09 - 11/9 - Parte Final

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  Ver a luz do dia mais uma vez: uma das mais belas coisas que os sobreviventes experienciariam ao sair daquele buraco. Conforme as pedras foram sendo tiradas por Olívia, os soldados entraram e guiaram os remanescentes assustados para fora, dizendo que tudo estava bem. Um homem mais velho explicou que as pedras também serviram de camuflagem para qualquer exército do Norte que pudesse estar invadindo-os.
  No caminho de volta, uns sobreviventes consolavam os outros quando se davam conta que muitos outros dos seus amados provavelmente não tivessem sobrevivido. Então, cruzando a mata, o grupo se esbarrou com Sonia e Yvanta voltando de mãos dadas - uma das mãos da russa segurava a mão de uma criança e a outra, uma corda preparada para o suicídio. A menina logo viu que não precisaria perder as suas esperanças na vida logo cedo: a mãe estava coberta de terra, porém, entre os que conseguiram ficar vivos. Yvanta e a mãe dispararam uma em direção a outra. Os seus braços as envolveram uma na outra. Lágrimas de alegria. Olívia, Alice e Ruth foram em direção à Sonia, que engoliu seco a vontade chorar que lhe apertou o peito, ao ver o reencontro de uma mãe e uma filha. A Sete brasileira viu a corda nas mãos da russa. Sentiu algo nisso e perguntou sobre qual seria a utilidade do objeto. Sonia explicou que seria a caça. Alice pode sentir que isso era uma mentira, mas concordou com a cabeça enquanto manteve os olhos inquisitivos sobre aquela Sete .

*

  Agora todos estão reunidos. O delicioso burburinho de muita gente conversando, trocando vida. Yvanta e a mãe se deliciam com a existência uma da outra em uma conversa em que a voz da criança predomina a maior parte do tempo. Micaela se achega enrolada em manto e com a cara de sono. Anne volta junto com Ruma de sua missão de consertar os emanadores de calor e fica ao lado da Sete grávida. Mica tenta abrir um sorriso suave, mas falha. Ela ainda não está bem, ou pelo menos, ainda não se recuperou totalmente.
Lura vem em passos decididos e sobe em cima de uma rocha de tamanho maior. A sua túnica vermelha flamula. Os seus olhos queimam cheios de foco; de fome. Ela inicia o seu discurso:
- Olhem o que o Norte fez... - ainda meio que falando consigo mesma - Olhem o que o Norte fez! Olhem o que o Norte fez! - Ela solta em um brado rasgado, com veias saltando no pescoço e de punhos fechados e erguidos. Lágrimas gotejam rapidamente do seu rosto.
- Ontem à noite, fomos atacados no nosso momento mais frágil. - Maika manca até se juntar ao grupo.  - O Norte se aproveitou de nós. Malditos como sempre. Infieis e incrédulos! Não acreditam na vida, na união, nas Águas. - Maika quase meneia aqui, mas percebe que há muita gente ao redor e desiste. A segunda ajudante de Lura está insatisfeita. Com as mentiras e manipulações de sua líder, só agora depois de ser colocada de escanteio. Ruma é eficiente e não provoca tragédias como Maika fez com que Micaela causasse.
- Passei o tempo todo até agora formando equipes de busca, com as quais, as nossas queridas Sete cooperaram. - Ela direciona o olhar para Olívia, e sorri em aprovação. Ollie deixa o próprio semblante mais leve. Algo finalmente mudou e ela percebeu: ela não fugiu dessa vez.
- Mas, além disso, rastreei a nave que lançou as bombas e pude captar algumas poucas conversas por comunicadores.  Sei onde estão. - Ela olha para as seis das Sete reunidas. - Ou melhor, para onde estão indo. - Ela deixa o seu olhar se perder no horizonte. - Para a Fenda.
Todos engolem o fôlego de surpresa.
- O que é essa Fenda, caramba? Não fiquem assustando a gente. - Anne zombeteia consigo mesma. Mica consegue soltar um riso tímido e acaricia a própria barriga.
- Ótimo! Pelo menos, fiz você sair da sua fase emo tardia.
- As nossas Sete presentes devem estar se perguntando sobre o que deve ser a Fenda. É necessário lembrar que ainda não terminamos o nosso treinamento. Continuaremos aqui com perseverança, enquanto tentamos reparar a maior parte das instalações da nossa cidade subterrânea. Enfim, a Fenda é o ponto quase que mítico onde está a passagem para a Terra e o seu controle. Ou seja, por onde vocês chegaram a este mundo. - E eles querem encontrar os seus familiares e os trazer para cá, como reféns. - Os queixos das seis presentes caem, cada um a sua maneira. Anne gargalha para dentro de braços cruzados, Mica engole a vontade de chorar, Ruth ergue as sombrancelhas num "é sério?" e se lembrou dos familiares restantes; Sonia pisca mais rapidamente que o normal, Alice deixa o espanto tomar o rosto e Olívia se lembra do que deixou na Terra: o seu noivo, a única família que ainda a ama. Entretanto, os corações de todas doem.
- Sim, minhas queridas Sete, o que eu prometi está se cumprindo e o que nós temos que fazer agora é chegar à Fenda antes deles... Antes que eles torturem quem vocês amam e a quem o poder deste mundo pertence por direito. Algumas de vocês irão conosco e outras ficarão para ajudar. Aproveitaremos a oportunidade para capturar esta nave. Usaremos isso em nosso plano de guerrilha. Contudo, essa missão de agora é só o começo: depois da noite de ontem, não ficaremos mais quietos! Vamos acabar com o reino estragado desses desgraçados do Norte! Será o fim do governo grotesco da Caleena! Não nos destruirão e não deixaremos barato por terem tentado nos destruir num momento de tanta fraqueza.
- Caleena? - Anne se pergunta perdida.
- Ouvi falar que é a presidente da capital do Norte.
- Hmm... - A finlandesa responde ainda prestando atenção no discurso de Lura.
- Será o fim desse legado de morte e mentiras! Será o fim! - O povo remanescente, então, celebra retumbante. As seis presentes se entreolham e acenam em concordância umas para as outras. Dá pra perceber: um fogo foi aceso nessas mulheres. As tais chamas da guerra. Diante de todo esse ruído, Lura sorri com profundo prazer: sim, será o fim... Será o fim de tudo.

*

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now