Capítulo 4

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Apesar de toda a expectativa, com o passar do tempo a apresentação do presidente foi deixando cada vez mais evidente que a sua hora realmente ainda não havia chegado. Mesmo com toda a relevância estratégica para a organização, mas talvez por ter sido implantado no final do ano e ainda estar começando a colher resultados, o seu projeto para digitalização de todo o atendimento ganhou apenas um parágrafo num dos slides de principais realizações no ano. E, se algum desavisado tivesse entrado bem ali no meio da apresentação, acharia que a pintura do prédio matriz teve a mesma relevância estratégica para o futuro da empresa.

Pablo se coçava na cadeira e, nesse ritmo, enquanto a apresentação evoluía, um misto de frustração e insignificância cresciam de forma exponencial dentro dele, deixando-o cada vez mais triste e decepcionado. Em alguns momentos até batia um surto de coragem para se levantar, ir até o palco, pegar o microfone e dizer que "este menino continua fazendo um ótimo trabalho" ou ainda que "este projeto economizará milhões e colocará a empresa à frente no mercado melhorando o relacionamento de forma inovadora com os clientes", mas logo caía em si percebendo o quão idiota era, pois a máquina que comandava a empresa seria sempre infinitamente mais forte do que ele. Por mais força que pudesse fazer para mudar o status quo, o único jeito de mudar de verdade as coisas e começar a viver a vida de outra forma seria levantar a cabeça, abrir a porta e partir. Afinal de contas, com ele ou sem ele, a empresa continuaria de pé. E a água no copo, que já estava cheio, com mais estas gotas não demorou para transbordar de vez.

- Não estou me sentindo bem – cochichou ao ouvido de Alice.

- Também não estou. Essas apresentações me deixam sempre enjoada e enojada.

- Vou lá fora tomar um comprimido para dor de cabeça e pegar um pouco de ar fresco para ver se melhoro.

Pablo saiu e não voltou. Desligou o smartphone do trabalho e foi direto para a recepção pedir o carro. Quando ele chegou, entrou, abriu os vidros, ligou o som e colocou para tocar o mais alto que as caixas de som pudessem aguentar outra das suas listas de punk rock e partiu. Saiu sem rumo e nem direção, pois não estava com a cabeça para pensar em nada – apenas queria que a música entrasse pelos seus ouvidos para espantar o mal-estar que havia se apoderado de sua mente e que o vento soprasse bem forte em seu rosto para levar para bem longe todo aquele teatro e aquelas picuinhas de mais um dia numa multinacional. Almoço de confraternização com a diretoria? Ele estava fora. Festa de final de ano à noite? Também estava fora. Voltar a trabalhar no dia seguinte? Só se fosse para entregar o pedido de demissão e acertar as contas com o RH, pois sua carreira como executivo, enfim, chegava ao fim sem choro e nem vela. Saudades? Certamente agora não, mas imaginava que os seus colegas iriam sentir alguma, ainda que fosse apenas no primeiro dia até organizarem o trabalho e redistribuírem as tarefas. Afinal de contas, toda empresa tem um quê de lagartixa, que mesmo perdendo um pedaço do rabo, ainda assim consegue recuperar-se rapidamente para sacudir a poeira e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

Dirigiu assim por algum tempo até que se lembrou do Parque do Ibirapuera ali próximo do hotel e então resolveu fazer a volta para chegar até lá. Entrou, estacionou o carro e não teve maiores dificuldades para trocar de roupa, pois como não tinha participado da última partida de futebol com os amigos na quinta-feira passada, ainda havia dentro da sua bolsa no porta-malas uma camisa e um short limpos, além de um par de chinelos, o que eram perfeitos para a ocasião. Subitamente todo o mal-estar que vinha sentindo desapareceu e seu corpo começou a ser tomado por uma indescritível sensação de liberdade assim que calçou o último chinelo e começou a caminhar por uma das pistas de corrida que o levaria para o coração daquele gigante verde encravado no meio de uma das maiores metrópoles das Américas.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora