Capítulo 1 - Hellen

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Meu nome é Hellen, mas poucos ainda me chamam assim, por acharem que tenho cara de 'Danielle', meu segundo nome. O nome Hellen significa 'aquela que brilha', e acho que combina muito com minha personalidade; Danielle quer dizer 'Deus é meu juiz'. Um ótimo nome para afastar quem acha que pode se meter comigo...

Não sei me apresentar formalmente como é feito nos livros. Acredito que quem se define se limita, e eu não quero me limitar a um palmo de palavras quando eu sei que sou mais que isso. Não acham justo? Eu também....

Tenho 21 anos de idade. Completei agora no meio do ano, 6 de Junho. Não foi uma idade linda como dez, quinze, dezoito ou vinte. Foi apenas um 21 insosso, com sabor de rotina universitária. Ah, quase me esquecia, sou estudante de Rádio e Televisão, completamente apaixonada pelo que faço. Estou cursando o último período, contando as horas, minutos e segundos para me formar. Uma das melhores festas da vida. Finalmente terei a profissão que sempre desejei.

Sou filha única, se bem que nunca desejei isso. Mas qual a influência que nós filhos temos sobre essa decisão na família? Venho conversando com meus pais sobre o assunto há mais de quatro anos. A desculpa é sempre a mesma: sou suficiente na vida deles, e a chegada de mais uma criança pode mudar tudo. Não preciso dizer que não concordo com o argumento. Não gosto do silêncio que fica na casa quando todos estão trabalhando e eu estudando no meu quarto amplo.

Naquele dia, liguei a televisão para me distrair um pouco dos muitos conceitos que ainda tinha que revisar antes das provas da semana seguinte. "Jovem de 19 anos encontrado morto..." 'clic' "Confirmado o envolvimento de crianças no tráfico de drogas no morro das azeitonas..." 'clic' "Nova análise evidencia o aumento da criminalidade e mortalidade no país.." 'clic'. É impossível se distrair quando na televisão só passam notícias de horrores e crimes. Na verdade, acabei me acostumando a esta nova realidade. Apesar de ser brasileira, vivi 19 anos da minha vida na Inglaterra. Não sabia o que esperar quando regressasse ao meu país de origem.

É complicado quando você admite que gosta mais do país que te acolheu do que daquele em que você nasceu. Não posso dizer que me sinto culpada, porque está longe de ser a verdade. Mas às vezes sinto que não me orgulho muito de tudo o que acontece por aqui. Sei que problemas todos os países têm, só conseguem esconder de forma que nem a mídia seja autorizada a divulgar sua 'roupa suja', mas como evitar? É uma questão de opinião formada ao longo de mais de duas décadas de vida. Amo de verdade o meu país; entretanto, gostaria que muita coisa fosse diferente. Mas quem sou eu para mudá-las?

O celular anuncia a chegada de uma nova mensagem. 

"Dani, hoje tem avivamento em Vale das Flores, você vai?" 

  Era Lídia, a minha melhor amiga. Conhece aquela pessoa que se identifica em tudo com você? Que já sabe o que vai falar antes de ser dito? Que sabe tudo sobre você em apenas dois anos? Eu pensava ser impossível, mas existe.  

"Estou terminando de fazer a revisão do dia, mas não quero perder". Digito, rapidamente.

 "Tudo bem, posso ir com você?"

"Vamos! Sairemos antes das 13:00." 

"Combinado! até já!" 

Fechei os cadernos, não estava com muita paciência para estudar. Guardei os livros, me arrumei para sair e fui almoçar. Não sei se esta é a melhor forma de comer, mas engoli tudo em menos de cinco minutos, não queria me atrasar, e detesto chegar quando o culto já começou.

— Hellen Danielle, coma isso devagar. Ainda se engasga... — Esta é minha mãe, está de costas para mim, terminando o almoço do papai, mas ainda assim me conhece sem precisar olhar. Incrível.

— Não, mamãe. Eu só não quero chegar tarde. Lídia já deve estar me esperando.

— Ou come devagar, ou não sai. — Falou na minha língua, não posso correr o risco de tentar desobedecer. Desacelero e já vou escolhendo mentalmente um hino, caso receba oportunidade. Não consigo fazer uma coisa de cada vez, meu cérebro parece estar sempre na base da cafeína, apesar de detestar café e sempre rejeitar.

— Terminei! — Levo o prato para a pia, escovo os dentes, lanço um beijo 'via aérea' para a mamãe e o papai, que está resolvendo documentações no escritório e desço as escadas quase correndo.

Lídia já me esperava na esquina. Somos praticamente vizinhas, não fosse um pequeno supermercado instalado entre as duas residências. Não precisei explicar nada, ela entendeu que nenhum minuto poderia ser desperdiçado, então partimos embaladas pelo sol castigante. Vinte minutos depois chegamos na congregação. Ajoelhei-me para orar e senti que aquele dia seria diferente de todos os outros, que algo aconteceria naquele culto, só não sabia o quê.

Inconscientemente, orei para que algo novo fosse feito naquela tarde, que fosse inesquecível. Estava farta da rotina da faculdade e cheia de tantos trabalhos. Precisava daquele círculo de oração para voltar a encher o vaso de azeite. Sem dúvida, aquele dia seria memorável. Era fácil perceber pela graça que já começou a ser derramada desde o momento em que os hinos congregacionais foram cantados. "Fala, fala, Senhor nesta hora, que ansioso Te quero ouvir...". Nunca me esquecerei daquele dia. Minha vida deu uma volta completa de 360º, e eu nunca mais fui a mesma. Naquele dia, eu tinha 16 anos e uma sede de viver além do normal, mais que isso, eu ansiava por mudanças...foi mais ou menos o que recebi.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!