Capítulo 6 - Marcos

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Dizem que as coisas acontecem quando menos esperamos. Eu só não queria acreditar que essa regra também se aplicava a coisas ruins. A viagem estava sendo uma bênção para mim, ouvir aquelas palavras ditas pelas senhoras era tudo o que eu precisava naquele momento. Foi então que ouvimos um barulho ensurdecedor, quando o ônibus derrapou e bateu de frente a um caminhão de carga. Só ouvi meu último pensamento "Jesus, tenha misericórdia de mim" e tudo se desligou.

Quando acontece algum acidente, é normal que se junte uma multidão de pessoas em volta do(s) acidentado(s), procurando satisfazer suas próprias curiosidades, ou de outros. Nunca gostei de fazer parte deste grupo, sempre tive medo que, do nada, o carro explodisse, ou que algo inusitado acontecesse e eu saísse pior do que tinha chegado. Não me levem a mal, sou um homem prevenido.

Tão prevenido que não pude prever o acidente. Nunca pensei que algum dia estaria do lado de lá, sendo observado e dissecado pelos olhares da multidão. Todos os passageiros foram levados para o hospital; fui o primeiro a ser socorrido, já que o meu estado era o pior. Aparentemente ninguém estava de pé, o que é estranho numa condução lotada.

Fiquei inconsciente por vinte e seis horas! Acordei com um bip surdo vindo de uma máquina ao meu lado. Demorei para entender onde me encontrava e como havia chegado ali. Meu Deus, tudo tinha sido tão rápido! Experimentei flexionar os braços e pernas para ter um "relatório mental" do que havia ocorrido. "Perna direita...tudo certo! Perna esquerda...gesso! Braço direito...gesso, braço esquerdo...enfaixado. Ótimo, pelo menos ainda estão todos ligados ao meu corpo."

Ri da minha própria situação, tão seguro de mim, achando que era independente...um "empurrãozinho" no ônibus e ali estava eu, parecendo um boneco de gesso. Quanto tempo ficaria assim? O meu trabalho não esperaria por mim. É claro que tenho uma desculpa maravilhosa para faltar, mas minha ausência significaria correr o risco de perder alguma parte do salário. Ou pior, o emprego! E os meus pais? Será que eles sabiam que eu estava deitado numa maca sem poder me levantar? O que minha mãe diria quando me visse naquela situação?

Estava tão concentrado nos meus próprios pensamentos, que não me dei conta quando um grupo de senhoras passou pela porta. Escutei quando começaram a falar com uma das enfermeiras que estavam responsáveis pelo meu quarto. Quase que automaticamente, decidi fechar os olhos e fingir que estava dormindo, não me sentia em condições de falar nem dar algum depoimento. Precisava colocar a minha mente em ordem, antes de mais nada.

Aos poucos ouvi o som se aproximar da minha cama. Três ou quatro senhoras me rodearam e oraram pelo que me pareceram cinco minutos. Tive uma leve impressão de que conhecia uma delas, a voz era familiar, mas não me arrisquei a abrir os olhos. Impuseram as mãos sobre a minha cabeça, braços e pernas, sempre mantendo o mesmo tom de voz baixo para não me "acordar".

Minha mãe estava ao meu lado, e levantou-se para cumprimentá-las. Como eu não a vi por aqui?

Três das irmãs foram para as outras camas vizinhas, apenas uma continuou, orando com fervor. Apurei os ouvido para entender o que dizia. Era uma moça, era possível entender o tom jovem da sua voz.

"Senhor, eu não sei o que aconteceu com esse rapaz, mas tem misericórdia dele, faz o teu milagre nessa vida. Se ele ainda não te conhece, que a oportunidade surja e possas fazer a diferença na vida dele como fizeste na minha. Não deixe nenhuma sequela, que ele consiga voltar a andar..."

Era muita consideração orar assim por alguém que não conhecia. Fiquei bastante tocado com aquela oração. Não era eloquente, nem procurava ser egoísta. Ela orava com o coração, como se eu fosse um parente muito próximo, como se me conhecesse e não suportasse a ideia de me ver sofrer com algum dano irreparável, por causa do acidente. Entendi naquele dia o que era uma oração sincera, com coração contrito e quebrantado.

Confesso que se não fosse já um seguidor de Cristo, aquela oração me faria levantar da inconsciência e aceitá-lo com pressa. Senti-me muito melhor em saber que alguém estava dispensando seu tempo para interceder por mim. Não me esqueceria de agradecer em oração por aquela intercessora, em particular, caso nossos caminhos se encontrassem novamente. Mas quais são as chances de reencontrar alguém apenas pelo tom da voz?

Depois de algum tempo, a oração terminou, e a moça saiu, agradecendo a resposta divina. Me concedi alguns segundos de olhos abertos para captar algumas poucas imagem daquelas irmãs que haviam orado por mim. Grande foi a minha surpresa quando reconheci duas delas: as senhoras que estavam comigo no ônibus! Grande foi a minha surpresa quando vi que elas estavam em perfeitas condições! Quer dizer, para quem estava atrás de mim no mesmo ônibus acidentado...Deus realmente tem seus próprios caminhos, não adianta tentar entender. Parecia que aquele acidente havia sido preparado não para a minha destruição, mas para que eu voltasse ao primeiro amor! Os pensamentos dEle, aprendi com o tempo, sempre serão mais altos que os nossos. (Isaías. 55:9)

Quando ainda estamos pensando na matéria prima, Ele já está com o produto final nas mãos.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!