquelas crianças e porque estavam presentes em meu sonho, se nunca havia visto nenhuma delas antes. E quem era aquela mulher? Por mais que tentasse e me esforçasse, não conseguia recordar o seu rosto, foi apenas um vislumbre, enquanto durou a visão. Senti uma pontada de desânimo.

Agora tudo parecia fazer mais sentido, depois do que a irmã Josefina falou. Eu não poderia ficar de braços cruzados, precisava procurar maior intimidade com Deus para entender melhor seus planos em minha vida. Se era esse o propósito da minha existência, eu estava disposto a assumi-lo com honra. E por mais que parecesse difícil o caminho que estava prestes a se desenrolar diante dos meus olhos, eu queria estar preparado o suficiente para ser útil no futuro que Deus estava arquitetando para a minha vida.

Com esse pensamento, voltei a adormecer um sono sem sonhos, mas o coração estava contente e esperançoso. Deus estava me lapidando para um grande propósito, ainda que no momento não o compreendesse em sua totalidade.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!